Dídimo Paiva, o jornalista

Texto de José de Souza Castro:

Durante anos, fui escravo da agenda. Libertei-me dela depois da aposentadoria – e fiz mal. Tenho faltado a eventos que eu gostaria de ter ido, por falta de uma agenda e excesso de esquecimento. O último foi o lançamento, dia 13 deste mês, dos livros sobre um admirável jornalista mineiro, Dídimo Paiva. Hoje, lendo um artigo de José Cleves no Observatório da Imprensa, soube que a imprensa mineira havia ignorado o evento. Inclusive o jornal Estado de Minas, que pôde contar, sem o merecer, com o trabalho diário de Dídimo Paiva, por um longo período.

Transcrevo um trecho do artigo de Cleves: “Basta dizer que ele comandou a opinião do jornal Estado de Minas durante mais de 40 anos sem nunca ter tirado proveito disso para benefício próprio, embora fosse o jornal um monopólio poderosíssimo. Praticamente o único do estado durante quase todos esses anos. Enfrentou [Dídimo] ditadura, pressão externa e interna, vaidades, assédios, se meteu nas lutas sindicais por melhores salários, brigou, xingou, não aceitou imposições, defendeu colegas de trabalho injustiçados, fez manifestos contra a ditadura, elaborou o Código de Ética da profissão de jornalistas, desafiou deputados e governadores, contrariou interesses dos donos de jornais e sobreviveu a tudo isso. Comprou um fusquinha, o seu único carro, e um apartamento, onde mora dignamente com a sua mulher, Cidinha.”

De fato, muitos dos que trabalharam com Dídimo no “grande jornal dos mineiros” enriqueceram. Ele não.

O portal do Sindicato dos Jornalistas publicou duas notícias sobre o lançamento do livro. Uma é assinada por Virgínia Castro. Segundo ela, o foyer do Palácio das Artes estava repleto de jornalistas. “Todos nós, ali, naquela noite, tínhamos um pouco do Dídimo”, escreveu Virgínia. “E o Dídimo, ali, tinha um pouco de cada um de nós. Foi tudo muito significativo, como uma chuva de fogos brilhantes! Parecíamos um bando de andorinhas que, sozinhas, jamais fazem verão.”

Eu queria ter estado lá. Ainda vou comprar uma agenda, mas a prioridade é adquirir Passos de uma paixão – Dídimo Paiva e a dignidade no jornalismo e Um bunker na imprensa – Dídimo Paiva em seis décadas de profissão. Conforme a outra notícia publicada pelo Sindicato dos Jornalistas, o primeiro livro, escrito pelos jornalistas Tião Martins e Alberto Sena Batista, “conta os 60 anos da vasta e ininterrupta atividade do ex-presidente do nosso Sindicato, na imprensa brasileira, desde a adolescência, na sua cidade, Jacuí.” Já o segundo, “é uma coletânea da prodigiosa obra do jornalista, garimpada em milhares de recortes de jornais e revistas, guardados em mais de 60 grandes caixas de papelão”.

Dídimo Paiva está com 83 anos. Foi aposentado compulsoriamente pelo jornal, há cerca de três anos. Atualmente, trabalha para terminar outro livro, que já tem título: “A Maldição dos Países Ricos em Minerais”. Um tema importantíssimo para o Brasil, que, com o Pré-Sal, se não tomar cuidado, terá o mesmo destino terrível dos países do Oriente Médio: uma pequena classe dirigente riquíssima a serviço das grandes potências e um grande povo cada vez mais pobre.

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