Suspiro, cansada, contra os donos da verdade

1. Entro no táxi da USP e o motorista dispara: “Esses estudantes têm medo da polícia por quê? Devem ter algo pra esconder, né? Se um policial me para, não vejo problema algum em mostrar o documento. Aqui estão meus documentos, senhor policial, e pronto. Se eles têm algo a esconder, aí tá explicado por que têm medo da polícia, né? Só podem ter algo a esconder, pra querer a polícia longe assim.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

2. Entro no elevador do prédio e uma velhinha, com o jornal na mão, dispara: “O Lula está com câncer, né? Queria ver ele ir pra fila do SUS, pra ver se conseguia tratamento. Tanta gente à espera de um leito do SUS e ele lá, em hospital de primeira. Se ele fosse pro SUS, ia morrer, como tanta gente.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

3. Entro numa assembleia de estudantes da USP, majoritariamente de esquerda, e, se tenho que me apresentar como repórter, eles disparam: “Quantas mentiras você já publicou hoje? A grande imprensa só sabe distorcer a verdade, em nome do lucro. Vocês tratam a gente como um bando de maconheirozinhos querendo defender o baseado, e mais nada. A imprensa é imperialista, golpista etc.”

(Suspiro e, se estou nos meus melhores momentos, dou um jornal para eles lerem, para afiar a crítica, ou entro para o debate, já que jornalismo é uma das poucas coisas de que entendo um pouco na vida)

Mas estou cansada. Cansada de discursos simples. Uma coisa que aprendi fazendo jornal, embora todos digam que jornais são superficiais, rasteiros e simplistas (e muitas vezes são mesmo), é que nada é simples. Tudo, absolutamente, é mais complexo e tem mais versões e mais interesses em jogo do que parece à primeira vista. Por isso mesmo, os discursos dos donos da verdade, como esses acima, geralmente ignoram tanta coisa importante, que deve ser levada em conta, que tentar infiltrar essas outras realidades neles é quase um trabalho de debater contra um robô.

Um exemplo de como tudo é muito complexo: a assembleia geral dos estudantes da USP, da qual saí há pouco. Todos lá pareciam discursar em torno de um consenso, demonstrado pelo excesso de aplausos entre um discurso e outro: a saída da PM do campus. Ouvi, ao longo de umas cinco horas, mais de 50 discursos. E posso dizer que, tirando um ou outro ponto, quase todos disseram sempre a mesma coisa, mas com outras palavras. E, mesmo havendo esse consenso e, mesmo sendo quase todos ali pessoas autodenominadas de esquerda, ou seja, com muitas ideias em comum, não faltaram vaias, xingamentos, desrespeitos aos discursos dos outros, e posições autoritárias e antidemocráticas de uma parte das pessoas, que quis ganhar no grito algo que já tinha sido perdido pela votação.

Quer dizer: fazer democracia é trabalho árduo. E mesmo seus maiores defensores parecem despreparados para lidar com ideias divergentes. Com, por exemplo, uma imprensa (cheia de defeitos, é claro) que não reproduz apenas o que querem ouvir. Com um colega que defende uma ideia diferente sobre a segurança no campus. Com alunos que não estão apenas defendendo o baseado, mas criticando abordagens repressivas e a própria administração atual. Com um ex-presidente rico que pode pagar um tratamento de primeira para se livrar de um grave problema de saúde.

Importante: dos mais de mil reunidos ali, a grande maioria parecia respeitar o diálogo, tendo em vista que aplaudia, em peso, quem criticava aqueles que queriam passar por cima das exaustivas deliberações feitas por uma maioria. Mas achei curioso ver, ali na minha frente, um exemplo claro de como a realidade é complexa, de como os discursos, por mais parecidos que sejam, encontram matizes múltiplas, que se esbarram a todo momento.

Acho que as pessoas deveriam, às vezes, fazer um pouco mais como eu: suspirar, cansadas, e ouvir mais que falar (não que eu faça isso sempre), pelo menos quando entendem pouco do que está sendo discutido. Porque somos todos ignorantes mundinhos convictos e não representamos nem uma ínfima parte daquela Verdade da qual nos julgamos donos.

