A orquestração contra a imprensa — e como ela é antiga

Já contei isso aqui e no blog Novo em Folha. Certa vez, cobrindo a polêmica dos alunos da USP contra a PM no campus, ouvi de um deles a pergunta: “Quantas mentiras você já publicou hoje?”. Eu estava com um carro com o logo da Folha, era repórter de Cotidiano. Claro que, no fundo, fiquei puta com o desrespeito ao meu trabalho. Mas o sujeito não é jornalista e não tem obrigação de saber como se faz jornalismo. Por isso, rebati bem-humorada: “Você já leu o jornal de hoje?”. Diante da negativa, entreguei a edição para ele ler e vi uma transformação diante de mim: os mesmos estudantes que tinham me evitado, de forma bastante arrogante, ao verem a logo do jornal, agora tentavam apontar defeitos na reportagem que eu tinha escrito na véspera e, surpresos, acabaram admitindo que estava equilibrada, tanto no texto quanto na edição.

Normalmente eu não entro em discussões com quem pensa muito diferente de mim e já se posta como dono da verdade. Me canso por antecipação. Mas quando o assunto é jornalismo, encaro até esses mais fechados e autoritários, porque não é raro eu conseguir mostrar, com argumentos concretos, que não é bem assim. E ganho um pontinho na luta contra a orquestração que está sendo feito contra a imprensa, desde a criação da sigla “PIG”, se não me engano pelo Paulo Henrique Amorim (justo quem), até a cegueira coletiva que se instaurou em partes do país com relação a problemas no governo Lula (que existiram independentemente dos pontos positivos das duas gestões. E que foram destacados, sim, pela imprensa, porque esse é o papel da imprensa.).

Sim, porque o que há é uma orquestração. A imprensa burguesa versus os esquerdistas mais autoritários versus os direitistas atucanados.

O negócio é o seguinte, penso eu: as sociedades mais avançadas do mundo possuem mídias e imprensas de todos os matizes ideológicos e a riqueza daquelas democracias está justamente em existir esse farto acesso a informações de todos os tipos para os cidadãos. No Brasil, temos poucos grupos de mídia com poder concentrado (muitos dos quais pertencentes a famílias de políticos e coronéis) e uma blogosfera que, na maior parte das vezes, está dominada por personagens daquelas mesmas mídias, em termos de relevância do trabalho feito e da repercussão que conseguem obter com os posts. Não é o ideal? Provável que não. Seria legal se tivéssemos 500 grupos de jornalismo com poderio econômico suficiente pra manter uma Redação cheia de bons repórteres investigativos, que pudessem trazer informação de qualidade ao povo.

Mas estamos falando de Brasil, um país com poucos leitores e até mesmo poucos letrados, no sentido pleno da palavra. E estamos em plena crise das Redações tradicionais, que estão demitindo boas pessoas, se enxugando, trazendo cada vez menos furos relevantes e, infelizmente, sem nenhuma contrapartida na tal da internet “livre”, uma vez que os bons jornalistas ainda não aprenderam a se sustentar na rede e continuar fazendo o que tinham condições de fazer numa grande Redação.

Ou seja, esse mundo ideal não existe, meus amigos. Então temos pelo menos que desejar o fortalecimento das atuais Redações que já estão bem estabelecidas, e cobrar delas um trabalho de qualidade e com o máximo de pluralismo possível. Que coexistam Veja, Carta Capital, Época, Piauí, Folha, Estadão, Super, Valor, Caros Amigos etc. E que esses grupos coexistam com os blogs, inclusive, que têm recebido publicidade do governo do mesmo jeito que os grandes. Os leitores não são burros: que eles tenham discernimento para ler todos os tipos de informação e tirar as conclusões que quiserem. E que os orquestradores, em vez de acharem que todo jornal que bate no governo (atualmente, no Lula/Dilma) não presta, dediquem meia hora de seu dia para, pelo menos, lerem aquilo que querem criticar, para criticarem com mais razão o que precisa ser criticado. Em vez de desrespeitarem o trabalho de pessoas sérias que querem fazer jornalismo sério, inclusive.

