
Aparecem vários sociólogos, cientistas políticos, políticos e jornalistas para oferecer sua versão do que é essa massa de mais de 200 mil brasileiros, em dezenas de cidades, protestando há vários dias por um Brasil melhor.
Difícil, já que estudaram a vida inteira, desde a escola, que manifestação tem que ter liderança, bandeira, causa e objetivo. Esta que vivenciamos agora é fluida, diluída, horizontal e, embora não tenha objetivos muito claros, tem uma porção deles.


Duas circunstâncias agilizaram o movimento, na minha interpretação:
1- A força das redes sociais, que já tinham propiciado várias mobilizações, por causas das menos nobres, com sucesso. O Facebook, especificamente, que propicia a criação de eventos, onde qualquer um pode “confirmar presença”, onde se pode criar enquetes para definir os melhores dias, horários, hinos, cores de roupas, dentre várias coisas, para um protesto. Quer ferramenta mais maravilhosa que esta para um movimento democrático? Sem censura, sem moderação.
2- Um evento internacional, que está em todas as mídias do planeta, comandado por uma instituição velha e corrupta, que é a Fifa, caindo no colo do Brasil. Lentes de aumento, luzes, câmera e ação voltados diretamente para o país, proporcionando o que todo movimento que já tinha como começar e já tinha pessoas com presença confirmada quer: divulgação, para atrair mais pessoas e fazer com que as pessoas tomem uma posição, seja ela qual for.
Ignorar é que não dá, quando se vê que até um jornal da Irlanda estampa em sua primeira página o que ocorre aqui na esquina. Até os mais alienados se vêem forçados a pensar a respeito e decidir de que lado sambam.
E esse lado não estava bem definido quando o protesto começou com um enfoque maior para a “gota d’água” das insatisfações, que foi o aumento das tarifas de ônibus para um transporte público tão precário, e a pauta da tarifa zero. TVs e jornais deram destaque maior ao vandalismo cometido por uma minoria. Ainda estavam longe de entender as reivindicações da massa.
Eis que o governo paulista de Geraldo Alckmin e sua polícia militar deram um empurrãozinho na noite de quinta, aos extrapolarem na repressão, em plena época de Comissão da Verdade e afins: o lado da opinião pública foi tomado de vez. Os indecisos resolveram pular suas cercas e agir, e participar. O movimento, que ainda não era nacional, explodiu de vez.

Esses manifestantes podem ser, sim, em sua maioria jovens (como, aliás, desde a tomada da Bastilha e a queda do czar), de classe média, bem escolarizados etc. Por isso, há os que os tacham de elite, de jovens ignorantes e revoltados sem causa, como se os jovens fossem menos espertos que os adultos que temos por aí. Mas ocorre que também há velhos, há trabalhadores de todas as camadas sociais, aposentados, grevistas, há pessoas que já estavam acostumadas a lutar pelos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, dos ciclistas e vários outros, há diretores de grêmios e de DCEs, além de pessoas que nunca tinham protestado contra nada nesta vida e se consideravam conservadoras e passivas. Uma confluência de movimentos e causas de uma multidão de cidadãos – enfim, cidadãos – que têm em comum principalmente sua visão de que vivem numa democracia que lhes dá direito de se expressarem livremente.
Expressar… Eis aí outro ponto forte que move esses protestos: a comunicação. Os dois itens que listei acima passam diretamente pela comunicação. E a repercussão dos movimentos pela internet, que não dependem só dos grandes veículos para se fazerem ouvir, também se trata disso.

Vai dar em algo? A galera pergunta. Os sociólogos dão seus palpites. Eu dou o meu também, como sempre fiz:
o Ocupy Wall Street, que era bem parecido em vários sentidos (mas num país com mais tradição em megaprotestos), durou mais de dois meses e acabou não mudando nada muito profundo. Mas só de os jovens brasileiros adotarem os megaprotestos em suas agendas de conscientização política – negando a nojeira que é o fla-flu do PT X PSDB, que já CANSOU, sendo usada desde a chegada do PT à presidência, geralmente orquestrada por pessoas muito bem pagas pra isso, de ambos os “times” –, já é um avanço e tanto! Esse grupo que vai às ruas faz questão de se posicionar acima de qualquer partido ou instituição, o que já me parece maravilhoso – certamente, muito mais democrático.
Como vários cartazes dizem por aí, “o gigante acordou”. Se nada mais mudar, só essa sacudida já terá valido muito. Mas algo me diz que muito mais vem por aí. Nossos netos vão estudar a “revolta do vinagre”, como nós estudamos a da vacina, a dos emboabas e a dos mascates. Como já constam nos livros também a dos caras-pintadas do “Fora Collor”. Sem se limitarem às inocentes hashtags do #forasarney.

PS. Sugiro aos que realmente querem entender o movimento que participem dele. Que vão também às ruas, acompanhem as redes sociais e conversem com os demais manifestantes, para entender e perceber como são heterogêneos. E os que são alienados a ponto de só reclamarem de engarrafamentos e transtornos, com o pau quebrando ao redor, boa sorte nesta nova era da Comunicação que se abre.
PS.S. A polícia não parou sua repressão! Em BH houve bombas de gás e, no Rio, até tiros com fuzis e pistolas, com balas de verdade!
Atualização na terça-feira: Perfil dos manifestantes em SP, segundo o Datafolha:
- 84% não têm preferência por algum partido
- 77% têm nível superior
- 22% são estudantes (pra quem diz que só tem estudante protestando)
- 53% têm menos de 25 anos (então a maioria é de trabalhador recém-formado)
O que mais me alegrou foi o primeiro número. Rumo ao fim do fla-flu insuportável entre petistas e tucanos! Por uma consciência política apartidária, horizontal, democrática e diluída!
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