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15 comentários sobre “Suspiro, cansada, contra os donos da verdade

  1. A democracia é dura, se é que é possível, porque todo mundo tem uma opinião e um interesse diferente e quase todos têm a opinião e o interesse que não serve à própria democracia. Mesmo em países com tradição de democracia e imprensa vigilante ocorrem coisas como as que ocorreram em Oakland (as TVs tirarem os protestos do ar logo antes da polícia invadir descendo a borracha), que dirá na nossa recém-nascida e ainda mui indecisa democracia?

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    • Vc tocou no X da questão: “todo mundo tem uma opinião e um interesse diferente e quase todos têm a opinião e o interesse que não serve à própria democracia”.

      Prova disso é ter ocorrido uma invasão do prédio da Reitoria durante a madrugada, depois que eu já estava em casa, sendo que uma assembleia geral de estudantes, com mais de mil, tinha decidido pela desocupação. Os perdedores quiseram ganhar à força, impôr uma decisão, e não há nada mais autoritário do que isso. Com certeza, agora, na minha opinião, vão ficar isolados e com a opinião pública contra eles, já que fizeram à revelia até dos demais estudantes que pensam parecido com eles.

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  2. Democracia é o pior sistema de governo, fora todos os outros.

    Eu sei, é um chavão, mas não menos verdadeiro por isso.:) O problema da democracia, me parece, é que é um sistema totalmente contra-intuitivo, que viola o padrão de comportamento de nossa e de outras espécies gregárias, o mais forte impõe seus desejos.

    Levamos muito tempo para entender que esse sistema básico, do mais forte (ou mais armado, ou em maior número) era prejudicial, mesmo para os eventualmente no poder. Sempre surgia alguém mais forte em algum momento.

    A Democracia, que não se confunde com ditadura da maioria, tenta aplicar um conceito muito difícil para nós, aceitar perder. Por isso é tão difícil de ser implantada a força, como em países sem tradição nessa área. Invade-se o Iraque, instalasse uma democracia, e se fazem eleições.

    Os xiitas ganham, ou os sunitas, e quem perder deve aceitar isso e aceitar o governo, mesmo que temporário, do inimigo de séculos. Só pode acabar em explosões e mortes mesmo.

    Democracia é um aprendizado, e está sempre sob o perigo de ser destruída pela natureza um tanto primitiva da maioria ou de grupos que não entendem seus princípios e mecanismos.

    Muito bom o texto, parabéns.:)

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  3. CRISântemo,
    Ainda não decidi o que foi melhor: o assunto, sua abordagem ou o texto em si. Muito bom!
    Será que é por que também eu estou “suspirando e balançando a cabeça” cada vez mais?

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  4. Kika, eu estava na assembleia da terça e tentei te reconhecer, mas não consegui. Teria ido falar contigo para dizer que leio seu blogue e agradecer pela matéria do sábado, a única dos grandes jornais que abordou as coisas de maneira equilibrada. Acho que você percebeu bem as movimentações e fico feliz por isso. A maioria queria debater ideias. Fiquei arrependido por não ter tido a iniciativa e a perspicácia de pedir a palavra – uma vez que os extremistas pensaram rápido e falaram muito na parte dos independentes. De certa forma, fui contemplado pela fala do Centro Acadêmico de História – CAHIS, que reproduziu uma discussão que tivemos em duas plenárias na segunda e na terça. Ela dizia que os estudantes deveriam desocupar a FFLCH e discutir propostas de segurança pública para a USP. Debater e propor. Mas não foi isso que prevaleceu e os grupos que não respeitaram ninguém durante a assembleia toda sabiam que não aceitariam uma derrota (então para que foram a ela?). Terrível.

    De lá para cá ouvi absurdos de todo tipo. Alguns dizem que a PM é ótima, que tem que ter batidas e abordagens mesmo, que os vagabundos maconheiros da FFLCH têm mais é que se foder. Outros me chamaram de reacionário e pelego por não concordar com o modo como se portaram os “ultras” nem com a ocupação da reitoria.

    Fiquei empolgado com o protesto contra a PM na quinta retrasada; fiquei triste com o conflito, desnecessário. Fiquei empolgado com as discussões que tive na segunda-feira; fiquei triste com o que aconteceu na assembleia. É a leveza. É o peso. Esses dois estados que se revezam no viver humano.

    Kika, não deixe de acreditar no seu jornalismo, pois você faz um trabalho ótimo.