Eu nem ia postar nada hoje, porque estou de folga depois de um plantão, mas um artigo do Eugênio Bucci que li à tarde me inspirou. Ia só colocar o link para ele aqui, mas empolguei. Agora é tarde, não vou deletar. Mas ainda vale ler o que ele diz, porque ele demonstra, com maestria, que essa orquestração não é nova e já ocorreu, por exemplo, na ditadura militar brasileira. A diferença é que antes os interessados em enfraquecer a imprensa eram os milicos e seus adeptos. E hoje são os adeptos do atual governo federal. O resultado é o mesmo em ambos os momentos: ruim para a democracia (como lembrou a própria Dilma), bom para o autoritarismo e para a corrupção.

Quando são não-jornalistas a acharem que jornalismo tem que adular governo, tudo bem, a gente entende. Mas jornalistas que fazem isso, que vêm perguntar por que só agora Henrique Alves aparece nas pautas das Redações etc, ou não conhecem sua própria profissão ou estão agindo de má-fé, no mesmo esquema que aconteceu durante a era Figueiredo, como mostra agora Bucci. Com esses, nem perco meu tempo. Com aqueles, ainda discuto, e sempre vou discutir. Porque uma das minhas missões na vida é mostrar que jornalista tem que fiscalizar a situação, seja ela de que partido for. O resto, meus amigos, é assessoria de imprensa.

CLIQUEM AQUI para ler o texto do Bucci.

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23 comentários sobre “A orquestração contra a imprensa — e como ela é antiga

  1. ” Mas jornalistas que fazem isso, que vêm perguntar por que só agora Henrique Alves aparece nas pautas das Redações”. Cris, acho que você se refere a Paulo Moreira Leite, colunista de da “Isto É”, que escreveu o seguinte:

    “Não conheço a biografia de Henrique Alves para fazer um balanço de suas atitudes políticas. Tenho certeza, no entanto, que poucas vezes ele teve a oportunidade de manifestar-se sobre um assunto tão relevante.

    Do ponto de vista da separação de poderes e da preservação das garantias democráticas, o deputado com o assessor do bode Galeguinho fez a coisa certa.

    E por isso eu acho justo perguntar por que só agora, quando ele completa 40 anos de Congresso, é que todos se lembram de investigar o que se sabe e o que se assopra a seu respeito.”

    Paulo Moreira Leite é jornalista experiente (já dirigiu a Veja e a Época) e deve saber muito bem porque agora se investiga na imprensa o cara que surge como o preferido para presidir a Câmara dos Deputados. E não foi a primeira vez que a imprensa se interessou por ele. Foi o interesse da imprensa que fez com que não se tornasse, depois de indicado, o candidato a vice-presidente da República na chapa de José Serra, nos anos 2000. Jornalista pode até não ter boa memória, mas devia pesquisar um pouco antes de escrever.

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  2. Bom, diante de tão apaixonada, ainda que tenha me parecido panfletária, defesa do jornalismo livre, soberano e inatacável, fico aqui no aguardo de um libelo tão contundente abordando as verbas de publicidade pagas pelos governos Aécio e Anastasia aos Diarios Associados, os venais da Itatiaia (Márcio Doti, diretor de redação, cuja esposa esteve lotada no gabinete do senador Wellington Salgado, Aparecida Ferreira, correspondente em Brasília, que prestou serviços ao gabinente de Eduardo Azeredo e outras menos votadas como Gabriela Speziali e Leid Carvalho), caras-de-pau como Boechat (publicando a soldo do Paulo Marinho contra o Daniel Dantas), o affair Policarpo Júnior/Cachoeira, a depravação do literato de araque Diogo Mainardi, a incompetente da Miriam Leitão prevendo um caos econômico para o Brasil no ínico de todo ano de Nosso Senhor Jesus Cristo para, ao final do período, tendo dado com os burros n´água, mudar de assunto, fazer cara de paisagem.
    Acho o tal de PIG um exagero. Mas que, é inegável que, no hiato instalado pela falta de uma oposição organizada, criou-se uma espécie de imprensa partidarizada que avocou para si o papel de oposição. E tome esconder o que o governo faz de bom, distorcer números, divulgar projeções alarmistas, anunciar apagões, capitalizar os atos falhos e por aí vai.
    Então, acho que você deve avocar mais uma missão: como jornalista, fiscalize também a OPOSIÇÃO (desculpe as maiúsculas), seja ela de que partido for, e ainda mais, como no caso, principalmente, se da IMPRENSA for.
    Porque senão, Cris, o original fica parecendo uma peça de puro corporativismo.

