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Brincando com coisa séria: como ‘O Pasquim’ ridicularizou e desmoralizou a ditadura militar

Texto escrito por José de Souza Castro:

A capa do livro

“Só dói quando eu rio – Treze anos daqueles tempos contados pelo humor de Ziraldo” é um livro de 384 páginas em formato 22 x 30 cm, com textos e desenhos do criador do Menino Maluquinho publicados em “O Pasquim“. Um jornal semanário lançado em junho de 1969, seis meses depois do AI-5, o ato institucional que endureceu mais ainda a cruel ditadura militar iniciada em 1964.

O livro foi lançado em 2011 pela Editora Globo. O Brasil vivia então uma época bem diferente da atual. Há nove anos, a volta da ditadura parecia algo impensável no Brasil. A leitura desse livro – que deveria ser relançado – faz muita falta aos que, em tempos do capitão Bolsonaro, têm saudades da ditadura. Por esquecimento ou desconhecimento. Não sei se a simples leitura pudesse mudar a opinião dos que aceitam a volta da ditadura e a completa submissão do Brasil aos Estados Unidos, mas está feito o convite.

Na apresentação do livro, em 2011, o jornalista Zuenir Ventura escreveu:

“Só dói quando em rio é a própria piada-metáfora do estado de espírito de então – um país como que atravessado por uma espada e precisando rir. Pode-se reconstituir aquele período, fazer sua antropologia – os usos e costumes, cultura, ideias, maneiras de pensar e dizer – por meio das palavras e imagens, das charges, cartuns e dicas, em suma, do humor polifônico desse eterno menino maluquinho”.

A ilustração da capa mostra um brasileiro de terno, otimista com a espada que lhe atravessa o peito: “Só dói quando eu rio”.

Duke relembra Ziraldo e mostra que ele continua mais atual que nunca.

Fui leitor de “O Pasquim” desde o primeiro número, e ler esse livro que ganhei de presente no último Natal, foi como ter em mãos a madalena de Marcel Proust: vi-me em busca do tempo perdido em algum momento do século passado. Quem diria, vi-me também, de novo, rindo da ditadura. “O Pasquim”, observa Zuenir Ventura, “não derrubou a ditadura, mas ridicularizou-a e desmoralizou-a”.

O semanário nasceu depois da morte nunca bem explicada de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, criador do Festival de Besteira que Assola o País (Febeapá). Mais ou menos na mesma época, a revista Pif-Paf, lançada em maio de 1964 pelo humorista Millôr Fernandes, sucumbiu depois do prejuízo causado pela apreensão, pela polícia, de todos os exemplares de sua oitava edição.

“O Pasquim” teve mais sorte. Quando a ditadura prendeu nove humoristas e jornalistas da cúpula do jornal em dezembro de 1970, os textos e desenhos de Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Paulo Francis, Flávio Rangel e Grossi – os presos – foram substituídos por artigos enviados espontaneamente por Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Macalé, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Glauber Rocha, Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony, Chico Buarque e muitos outros, que queriam vivo “O Pasquim”.

O jornal não morreu e os presos foram libertados na segunda semana de janeiro. Seis meses depois, novo escândalo. Em letras enormes, na capa, “O Pasqu10im” publicou: “Todo paulista é bicha”. Poucos perceberam que a frase completa era: “Todo paulista que não gosta de mulher é bicha”. Que não gosta de mulher, em letras minúsculas. Foi recorde de vendas do jornal em São Paulo, a Câmara Municipal reagiu e o censor do Pasquim foi chamado a Brasília para dar explicação.

O censor do Pasquim era o general Juarez, pai de Helô Pinheiro – a Garota de Ipanema da famosa canção – e o respeitado militar explicou direitinho o motivo de não ter censurado o jornal.

A palavra bicha, disse o general a seus superiores, conforme Ziraldo, “já faz parte da língua que o brasileiro fala, pô! Todo mundo no Maracanã chama o juiz de bicha, o Brasil está cheio de bichas e, querem saber de uma coisa? Todo paulista é bicha, mesmo”.

“O Pasquim” resistiu até novembro de 1991, bem mais que a ditadura e um pouco mais que Ziraldo, que ficou até dezembro de 1982. Se a ditadura voltar e tudo mais for censurado pelo governo e pelos donos da imprensa, como na ditadura de 1964, muitos pasquins voltarão. Disso não tenho dúvida.

Jair Bolsonaro ainda nem chegou lá e já vem sendo ridicularizado e desmoralizado Brasil afora. Ouse chegar, e verá!

Que este não é um país sério. Não é, general De Gaulle?

 

Só dói quando eu rio
Ziraldo
Editora Globo, 2011
384 páginas
A partir de R$ 41,80

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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