‘Paraopeba’, um poema de Carlos Seixas

Rio Paraopeba na divisa dos municípios de Betim e São Joaquim de Bicas, em Minas Gerais. Foto de 2014, anterior, portanto, à tragédia da Vale. Crédito: Wikipédia.

 

Diante de tanta tristeza e revolta causadas pelo crime da Vale em Brumadinho (isso para não falar de Mariana), muitas vezes, nos faltam palavras. Sobram informações no noticiário, e a gente vai até se perdendo, diante de tantas notícias. O jornalismo, nessas horas, sozinho, não dá conta de abarcar todo o nosso sentimento. É aí que entram os poemas, tão eloquentes, por mais curtos que sejam. Poemas nos ajudam a extravasar nossas emoções. É por isso que, pela terceira vez desde a chamada “tragédia de Brumadinho”, em menos de um mês, publico aqui um poema que diz mais do que muito textão junto. Este foi escrito e enviado para publicação no blog pelo leitor Carlos Seixas, que é um funcionário público de 58 anos, natural de Manaus e que hoje mora no Recife (PE). Boa leitura:

 

PARAOBEPA

De Carlos Seixas

 

rio, vivo da vida
hoje, vivo da lama

chamam-me
rio de lama
chama apagada
depois da enxurrada

de jeito
desceu rejeito

levando vidas
deixando lágrimas

påginas soterradas
onde havia terra e mata
não há mais nada

odor de dor
é o que há

esta dor
após a tempestade
não tem bonança
só o respiro do amor

 


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Um poema para Brumadinho (ou: ‘O segundo crime da Vale’)

O rio Paraopeba enlameado, turvo. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

No dia 25 de janeiro de 2019 eu estava de folga. Minha maior preocupação na manhã daquele dia era assistir aos filmes do Oscar a tempo da cerimônia, para cumprir meu desafio anual. O único em cartaz nos cinemas que eu ainda não tinha visto era “A Favorita“. É raro eu conseguir ir ao cinema desde que meu filho nasceu, então eu estava ansiosa para ir. Deixei ele na colônia de férias e fui. Chegando lá, meu marido falou, por telefone: “Caiu uma barragem. Parece que foi grave.” Eu não fazia a menor ideia do quanto. Saí da sala de cinema às 16h e olhei para o celular. Só aí, bem devagar, fui começar a entender a dimensão do desastre. Maior que Mariana. Como pode? Como um pesadelo pode se repetir – podem deixar que se repita – em tão pouco tempo?

Eu também estava de folga naquele fim de semana que veio depois, 26 e 27 de janeiro. Escrevi pra minha chefe oferecendo ajuda, mas ela disse: “Você ainda terá muito trabalho pela frente”. Tive mesmo. A partir de segunda, dia 28, meus dias passaram a se resumir a Brumadinho. Eu acordava umas 6h e já começava a trabalhar, e a pensar em Brumadinho. Saía do jornal às 17h, e continuava trabalhando (confesso: dirigindo e mandando mensagens para os repórteres, infração de trânsito gravíssima). Qualquer outra conversa que não fosse sobre Brumadinho parecia irrelevante, até inadequada. Em casa, já com meu filho para dar comida, dar banho, pôr pra dormir, e minha cabeça seguia em Brumadinho. Até tarde da noite, quando eu finalmente apagava, para seguir sonhando com Brumadinho. Foi assim por oito dias seguidos, com plantão dobrado.

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Nesta terça, folguei de novo. Consegui me desligar um pouco de Brumadinho, daquelas histórias, mas uma água ficou pingando dentro de mim, como se eu estivesse com uma goteira. Um choro interno. Agora há pouco, Luiz já no quinto sono, eu sozinha, não aguentei: chorei, chorei. Tudo o que não chorei de verdade nos últimos dias. Chorei, chorei.

Em meio às lágrimas, escrevi os rabiscos abaixo, de uma tacada só. Provavelmente não é o poema mais bonito que você vai ler na vida, mas garanto que é um dos mais sinceros. Foi gestado na poça de lágrimas que se formou no fundo da minha barriga. Botei pra fora, pra ver se ela (a barriga, a alma) se acalma. Amanhã tem mais, afinal.

