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Tentando entender os protestos, nesta barafunda de interpretações

São Paulo protesta. (Foto: Miguel Schincariol/AFP)
São Paulo protesta. (Foto: Miguel Schincariol/AFP)

Aparecem vários sociólogos, cientistas políticos, políticos e jornalistas para oferecer sua versão do que é essa massa de mais de 200 mil brasileiros, em dezenas de cidades, protestando há vários dias por um Brasil melhor.

Difícil, já que estudaram a vida inteira, desde a escola, que manifestação tem que ter liderança, bandeira, causa e objetivo. Esta que vivenciamos agora é fluida, diluída, horizontal e, embora não tenha objetivos muito claros, tem uma porção deles.

Brasília protesta. (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Brasília protesta. (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Foto: Mídia NINJA, retratando o fato mais emblemático do dia!
Foto: Mídia NINJA, retratando o fato mais emblemático do dia!

Duas circunstâncias agilizaram o movimento, na minha interpretação:

1- A força das redes sociais, que já tinham propiciado várias mobilizações, por causas das menos nobres, com sucesso. O Facebook, especificamente, que propicia a criação de eventos, onde qualquer um pode “confirmar presença”, onde se pode criar enquetes para definir os melhores dias, horários, hinos, cores de roupas, dentre várias coisas, para um protesto. Quer ferramenta mais maravilhosa que esta para um movimento democrático? Sem censura, sem moderação.

2- Um evento internacional, que está em todas as mídias do planeta, comandado por uma instituição velha e corrupta, que é a Fifa, caindo no colo do Brasil. Lentes de aumento, luzes, câmera e ação voltados diretamente para o país, proporcionando o que todo movimento que já tinha como começar e já tinha pessoas com presença confirmada quer: divulgação, para atrair mais pessoas e fazer com que as pessoas tomem uma posição, seja ela qual for.

Ignorar é que não dá, quando se vê que até um jornal da Irlanda estampa em sua primeira página o que ocorre aqui na esquina. Até os mais alienados se vêem forçados a pensar a respeito e decidir de que lado sambam.

E esse lado não estava bem definido quando o protesto começou com um enfoque maior para a “gota d’água” das insatisfações, que foi o aumento das tarifas de ônibus para um transporte público tão precário, e a pauta da tarifa zero. TVs e jornais deram destaque maior ao vandalismo cometido por uma minoria. Ainda estavam longe de entender as reivindicações da massa.

Eis que o governo paulista de Geraldo Alckmin e sua polícia militar deram um empurrãozinho na noite de quinta, aos extrapolarem na repressão, em plena época de Comissão da Verdade e afins: o lado da opinião pública foi tomado de vez. Os indecisos resolveram pular suas cercas e agir, e participar. O movimento, que ainda não era nacional, explodiu de vez.

Salvador protesta. (Nelson Barros Neto/Folhapress)
Salvador protesta. (Nelson Barros Neto/Folhapress)

Esses manifestantes podem ser, sim, em sua maioria jovens (como, aliás, desde a tomada da Bastilha e a queda do czar), de classe média, bem escolarizados etc. Por isso, há os que os tacham de elite, de jovens ignorantes e revoltados sem causa, como se os jovens fossem menos espertos que os adultos que temos por aí. Mas ocorre que também há velhos, há trabalhadores de todas as camadas sociais, aposentados, grevistas, há pessoas que já estavam acostumadas a lutar pelos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, dos ciclistas e vários outros, há diretores de grêmios e de DCEs, além de pessoas que nunca tinham protestado contra nada nesta vida e se consideravam conservadoras e passivas. Uma confluência de movimentos e causas de uma multidão de cidadãos – enfim, cidadãos – que têm em comum principalmente sua visão de que vivem numa democracia que lhes dá direito de se expressarem livremente.

Expressar… Eis aí outro ponto forte que move esses protestos: a comunicação. Os dois itens que listei acima passam diretamente pela comunicação. E a repercussão dos movimentos pela internet, que não dependem só dos grandes veículos para se fazerem ouvir, também se trata disso.

O Rio protesta. (Foto: AP/Felipe Dana)
O Rio protesta. (Foto: AP/Felipe Dana)

Vai dar em algo? A galera pergunta. Os sociólogos dão seus palpites. Eu dou o meu também, como sempre fiz:

o Ocupy Wall Street, que era bem parecido em vários sentidos (mas num país com mais tradição em megaprotestos), durou mais de dois meses e acabou não mudando nada muito profundo. Mas só de os jovens brasileiros adotarem os megaprotestos em suas agendas de conscientização política – negando a nojeira que é o fla-flu do PT X PSDB, que já CANSOU, sendo usada desde a chegada do PT à presidência, geralmente orquestrada por pessoas muito bem pagas pra isso, de ambos os “times” –, já é um avanço e tanto! Esse grupo que vai às ruas faz questão de se posicionar acima de qualquer partido ou instituição, o que já me parece maravilhoso – certamente, muito mais democrático.