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    • O que defendo é que esses maus jornalistas que vc citou possam continuar fazendo o trabalho deles. E que se cobre pela maior qualidade desse trabalho, em vez de se cobrar pelo seu puro e simples extermínio (muitas vezes cobrança calcada em ignorância e desconhecimento de quem nunca leu jornal na vida, como no caso que eu cito no post). Foi o que a Dilma quis dizer ao defender os ruídos da imprensa, melhores que seu silêncio.

      Por fim, na minha opinião – independentemente de partidarização, a qual sou contra, como já disse aqui mil vezes – a imprensa deve, sim, exercer um papel de oposição, no sentido de fiscalizar os governos e pôr uma lupa sobre o que ocorre de ruim neles, que deve, sim, ser mais ampla que a lupa sobre o que ocorreu de bom. Por uma simples questão de princípio sobre o que é função do jornalismo e o que é a da publicidade. Que o governo Aécio gaste tufos de grana no EM e o governo Dilma gaste em jornais de sindicato, para alardearem o que fizeram de bom, é uma coisa que entra no campo da publicidade e que, se estiver errada, extrapolar limites ou tiver sido feita sem licitação, por exemplo, cabe ao bom jornalismo denunciar.

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      • “Notícia é o que alguém em algum lugar quer suprimir; todo o resto é publicidade”. Frase atribuída a Lord Northcliffe, magnata britânico da imprensa (foi dono, entre outros, do The Times, Daily Mail e The Sunday Times). Ou, como disse um dos ministros da Fazenda de Sarney: se a notícia é boa, a gente divulga: se é má, a gente esconde. Ele perdeu o emprego por causa dessa frase. Não por ter falado mentira, mas por ter sido honesto em demasia, sem saber que o microfone da TV Globo, que o entrevistava ao vivo, estava ligado e que a frase chegaria ao público. Parece que no governo, qualquer governo, só assim chega ao respeitável público aquilo que o governo realmente pensa…

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  3. Eu não entendo que seja este o tipo de ruído ao qual Dilma quis se referir. Também não sou a favor do “extermínio”, não é por aí. Mas já passou da hora de criminalizar este tipo de conduta cretina, irresponsável e o pior, remunerada! Ora bolas, advogados, engenheiros, médicos, por exemplo, respondem por má conduta, imprudência, imperícia, incompetência, aos seus orgãos de classe num primeiro momento e à Justiça posteriormente; jornalistas devem ocupar um palio, um púlpito, um panteão, acima do bem e do mal, ao lado de Deus Pai Todo Poderoso, de onde virão julgar os vivos e os mortos? Podem destruir uma reputação, uma história, um governo e, pilhados, não serem alcançados pela responsabilização, cível, criminal e pecuniária, sob a risível alegação de que assim se estaria ferindo de morte a indispensável liberdade de imprensa?
    Não, Cris, não pode ser. A justiça é a verdade em ação. A verdade é que estaria ferida de morte.
    O caso citado no post é lapidar e sua abordagem muito apropriada. Tirando das entrelinhas de minha intervenção anterior, sinto falta aqui no blog, como também sentia no saudoso “Tamos Com Raiva”, a falta do mesmo senso de oportunidade e virulência para falar da própria imprensa, de sua sua própria carne, Cris. É o que não vejo: imprensa investigando imprensa. E quando vejo, os interesses comerciais são a ignição: é Record falando de Globo, Veja d´O Globo, Record da Abril e por aí vai… A verdade, o leitor, o teleespectador, estes, ahhh, estes são meros detalhes.
    Por fim, – também de minha parte – posso lhe assegurar que as verbas de publicidade do Governo Federal não chegam aos jornais de sindicato que são de minha leitura habitual (bancários, petroleiros, eletricitários e policiais federais): estas publicações continuam de uma pobreza haitiana! Em contrapartida, seria curioso, com a lei de acesso da informação, levantar quanto os grandes conglomerados de mídia recebem por inserções em rádio, tv, revistas, jornais. Pelo menos da Itatiaia eu gostaria de saber, e também qual foi e como foi a remuneração de ditos jornalistas como Acir “Bobão” e José “Limo”, que emprestaram suas vozes para as campanhas de Aécio, Anastasia e Lacerda, e cuidam agora da vil obrigação diária de sorrabar o Governo de Minas e a PBH, e, em sentido contrário, atacar gratuita e abjetamente o Governo Federal.