 

BRUMADINHO (OU: O SEGUNDO CRIME DA VALE)

 

Uma. Duas. Três centenas sob a lama.

E quem ama

do lado de fora, no pranto, na fé, na cama,

só quer um corpo pra enterrar.

Chama, clama

por justiça, por prisões, punições.

Três anos, dois meses e vinte dias

foram insuficientes para haver justiça,

de qualquer tipo.

O Rio Doce ficou amargo, salgado, azedou.

O Paraopeba, este da minha infância em Juatuba

agora vai pelo mesmo caminho de rejeitos

rejeitados.

Tem jeito?

Tem jeito pra algo neste Brasil?

O cara eleito, que promete agilizar a vida das mineradoras,

que dá uma banana para o meio ambiente.

No Estado, o eleito que promete autolicenciamento.

As empresas devem ter aplaudido, vibrado:

– TÁ TUDO LIBERADO!

E dá-lhe dreno estragado.

E abre a torneira máxima do lucro.

E rompe.

E mata. Uma, duas, três centenas de vidas,

que deixam viúvas, órfãos, crianças, amigos, colegas de trabalho

(que, aliás, não pararam de trabalhar nas outras minas

assassinas.

Nem por um dia.)

Fora as outras milhares de vidas, as incontáveis, as que dependem do rio.

O que era Doce, virou paisagem.

Paisagem morta.

E o que era Largo, vai se estreitar com tanta lama dura, velha, velhaca.

(Paraopeba. Do tupi: “rio largo”.

Era largo na minha infância toda.

Na ponte que corta a estrada.

Agora será barro, não largo.)

Tem jeito?, eu dizia.

Não, não tem.

Porque agora vai só piorar.

Aluno vai filmar professor. Não vai mais aprender, debater, discutir, se abrir. Vai policiar.

Aluno vai bater continência em sala de aula.

Aluno vai recitar a bíblia.

Não vai aprender sobre ambiente. Nem meio.

Da lama, não vai brotar nada.

Dos corpos, enterrados antes da hora,

sem serem velados por quem os ama,

pode brotar poema.

Pode brotar dilema.

Pode brotar até um pouco de reflexão passageira.

Mas Mariana me ensina, nos ensina,

que não brotará justiça.

O que virá daqui a três anos, dois meses, vinte dias?

Não vale esperar pra ver.

 

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A tragédia de Brumadinho, o repórter corajoso e a Vale que não vale

Charge do Duke publicada no jornal “O Tempo” de 27.1.2019

Texto escrito por José de Souza Castro:

A notícia, às vezes, sabe para quem aparece. Nairo Almeri, 69 anos, foi repórter da Companhia Vale do Rio Doce em 1978, depois de perder o emprego no “Jornal do Commércio”, do Rio de Janeiro, quando um diretor descobriu que ele era gaúcho de São Borja e, portanto, com potencial subversivo.

Na sexta-feira última, estava em sua chácara no arraial Córrego do Feijão, cuidando da terrinha. Por vários anos, tinha sido assessor da presidência da Fiemg. Perdeu o emprego recentemente, pois o novo presidente planejava escolher outro assessor.

No começo da tarde, Nairo foi atropelado pela tragédia na Vale, reportada por ele no “Jornal do Brasil”. Nos dias seguintes, permaneceu em Brumadinho acompanhando os trabalhos e escrevendo o que via em seu blog.

Nairo havia chegado à chácara na quarta-feira e planejava voltar na tarde de sexta-feira, depois que a cozinheira Amarina Lourdes deixasse o trabalho no restaurante da Mina do Feijão. Ela cuidava também das duas cachorras do jornalista. Na hora em que costumava ir à chácara, as cachorras foram esperá-la no portão. Não chegou.

Amarina consta da lista dos desaparecidos da Vale.

A pintora Belquiss, casada com Nairo e mãe de seus dois filhos, espera que ele consiga sair da chácara nesta terça-feira, mas sabe como será difícil para ele ficar longe dessa inesperada fonte de notícias.

Inesperada, não! Ele escreveu no dia da tragédia:

“Pessoas do Córrego do Feijão sempre falaram e ouviram falar dos riscos da tragédia. Mas se calaram nas audiências públicas, em troca de emprego próprio”. O Ministério Público, por sua vez, manteve-se sempre silencioso, acompanhado pela Fundação Estadual do Meio Ambiente e pela Copasa.