Como vários cartazes dizem por aí, “o gigante acordou”. Se nada mais mudar, só essa sacudida já terá valido muito. Mas algo me diz que muito mais vem por aí. Nossos netos vão estudar a “revolta do vinagre”, como nós estudamos a da vacina, a dos emboabas e a dos mascates. Como já constam nos livros também a dos caras-pintadas do “Fora Collor”. Sem se limitarem às inocentes hashtags do #forasarney.

E Beagá protesta. (Foto: Mariela Guimarães/O tempo)
E Beagá protesta. (Foto: Mariela Guimarães/O Tempo) – Vídeo AQUI.

PS. Sugiro aos que realmente querem entender o movimento que participem dele. Que vão também às ruas, acompanhem as redes sociais e conversem com os demais manifestantes, para entender e perceber como são heterogêneos. E os que são alienados a ponto de só reclamarem de engarrafamentos e transtornos, com o pau quebrando ao redor, boa sorte nesta nova era da Comunicação que se abre.

PS.S. A polícia não parou sua repressão! Em BH houve bombas de gás e, no Rio, até tiros com fuzis e pistolas, com balas de verdade!

Atualização na terça-feira: Perfil dos manifestantes em SP, segundo o Datafolha:

  • 84% não têm preferência por algum partido
  • 77% têm nível superior
  • 22% são estudantes (pra quem diz que só tem estudante protestando)
  • 53% têm menos de 25 anos (então a maioria é de trabalhador recém-formado)

O que mais me alegrou foi o primeiro número. Rumo ao fim do fla-flu insuportável entre petistas e tucanos! Por uma consciência política apartidária, horizontal, democrática e diluída!

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

5 comentários em “Tentando entender os protestos, nesta barafunda de interpretações Deixe um comentário

  1. Cristina, belo post. Só discordo da comparação do que acontece no Brasil apenas com o #occupy. Acho que para entender o que se passa, é preciso olhar para o que está acontecendo em muitos lugares do mundo, como a Primavera Árabe, os Indignados, o que acontece na Turquia agora… Não é apenas no #occupy que a juventude se levantou cansada de ser arrastada de um lado para outro por uma economia globalizada que não cuida de ninguém além de seus próprios interesses. E, em cada um desses movimentos, a “gota d’água” foi uma, por vezes bem mais banal do que o aumento dos transportes. (Na Turquia, foi um parque). Enfim, tudo isso para dizer que não tem como olhar para o Brasil sem olhar para esse contexto amplo e que, longe disso trazer um pessimismo quanto ao futuro dessa movimentação toda, acho que é onde me deixa mais otimista. O fato de ter saído das manchetes nos jornais não significa que o #occupy acabou. Nem os indignados na Espanha. Nem os protestos na Grécia. O fato é que a gente não sabe onde isso tudo vai parar. E está longe de ter terminado.

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    • É, o Occupy foi um exemplo que acho mais próximo do que a Primavera Árabe para o nosso contexto, porque as questões árabes tinham a ver com ditadores há muito tempo no poder. Tb acho diferente o contexto dos gregos, cipriotas e espanhóis. Na verdade, cada movimento tem sua particularidade, então foi um exemplo um pouco aleatório. Simplesmente qualquer tentativa de dizer no que vai dar este nosso de agora é chute. E o que eu quis dizer é que, mesmo se não der em nada, ou mesmo se der em merda — como depois de 1988, com a chegada do Collor –, o despertar político do país todo, o respirar política, a conscientização dos jovens muito além do partidarismo, tudo isso já é um grande saldo positivo 🙂

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    • Mas eu realmente acho que o Occupy tem muito a ver com a nossa revolta do vinagre. Veja esse trecho de um texto escrito sobre aquele movimento, e compare-o com o que vemos aqui. Muita parecência 😀

      “It’s almost impossible to think of another political movement that generated as much public attention without producing a genuine leader—a Jesse Jackson or Cesar Chavez—if only for the benefit of the television cameras. The images that we associate with the protests are never those of an adoring crowd raising its fists in solidarity with an impassioned speaker on a podium. That is the iconography of an earlier model of protest. What we see again and again with the new wave are images of disparate groups: satirical puppets, black-clad anarchists, sit-ins and performance art—but no leaders. To old-school progressives, the protesters appeared to be headless, out of control, a swarm of small causes with no organizing principle—and to a certain extent they’re right in their assessment. What they fail to recognize is that there can be power and intelligence in a swarm, and if you’re trying to do battle against a distributed network like global capitalism, you’re better off becoming a distributed network yourself.”

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