    Um abraço, Caio

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  5. Pois é, Cris…também ando suspirando e cansado deste panorama repleto de “donos da verdade”. Mas como ainda estamos aprendendo a lidar com uma democracia, talvez ainda haja esperança no futuro – próximo, espero.

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  6. Cris, adorei o texto e não fiquei nem um pouco abatido. Muito pelo contrário. É tão gostoso saber que tem gente que pensa dessa forma, principalmente depois de passar o dia inteiro lendo “verdades absolutas” de direita e de esquerda nas redes sociais da vida.

    Aplaudo de pé seu texto e sua posição!

    Bjs!

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  7. DONO DA VERDADE

    BOM,POR VÁRIAS RAZÕES,E PRINCIPALMENTE POR A MINHA,ME VEJO OBRIGADO A EXPRESSAR MINHA OPINIÃO SOBRE A EXPRESSÃO DONO DA VERDADE.
    EM MINHA CAMINHADA ,MUITAS VÊZES FUI CHAMADA DE DONA DA VERDADE,ALIÁS XINGADA DESSA FORMA.ACREDITO QUE DESDE QUE ME CONHEÇO POR GENTE,DEFENDI FORTEMENTE O QUE EU SENTIA.COM O DECORRER DO TEMPO E A DITA BUSCA ESPIRITUAL,ESSA MINHA FORMA DE SER TOMOU MAIS FORÇA,POIS PELO QUE ENTENDI,O MAIOR MESTRE ESTÁ DENTRO DE NÓS,ACUSADO POR MUITOS,DE EGO.NESSA GUERRA DE INFORMAÇÕES,ME DEI CONTA QUE NÃO EXISTE ELABORAÇÃO,OU DIRÍAMOS,DEGUSTAÇÃO EM RELAÇÃO AS INFORMAÇÕES QUE RECEBEMOS DE FORA…..SIMPLESMENTE ENGOLEM.ISSO ME LEMBRA MUITO O ATO DE ENGOLIR A HÓSTIA COMO CORPO DE CRISTO.
    BOM….MUITO OUVI,QUE EXISTE UM MUNDO SUPERIOR,ONDE TODAS AS IDÉIAS NAVEGAM LIVREMENTE,SEM NENHUM SENSOR DE USO EM RELAÇÃO A QUEM VAI MATERIALIZÁ-LAS OU CANALIZÁ-LAS NESSE PLANO TRIDIMENSIONAL.ESSA IDÉIA,SEMPRE ECUOU NOS MEIOS ,DIRÍAMOS ESPIRITUALIZADOS,ATRAVÉS DE PESSOAS QUE SE DIZEM ESPIRITUALIZADAS.
    HOJE,MEU CORPO VIBROU MUITO FORTE,QUANDO A GOTA D’AGUA,DE UM ASSUNTO REFERENTE A DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS,BATEU EM MINHA PORTA.NÃO PUDE SEPARAR ISSO DO FATO DA COBRANÇA DE INDULGÊNCIAS POR PARTE DA IGREJA.PARA QUEM NÃO SABE,INDULGÊNCIA,ERA O PERDÃO DIVINO E PASSAPORTE PARA ENTRAR NO PARAISO,VENDIDO POR ALGUMAS IGREJAS.COM CERTEZA ELAS NÃO SÃO ACUSADAS DE DONAS DA VERDADE.
    SERÁ QUE O ATO DE PENSAR E DISCERNIR NOS TORNA RÉUS NOMEADOS DE DONOS DA VERDADE?
    SERÁ QUE A BUSCA DA INDIVIDUALIDADE,SAINDO DO BRETE,É UMA FACA DE DOIS LEGUMES?
    SERÁ QUE SE INDIVIDUALIZAR (PENSAR POR SI PRÓPRIO) É UM CRIME?
    SERÁ QUE VIVERMOS COMO ALMA GRUPO É A GRANDE VERDADE?
    SERÁ QUE APENAS EU ACREDITO QUE TODA A MATERIALIZAÇÃO DE UMA IDÉIA TENHA QUE TER DIREITO LIVRE DE ACESSO E USO?
    SERÁ QUE,SE APALAVRA AMOR FOSSE REGISTRADA POR ALGUÉM,E COBRADO DIREITOS AUTORAIS,SERIA MAIS VALORIZADA?
    BOM…………

    CLARICE TARRAGO ROSA-
    PSEUDÔNIMO…DONA DA VERDADE

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