No dia 5 de novembro passado, Nairo lamentou que fazia três anos desde a tragédia de Mariana, em que 19 pessoas morreram no rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, empresa que tem como donas principais a Vale e a multinacional BHP Billiton.

Dezenas de pedidos de indenização se arrastam lentamente na Justiça, “graças às protelações patrocinadas pelo peso econômico exercido pela Vale em Minas e no país”, escreveu Nairo. Segundo ele, isso só mudará quando os atingidos que vêm se comportando como cordeirinhos se valerem da Internet para que a onda de descontentamento chegue aos pregões das principais bolsas de valores do planeta.

Mesmo com os cordeirinhos sem saber ainda o que fazer diante da nova tragédia, ao meio-dia de ontem as ações da Vale caíam perto de 18% na Bovespa, derrubando também o índice Ibovespa, no qual a empresa tem peso de 10,9%.

Pouco antes, em seu blog, Nairo escreveu que a 500 metros de onde estava via-se um novo aviso de tragédia, representado por três barragens irregulares da mineradora MIB, do Grupo Aterpa. Se romperem, sua lama poderia “soterrar metade da área urbana do arraial, de 2 mil habitantes”.

Sai daí, Nairo! Como me disse Belquiss, as barragens ficam bem atrás da chácara. Se romperem, não haverá tempo para fugir. Coitado do velho repórter, que ainda não conseguiu se aposentar pelo INSS, e de suas duas cachorras, que já perderam a tratadora Amarina.

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Tragédia em Brumadinho: uma escolha humana

Charge do genial Duke, publicada hoje no jornal “O Tempo”

 

Sem palavras para mais um desastre ambiental em Minas Gerais, pouco mais de 3 anos desde a tragédia em Mariana, agora aqui do ladinho de Beagá, que desta vez deixou cerca de 300 pessoas desaparecidas, republico aqui o poema escrito pelo meu marido, o jornalista Beto Trajano, que participou de toda a cobertura ontem:

ESCOLHA HUMANA

Lama
Que arde
Inflama
Os olhos
As mentes
Os corações
Reclama
A vida
A natureza

Escolha
Humana

Lama
Depravada
Que rasga
Que corta
Transforma
A montanha
Em ferro
E abre
O cofre
Enche
Ganância
Rebate
Na alma
No povo
De minas gerais
Que vive
Em risco
Os rios
Os corpos
Perdidos
De gente
De bicho
De planta
De natureza
Destruída

História
Que se repete
Assassina
Escória
De empresa
Vale
Degola meu povo

Foto de Douglas Magno, repórter-fotográfico do jornal “O Tempo”, que rodou o país.

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Temer precisa vender logo a Petrobras antes que a popularidade de seu governo baixe a zero

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Saiu a primeira pesquisa de opinião pública após quase um mês de governo Temer. É a pesquisa MDA encomendada pela Confederação Nacional de Transportes, do ex-senador Clésio Andrade (PSDB-MG), divulgada nesta quarta-feira, 8 de junho. Mostra que a lua-de-mel com o governo interino, se houve, já acabou.

Pois “a avaliação da gestão Temer é positiva para apenas 11,3% dos entrevistados e negativa para 28% deles”. Mais: 33,8% dos entrevistados aprovam o desempenho pessoal de Temer e 40,4% desaprovam. Ainda: 46,6% acham que a corrupção no governo Temer será igual ao do governo Dilma, 28,3% esperam menor e 18,6% que será maior.

Dois dias antes da divulgação constrangida dessa pesquisa por apoiadores do impeachment de Dilma, foi revelado que o ministro Gilmar Mendes, do STF, havia autorizado a investigação de Clésio Andrade (e Aécio Neves) por suspeita de corrupção. Mais um pouco e se completariam nove anos desde que escrevi no Observatório da Imprensa artigo mostrando como, no ninho tucano, agia Clésio, o primeiro vice-governador das duas gestões de Aécio Neves em Minas.

Como se sabe, a justiça tarda e falha. Mas deixemos isso pra lá. Estou mais interessado agora numa notícia de terça-feira intitulada “Petrobras confirma processo de venda de terminais de gás e térmicas”. Continuar lendo