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    • Vamos lá, item por item:

      1- Mas já passou da hora de criminalizar este tipo de conduta cretina, irresponsável e o pior, remunerada! Ora bolas, advogados, engenheiros, médicos, por exemplo, respondem por má conduta, imprudência, imperícia, incompetência, aos seus orgãos de classe num primeiro momento e à Justiça posteriormente; jornalistas devem ocupar um palio, um púlpito, um panteão, acima do bem e do mal, ao lado de Deus Pai Todo Poderoso, de onde virão julgar os vivos e os mortos? Podem destruir uma reputação, uma história, um governo e, pilhados, não serem alcançados pela responsabilização, cível, criminal e pecuniária, sob a risível alegação de que assim se estaria ferindo de morte a indispensável liberdade de imprensa?

      R: Não, não podem. Por isso existem milhões de processos por calúnia, difamação e injúria movidos contra jornalistas, todos os dias. Não podem destruir reputações, nem publicar mentiras, nem inventar histórias. O excesso de processos é tanto que muitas vezes essa arma jurídica é usada para abafar um jornalista indesejado, que faz denúncias oportunas sobre grandes coroneis, ainda mais nos rincões do país. Muitos jornalistas independentes e excelentes foram à falência por conta desses processos, movidos muitas vezes com a ajuda de juízes corruptos. Jornalistas não ficam acima do bem e do mal, mas são profissionais que, quando fazem um bom trabalho, incomodam muita gente — e só gente poderosa. Por isso existem leis para proteger o exercício da profissão — e nem com elas a proteção é garantida. Pelo contrário, jornalistas são mortos no mundo inteiro por causa de seu trabalho (médicos, advogados e engenheiros não são). 2012 foi ano recordista de jornalistas assassinados, com 119 mortes no mundo. E você pensa que isso só aconteceu na Síria, no Iraque? No Brasil foram 4, só dos que chegaram ao conhecimento da IPI (http://www.freemedia.at/home/singleview/article/2012-deadliest-year-on-record-for-journalists.html). E não deveria ter havido nenhum profissional morto por exercer sua profissão. De todas as condutas que você listou na sua resposta anterior, nenhuma é passível de condenação. Nenhuma foi criminosa. Tratam-se de posturas ideológicas, política,s partidárias etc, mas não há crime em se defender posturas políticas, ideológicas e partidárias num país. Mesmo que uma das posturas seja mais defendida que outras, por corporações mais poderosas, isso não é criminoso. Por isso se defende que todas as opiniões possam ter seus veículos e espaços para aparecer. Isso é o que as verdadeiras democracias já possuem.

      2- Tirando das entrelinhas de minha intervenção anterior, sinto falta aqui no blog, como também sentia no saudoso “Tamos Com Raiva”, a falta do mesmo senso de oportunidade e virulência para falar da própria imprensa, de sua sua própria carne, Cris. É o que não vejo: imprensa investigando imprensa. E quando vejo, os interesses comerciais são a ignição: é Record falando de Globo, Veja d´O Globo, Record da Abril e por aí vai… A verdade, o leitor, o teleespectador, estes, ahhh, estes são meros detalhes.

      R: Concordo que haja corporativismo. Assim como o há entre os médicos, engenheiros e advogados, que você já citou. Ah sim, e entre bancários, metalúrgicos e professores. Realmente, seria ótimo que a imprensa investigasse a imprensa. Mas uma coisa é certa: há motivos importantes para esse corporativismo também, que têm a ver com a censura e a perseguição já citadas na resposta anterior. Talvez se você vivesse num país como a Rússia, poderia perceber com mais clareza isso.

      3- Por fim, – também de minha parte – posso lhe assegurar que as verbas de publicidade do Governo Federal não chegam aos jornais de sindicato que são de minha leitura habitual (bancários, petroleiros, eletricitários e policiais federais): estas publicações continuam de uma pobreza haitiana! Em contrapartida, seria curioso, com a lei de acesso da informação, levantar quanto os grandes conglomerados de mídia recebem por inserções em rádio, tv, revistas, jornais. Pelo menos da Itatiaia eu gostaria de saber, e também qual foi e como foi a remuneração de ditos jornalistas como Acir “Bobão” e José “Limo”, que emprestaram suas vozes para as campanhas de Aécio, Anastasia e Lacerda, e cuidam agora da vil obrigação diária de sorrabar o Governo de Minas e a PBH, e, em sentido contrário, atacar gratuita e abjetamente o Governo Federal.

