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Mais um caso de grave censura a uma produção cultural no Brasil fundamentalista e autoritário em que vivemos

O alvo somos todos nós, cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que
podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro
não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas
escolhas com consciência e liberdade.”

Este é um trecho do manifesto contra a censura que ocorreu na Bienal do Livro, em setembro do ano passado.

Trecho belíssimo que, assim como naquela ocasião, hoje representa muito bem o que todos os cidadãos deveriam defender, caso prezem pela democracia, liberdade de expressão, liberdade de pensamento, liberdade artística e de imprensa.

O que aquela censura tinha em comum com a atual, que proíbe o especial de Natal do “Porta dos Fundos”?

‘Folha de S.Paulo’ estampou beijo censurado na bienal em sua capa em setembro de 2019.

1- Aconteceu no Rio de Janeiro, ex-terra do Carnaval, hoje um antro do fundamentalismo religioso brasileiro e lugar onde o núcleo duro do bolsonarismo se sente à vontade. Naquele caso, foram fiscais da prefeitura que tentaram censurar uma HQ por causa de um beijo gay. Agora, foi um desembargador do TJ-RJ, Benedicto Abicair, que cometeu a censura.

2- Naquele caso, a Justiça reverteu a censura. Agora, instâncias superiores da Justiça também certamente o farão, e um ministro do STF, Marco Aurélio de Mello, já veio a público se manifestar neste sentido.

3- Naquele caso, assim como agora, o alvo da censura é o mesmo: um relacionamento gay. E isso não ocorre à toa. Para um país fundamentalista religioso, como está se tornando o Brasil, ser gay é cometer um crime. No mínimo, um pecado. Já vivemos isso em outros momentos da História – e a tendência é só piorar, se não fizerem algo para frear esse movimento ultraconservador.

“Ah, mas não foi censura. Foi proteção de religiosos. Foi repúdio a uma ofensa. Etc”, poderão escrever alguns. Sobre isso, recomendo a leitura deste artigo de Thiago Amparo, que é professor da FGV Direito SP, ministra cursos sobre direitos humanos, direito internacional, políticas públicas, diversidade e discriminação, é advogado, tem mestrado em direitos humanos (LLM) pela Central European University (Budapeste, Hungria) e doutorado pela mesma universidade.

Destaco este trecho (grifos meus):

“Preocupa, ainda mais, o pressuposto às margens da decisão: de que existe um direito geral de religiões, representado pela organização católica autora da ação, a não serem ofendidas. Não estamos diante de um caso de crime de intolerância previsto na lei ou ações de indenização por ofensa à honra individual de alguém. Não cabe aqui falar em um direito geral a não ser ofendido, quando isso significa censura inconstitucional.

Pela ordem jurídica atual, pluralismo democrático pressupõe a convivência de críticas. Lá na década de 1970, a Corte Europeia de Direitos Humanos já consagrava que liberdade de expressão não significa apenas falar o que agrada aos outros, mas também aquilo que pode chocar alguém. Se assim não fosse, inexistiria liberdade alguma, em especial no contexto de sátira. Basta que religiosos que se sintam ofendidos não vejam o episódio. Basta que produzam uma resposta a ele. Em nada o episódio, goste dele ou não, diminui a liberdade religiosa, igualmente importante juridicamente.”

Estre trecho me lembrou de outro: o episódio do atentado ao semanário “Charlie Hebdo”, em Paris, que deixou 12 mortos em janeiro de 2015. Vejam o que escrevi neste blog na época, que remete muito ao que diz Thiago Amparo hoje:

“Goste-se ou não do trabalho que era feito pelos cartunistas da “Charlie Hebdo”, eles tinham o direito de fazê-lo. Para mim, o que aconteceu em Paris acende uma luz vermelha que nos leva à seguinte reflexão: o mundo está tão sério, e se levando tão a sério, que as vítimas desta guerra que começa a se desenhar não são soldados ou chefes de Estado: são jornalistas e cartunistas, homens que lidam diariamente com a sátira, a ironia e o humor, por meio de traços e palavras. Não gosta do que desenham? Responda com um desenho também, ou com um texto, com algo no campo das artes e das ideias. Se responder na Justiça já me parece abusivo, os que apelaram ao fuzilamento sumário só me remetem a um homem das cavernas imaginário — e piorado.”

