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Brumadinho: a engenharia de um crime e a história de uma barragem

Foto de Douglas Magno, então repórter-fotográfico do jornal “O Tempo”.

Hoje se completam dez meses desde que a barragem da Vale se rompeu em Brumadinho. Foi no dia 25 de janeiro de 2019 que a estrutura na mina Córrego do Feijão veio abaixo, levando lama, morte e caos a várias cidades mineiras e ao rio Paraopeba. Foi há dez meses que quase 300 pessoas perderam suas vidas num estalar de dedos. E, segundo as investigações da Polícia Federal, a Vale conhecia todos os riscos de ruptura pelo menos desde o segundo semestre de 2017 – e poderia ter evitado esta tragédia. Ou seja, NÃO FOI ACIDENTE.

É disso que se trata o livro “Brumadinho: a Engenharia de um Crime”, dos jornalistas e amigos Murilo Rocha e Lucas Ragazzi. No post de hoje, trago a resenha do livro, feita pelo meu marido, o também jornalista Humberto Trajano, que terminou a leitura antes de mim.

Boa reflexão a todos:

 

“Estamos passando pela Ferteco!”. Uma fumaça cinza de poluição tomava conta do carro na BR-040, logo depois da Serra da Moeda, no caminho de Congonhas, na Região Central de Minas. Lembro de minha avó Conceição explicando aquela parte do trajeto até Conselheiro Lafaiete, terra do meu avô Eloy, quando íamos para lá, passar fins de semanas na década de 80 e início da década de 90.

Mas o que era a Ferteco? Era uma mineradora da região, que está presente nos primórdios da história da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, na Região Metropolitana de BH, que se rompeu no dia 25 de janeiro de 2019. Até agora, quando escrevo este texto, são 256 mortes confirmadas e 14 pessoas desaparecidas em decorrência deste rompimento.

A barragem, construída pela Ferteco na década de 1970, é a personagem principal do livro “Brumadinho: a Engenharia de um Crime”, dos jornalistas mineiros Lucas Ragazzi e Murilo Rocha, lançado no fim de outubro.

A mineração está entranhada na memória pessoal de cada um de nós, moradores das Gerais, desde que nos entendemos por gente. Quando eu era criança e ouvia os relatos de minha avó, jamais imaginaria que, anos mais tarde, estaria cobrindo a maior tragédia da mineração no Brasil, naquele mesmo lugar.

Conforme o livro, em abril de 2001, a Vale, já privatizada, comprou a Ferteco, que “respondia pela terceira maior produção de minério de ferro do Brasil (cerca de 10%)”. Prossegue o trecho do livro:

“Entre seu patrimônio estavam as férteis minas do Córrego do Feijão (Brumadinho) e Fábrica (Ouro Preto). […] O maior interesse da Vale com a nova aquisição era justamente a Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, para atender à crescente demanda da Europa” (Págs. 21 e 22).

Entre 2001 e 2003, a Vale acabou com uma vila de trabalhadores na área da mina e construiu, a jusante da barragem, a sede administrativa de Córrego do Feijão.

No dia 25 de janeiro deste ano, o que estava a jusante da barragem até o rio Paraopeba foi destruído com o rompimento. Um restaurante, a área administrativa, com várias edificações, uma usina de beneficiamento, parte de comunidades, uma pousada a poucos metros dali e as lavouras dos agricultores.

Qual a responsabilidade dos mais bem remunerados engenheiros do país, funcionários da Vale? Estavam errados? Ou foram forçados? Ou cometeram atos irresponsáveis de forma proposital?

Os autores Lucas Ragazzi e Murilo Rocha. Foto: Mariela Guimarães/divulgação

Essas perguntas vão sendo respondidas neste livro, cujo título, “a engenharia de um crime”, já resume o que pode ser encontrado no trabalho investigativo dos autores. Ao longo das 255 páginas, eles contam em detalhes a história desse crime, que tem raízes construídas durante décadas, e que abalou várias estruturas: vidas, a cidade, sua economia local, todo o cotidiano de quem ali perdeu um ente querido e de pessoas que trabalharam incessantemente na busca da elucidação dos fatos, de informações, do resgate dos corpos, da tentativa de salvar o meio ambiente devastado.

A destruição das vidas, as escolhas guiadas pela ganância dos executivos e a despreocupação em esconder dos trabalhadores, que iam ao Córrego do Feijão todos os dias, os riscos que aquela imensa estrutura apresentava – tudo isso é mostrado no texto.

Vale sabia dos riscos desde 2017 – e tentou escondê-los

O livro mostra que uma grande preocupação com a estrutura começou a ser revelada durante um painel de especialistas realizado em novembro de 2017, em Belo Horizonte. A engenheira Maria Regina Moretti fez um alerta:

“Ela revela aos presentes um dado preocupante e até então desconhecido. A barragem I, diferentemente dos laudos de estabilidade apresentado nos últimos anos , tem um fator de segurança (FS)10 para liquefação em condição não drenada de 1,06, bem abaixo do índice de 1,3 registrado nas medições anteriores e considerado o mínimo recomendável para a literatura mundial do setor.” (pág. 75)

O texto aponta que, após esse alerta, a Vale criou artifícios para que a barragem fosse apresentada como segura. Também tentou fazer obras no local e uma delas deu errado: a instalação de drenos horizontais, que teve que ser abortada após a própria barragem demonstrar, em 11 de junho de 2018, que não seria possível a instalação dos drenos.

O livro destaca pontos cruciais, pessoas e empresas determinantes para que o desastre acontecesse. Após o alerta de 2017 e a criação dos artifícios para apresentação da barragem como segura, ocorreram troca de empresas terceirizadas e encerramentos de contratos. Neste momento, a alemã Tüv Süd entra em cena e também Washington Pirete, executivo da Vale responsável por contratos com as empresas. Ambos já estão entre os denunciados.

“A ‘mudança do critério de análise’ citada pelo funcionário da Vale [Pirete] no e-mail como justificativa para a troca de empresas é um novo estudo da Tüv Süd com o rebaixamento do fator de segurança de B1. Essa alteração seria decisiva para o destino da barragem e de suas centenas de vítimas”. (pág. 101)

O trabalho da força-tarefa

De forma bastante humana, o livro mostra também o trabalho dos delegados da Polícia Federal. Que já estavam um pouco calejados após o rompimento em 2015 da barragem de Fundão, da Samarco (cujas donas são a Vale e a BHP Billiton), em Mariana, e se reuniram em uma força-tarefa para dar início a uma investigação minuciosa sobre o ocorrido em Brumadinho.

O pesadelo havia voltado em 2019, de forma cruel, matando centenas de pessoas na Região Metropolitana de BH. E nenhum de nós acredita que estejamos livres de outras tragédias, como esta e a de Mariana, no futuro.

 

Brumadinho: a Engenharia de um Crime
Lucas Ragazzi e Murilo Rocha
Editora Letramento, 2019
255 páginas
De R$ 40,42 a R$ 49,90


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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