      R: Eu também gostaria que o governo mineiro e a PBH tivessem a transparência que o governo federal tem e divulgassem os dados de publicidade, e tantos outros. Já cobrei diversas vezes, por exemplo, a divulgação dos dados de segurança pública para o governo de Minas. Só nos três meses e,m que estive na reportagem do G1, fiz cinco matérias sobre os altos índices de criminalidade e em todas elas aproveitei para cobrar o fato de não divulgarem tudo com a transparência devida — escondendo, por exemplo, o número total de vítimas atrás do número de registros (numa chacina, por exemplo, em que cinco morressem, só um caso seria registrado). A ponto de o secretário de Estado resolver me dar uma entrevista para reforçar as promessas, que agora cabe ao pessoal do G1 e dos demais veículos continuar cobrando (http://m.g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2012/12/minas-vai-prender-500-lideres-em-roubos-ate-fevereiro-diz-secretario.html). Também já fiz vários pedidos via Lei de Acesso À Informação, que foi uma das coisas mais progressistas já implantadas no país, mas ainda subutilizada. Só estaremos numa real democracia quando todos esses gastos puderem ser mais transparentes ao povo. Quanto aos gastos de publicidade do governo federal, eles são tornados públicos, então se pode saber exatamente onde são investidos e como. Segundo levantamento feito pela Folha no ano passado, os maiores gastos de publicidade do governo são, mesmo, nos grandes veículos de comunicação. Assim como os governos estaduais e municipais, o governo federal também tem interesse em contrabalançar as denúncias, críticas e eventuais perseguições da imprensa, todas geralmente negativas ao governo, com boa publicidade. Isso faz parte do jogo, como eu já disse antes. Aí os dados: http://www.cartacapital.com.br/politica/globo-concentra-verba-publicitaria-federal/. Por outro lado, o governo federal também dá dinheiro a jornais de sindicatos, com blogs e até, veja só, com jornais que não existem: http://www1.folha.uol.com.br/poder/1183724-presidencia-destinou-verba-a-jornais-que-nao-existiam.shtml. A transparência, graças a deus, propicia a denúncia contra eventuais desvios. É isso que se espera e é isso que sempre vou defender.

      bjs

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  4. Cris e Liard: o Portal Terra publica hoje notícia que tem relação com este debate entre vocês dois:

    “Brasil é o país dos 30 Berlusconis, diz ONG Repórteres Sem Fronteiras
    A ONG Repórteres Sem Fronteiras publicou nesta quinta-feira (24) um relatório sobre o cenário da imprensa brasileira, em que diz que o país é a terra dos “30 Berlusconis”, em referência ao magnata italiano que domina a mídia e boa parte da política no seu país.

    “A topografia da mídia do país que vai hospedar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 quase não mudou nas três décadas desde o fim da ditadura militar de 1964-85″, diz o texto.

    Segundo a ONG, cerca de dez companhias dominam a mídia nacional, quase todas com base em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    O relatório denuncia ainda a violência contra jornalistas no Brasil, mencionando que dois repórteres especializados em notícias de polícia tiveram que deixar o país no ano passado por conta de ameaças.

    A agência de notícias France Presse distribuiu em todo o Brasil um pequeno resumo do relatório. ”O Brasil apresenta um nível de concentração de mídia que contrasta totalmente com o potencial de seu território e a extrema diversidade de sua sociedade civil”, explica a ONG de defesa da liberdade de imprensa. “O colosso parece ter permanecido impávido no que diz respeito ao pluralismo, um quarto de século depois da volta da democracia”, assinala a RSF, recordando que em 2012 houve 11 jornalistas assassinados no país.

    Segundo a ONG, um dos problemas endêmicos do setor da informação no Brasil é a figura do magnata da imprensa, que “está na origem da grande dependência da mídia em relação aos centros de poder”. “Dez principais grupos econômicos, de origem familiar, continuam repartindo o mercado da comunicação de massas”, lamenta a RSF.”