Especial de Natal do Porta dos Fundos é censurado na Justiça do Rio. Imagem: Divulgação

“Ah, mas não tem nada a ver o que aconteceu lá e o que aconteceu aqui!” Será? Lá tínhamos irmãos ligados ao Estado Islâmico que tinham ficado ofendidos com trabalhos que satirizavam o Islã e abriram fogo contra os jornalistas e desenhistas do semanário. Aqui, temos uma instituição católica (Centro Dom Bosco), que tem como objetivo formar “soldados de Cristo por meio da via espiritual e intelectual para atuar na cultura, defendendo a fé verdadeira”, que entrou na Justiça contra uma obra satírica de uma grande produtora nacional, veiculada pela Netflix, que hoje é uma gigante mundial. Ah sim, e também tivemos um atentado, com direito a dois coquetéis molotov atirados na sede da produtora, na véspera do Natal. Será que os fundamentalistas vão demorar a sair da esfera da censura jurídica e partir pra violência? Ops, já fizeram isso.

Fiquemos atentos, amigos, porque a escalada do autoritarismo já começou faz tempo. Com mais força em 2017, mas vem crescendo de lá pra cá, e exponencialmente. Se ninguém reagir, será tarde demais.

Como bem escreveu Tony Goes: “A ameaça (…) atinge a todos nós. (…) Hoje é um programa de humor, amanhã pode ser uma letra de música ou um livro de História”.

Lembrem-se do que nos alertava o poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, ainda na década de 1960 (“No Caminho, com Maiakóvski”):

“Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”


P.S. Nem entrei no âmbito da qualidade da produção do “Porta dos Fundos”, porque acho que isso simplesmente nem vem ao caso. Eu particularmente não acho a menor graça no Porta dos Fundos, mas defenderei para sempre o direito de eles produzirem seus trabalhos, com ou sem graça. Pelos mesmos motivos que defendi na época do atentado ao “Charlie Hebdo” e em várias outras ocasiões em que militei contra a censura aqui no blog. Para quem tiver interesse, este é o trailer:

 


Leia também:

  1. A censura ao beijo gay dos quadrinhos e o fundamentalismo religioso no Brasil
  2. Brasil, o ex-país do Carnaval
  3. O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas
  4. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  5. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  6. Fanatismo é burro, mas perigoso
  7. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  8. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “Mais um caso de grave censura a uma produção cultural no Brasil fundamentalista e autoritário em que vivemos Deixe um comentário

  1. Excelente reflexão. Estamos vivendo um retrocesso. O Brasil, um país de tantas culturas, hoje está encoberto pela intolerância a todo tipo de diversidade. Como seremos críticos, se conseguimos conviver com pensamentos diferentes? Seremos gado???
    Particularmente, gosto do trabalho do Porta dos Fundos, não de todos, claro. Sou cristã e não vi nenhuma ofensa à fé das pessoas no episódio em destaque. É uma comédia assim como muitas outras, alguns apreciam, outros não. Normal…era para ser.
    A fé que uma pessoa tem em Jesus não acabará por conta desse programa, tenho certeza. O que talvez os ofendidos não estão conseguindo perceber ou mesmo aceitar é a possibilidade de um Jesus diferente.

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    • Excelente comentário, Socorro, muito obrigada! “O que talvez os ofendidos não estão conseguindo perceber ou mesmo aceitar é a possibilidade de um Jesus diferente.”Acho que você tocou no xis da questão. Um abraço e comente sempre 😉

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