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  5. Só hoje li o artigo do Eugênio Bucci indicado pela Cris. Ele foi publicado pela Época de 13 de janeiro. Como outros leitores podem ter deixado pra lá, está aí o início do artigo. Se lerem, duvido que não queiram ler a íntegra:

    “A Folha de S.Paulo é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública”. Num país em que a oposição não tem peito nem engenho para fazer oposição, as redações jornalísticas se encarregam de jogar as autoridades no descrédito. É assim, ao menos, que pensam os entusiastas do governo federal. Para eles, os jornais cumprem o papel que deveria ser dos partidos de oposição. Inconformados, os representantes do Palácio do Planalto contra-atacam, como fez o líder do partido do governo na Câmara dos Deputados, diante de mais uma reportagem crítica lida em plenário por algum adversário mal-agradecido. “Sinceramente, não encontramos aqui um pensamento inédito”, disse o parlamentar governista. Segundo ele, a imprensa apenas requenta fatos velhos para agredir quem trabalha sem descanso para melhorar a vida dos brasileiros. Os governantes, segundo essa visão, não passam de vítimas da maledicência, padecem sob o bombardeio de uma campanha articulada para desacreditá-los. O líder do partido do governo, no mesmo pronunciamento em que reclamou das notícias requentadas, foi severo e categórico em seu diagnóstico: os órgãos de imprensa “são o grande veículo dessa campanha articulada”.

    Antes de qualquer interpretação apressada, vamos esclarecer. As declarações transcritas no parágrafo acima não reproduzem falas de integrantes do governo Dilma Rousseff. São anteriores. Também não trazem recortes dos inflamados discursos de entusiastas do primeiro ou do segundo governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nem de beneficiários das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso, ou do breve mandato de Itamar Franco, ou de Collor, ou mesmo de José Sarney. Elas vêm de um período ainda mais antigo, vêm dos tempos da ditadura militar.

    Quem disse que a Folha é “a vanguarda entre os veículos da imprensa empenhados em isolar o governo da opinião pública” foi João Baptista Figueiredo, o mesmo que chegou a ocupar a Presidência da República entre 1979 e 1985. Ele disse ou, mais exatamente, ele escreveu isso um pouco antes de ser empossado ditador, num relatório que entregou, em 1977, ao então ministro da Justiça, Armando Falcão. Naquela temporada, Figueiredo era o chefe do temido SNI, o Serviço Nacional de Informações, e enxergava no diário paulistano um criadouro de oposicionistas ou, nas palavras dele, “o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa”. Se as coisas não iam bem, a culpa deveria ser das redações. O episódio pode ser lido com mais detalhes no livro Folha (páginas 67 e 68), escrito pela jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que chegou em dezembro às livrarias com o selo da Publifolha.”

    Pois é, Cris. E já li resenhas bastante ruins para este livro de sua amiga Ana Estela, dizendo principalmente que não havia qualquer novidade nesse livro. Devia ser lido, porém, pelos que, de boa fé, criticam o comportamento atual da Folha de S. Paulo.

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  6. Bom, fechando o assunto
    1.1. Eu sou capaz de brigar com o mundo para que você possa expressar esta sua opinião, mas me reservo o direito inalienável do contraditório. Defender a liberdade de imprensa, o seu trabalho e o de seus pares é um coisa, postular um conceito de “absolutez”, como uma pantomima, um leviatã amorfo, sem limites, sem autorregulação, sem controle da sociedade ou do direito, é algo completamente diferente. Posso estar na contramão do politicamente correto, mas não passa por critérios mínimos de razoabilidade uma tese de ampla, total e irrestrita liberdade para a imprensa publicar o que bem entender, sem precisar garantir a veracidade daquilo que expõe e livre de responsabilização de qualquer espécie. Aspas para o professor-doutor Ricardo Giuliani Neto: “Aliás, o conceito de liberdade, por definição, é relativo, e assim o é porque a liberdade se opera em relação a algo ou a alguém. Indo além, não há nada mais relativo do que o conceito ou definição do absoluto. Sim, o absoluto só o é porque se vê apartado do todo, ou seja, o absoluto “é o todo”, digam os tementes a Deus”. Então, ficamos assim;
    1.2. No afã de provar sua opinião você trouxe à baila os bons jornalistas, que não são e nunca foram objeto de minhas intervenções. Refiro-me, como me referi, aos venais, biltres, canalhas, que, como se sabe, existem por aí. Ou será que não existem?
    1.3. Engenheiros são mortos mundo afora: coisa de uma semana atrás, na Argélia, por exemplo; advogados idem: estive em Fortaleza no ano passado e, durante aqueles dias, houve um homicídio consumado e uma tentativa da qual não sei os desdobramentos; de médicos, confesso que não ter maiores informações;
    2.1. “Concordo que haja corporativismo”. Ponto.
    2.2. Já o trecho final desta parte além de não conseguir estabelecer um nexo causal entre perseguição, censura e corporativismo, resvala na grosseria. Mas vale a pena consignar que nunca vivi na Rússia, é fato, de forma que não posso fazer nada além de ilações quanto aos propósitos e à serventia do corporativismo de jornalistas naquele cenário, exatamente como você, que também nunca esteve por lá.
    3.1. Mais do que a concentração de recursos públicos em alguns poucos apaniguados, lamento que se admita no Brasil que a formação da opinião seja, majoritariamente, controlada pelos grandes grupos privados de mídia. Ainda.
    3.2. Prá variar, tivemos aqui mais uma bela demonstração do Manual de Redação e Estilo de José de Souza Castro, a quem agradeço a indicação da matéria no Terra. Retribuindo despretensiosamente, sugiro ao “velho homem de imprensa”, e a você também, Cris, “Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia”, de Venício Artur de Lima (Publisher Brasil);
    3.4. Eu só acho que tem gente demais avocando o princípio da liberdade de imprensa: uns para construir um ambiente desregulado, outros para fugir de suas responsabilidades objetivas, mas ambos comungando na vã suposição de que a maioria dos brasileiros continuará sendo enganada ad eternum: minha luta é contra este estado de coisas.
    1.9. E chega, porque o blog é seu, as pessoas aparecem por aqui para ler o que você escreve.
    Beijos.

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    • Não me lembro de ter defendido, seja no post ou neste debate, que os jornalistas possam escrever o que quiserem sem qualquer consequência. Falei inclusive que os processos de injúria, calúnia e difamação estão aí pra isso, e são usados direto (nem sempre direito). Também falei que os leitores deveriam exigir por melhor qualidade dos veículos que aí existem e especialmente dos grandes e poucos, que têm condições de arcar com grandes investigações, porque eles que fazem a diferença no cenário atual. Foi graças a eles, pra ficarmos na denúncia mais recente, que soubemos das estripulias de Henrique Alves e descobrimos que um nobre bode lá no RN é conhecido por Galeguinho. Nada disso foi obtido por meio do Ministério Público ou da Polícia Federal: foi o trabalho de fuçação de bons repórteres, bancados por poderosos veículos de imprensa.

      Os jornalistas canalhas existem sim, eu só não estive falando deles no meu post, por isso também neste debate me foquei no meu objeto atual, que é o bom jornalismo, que está sendo vítima de uma orquestração tanto quanto os maus jornalistas. Infelizmente, neste espaço tão pequeno, não consigo abarcar tudo. Pra falar a verdade, nem em cinco anos de universidade, seis de profissão e pelo menos 15 de debruçamento sobre o assunto, também não consegui abarcar tudo o que precisa ser dito e pensado. Nem meu pai, com seus 40 de profissão, já conseguiu. É tudo um processo, um debate contínuo. Do qual vc também faz parte, já que tem uma veia jornalística faz tempo 😉

      Não tive a intenção de ser grosseira. Só acho que defendemos coisas muito parecidas, mas vc trouxe à baila deste debate um assunto que não é o mesmo de que tratei no post.

      Li este texto do Venício na faculdade.

      E também paro por aqui.
      bjos

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  7. Ainda vale o registro: um dos jornalistas mais acossados na justiça com ações por calúnia e difamação é Paulo Henrique Amorim, que foi meu chefe no JB no começo da década de 1980. Hoje ele publicou no Conversa Afiada [http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2013/02/07/klouri-e-pha-derrotam-nahas-de-novo/] a íntegra da sentença do juiz Marcelo Augusto Oliveira, da 41ª Vara Cível de São Paulo, datada de 28 de janeiro deste ano, condenando o empresário Naji Nahas a pagar custas judiciais e advocatícias de R$ 3 mil e absolve o jornalista por ter publicado no dia 16/3/2010 reportagem intitulada “Veja: Serra conta a Nahas que vai vender a CESP. Nahas diz que vai ganhar uma grana preta”. O juiz não viu calúnia e difamação no texto (e nem na foto), pelas quais Nahas queria indenização de 50 salários mínimos (R$ 33.900).

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