Por menos gritos, muros e ódio nos discursos dos meus amigos de Facebook

Não posso simplesmente deletar minha conta do Facebook, porque trabalho com o Facebook. Faz parte das minhas funções profissionais. Também é por esta rede social que melhor divulgo os posts deste blog de estimação.

Mas, se pudesse, já teria mandado esse circo do tio Zuckerberg pelos ares!

A culpa não é do Facebook, é claro. Ele é apenas um espelho (meio retorcido) da sociedade do lado de cá das telas. E é claro também que leio muitos textos legais ali dentro. Saio curtindo uma porção de fotos incríveis de pôr-do-sol lindo na praia tal, de bebê fofo fazendo uma estripulia, de casais apaixonados celebrando a vida. Dá até para ficar relativamente por dentro da vida de meia dúzia de amigos sumidos que os robozinhos do Facebook permitem que eu veja com frequência em minha timeline.

Essa parte é a parte boa.

Mas quando, vez ou outra, resolvo ler mais a fundo os textões e textinhos que são compartilhados ali, saio meio zonza, com uma sensação de embrulho no estômago, de ter levado mil pauladas. Mal estar danado. Continuar lendo

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Quando até discurso é bom de ler

gabo

A Ana Paula, de quem tanto já falei por aqui, me emprestou o livro acima com bastante propaganda. “É muito legal!”. E disparou a contar uma história sensacional que é contada logo no começo do livro, que depois reli como se tivesse sabendo dela pela primeira vez, de tão genial. Gabriel García Márquez é genial e fazia tempo que eu não me lembrava disso (o último dele que li foi “Memórias de minhas putas tristes”, em 2006!!).

O livro em questão, “Eu não vim fazer um discurso”, reúne 21 discursos que Gabo fez entre 1944 e 2007. Da despedida do colegial à comemoração de seus 80 anos e 40 anos de publicação da obra prima “Cem Anos de Solidão”. Passando pelo prêmio Nobel, por conferências com grandes líderes e intelectuais do mundo e por homenagens a amigos, os discursos tratam das agruras da América Latina, do ofício apaixonante de jornalista, da literatura e de figuras públicas, mais ou menos conhecidas.

Pincelo alguns trechos incríveis do livro:

“Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e pela sua permanente vitória sobre os surdos poderes da morte.” (1982)

*

“Em algum momento do próximo milênio a genética vislumbrará a eternidade da vida humana como uma realidade possível, a inteligência eletrônica sonhará com a aventura quimérica de escrever uma nova Ilíada, e em sua casa na Lua haverá um casal de apaixonados de Ohio ou da Ucrânia, angustiados de nostalgia, que se amarão em jardins de vidro à luz da Terra. A América Latina e o Caribe, porém, perecem condenados à servidão do presente: o caos telúrico, os cataclismos políticos e sociais, as urgências imediatas da vida diária, das dependências de toda índole, da pobreza e da injustiça, não nos deixaram muito tempo para assimilar as lições do passado nem pensar no futuro.” (1985)

*

“Um minuto depois da última explosão, mais da metade dos seres humanos terá morrido, o pó e a fumaça dos continentes em chamas derrotarão a luz solar, e as trevas absolutas voltarão a reinar no mundo. Um inverno de chuvas alaranjadas e furacões gelados inverterá o tempo dos oceanos e dará volta no curso dos rios, cujos peixes terão morrido de sede nas águas ardentes, e cujos pássaros não encontrarão o céu. As neves perpétuas cobrirão o deserto do Saara, a vasta Amazônia desaparecerá da face do planeta destruída pelo granizo, e a era do rock e dos corações transplantados estará de regresso à sua infância glacial. Os poucos seres humano que sobrevivam ao espanto, e os que tiverem o privilégio de um refúgio seguro às três da tarde da segunda-feira aziaga da catástrofe magna, só terão salvado a vida para depois morrer pelo horror de suas recordações. A criação haverá terminado. No caos final da umidade e das noites eternas, o único vestígio do que foi a vida serão as baratas.” (forte discurso contra as 50 mil ogivas nucleares engatilhadas pelo mundo, feito em 1986)

*

“Pois o jornalismo é uma paixão insaciável, que só se consegue digerir e humanizar pela sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não a tenha padecido consegue imaginar essa servidão que se alimenta das imprevisões da vida. Ninguém que não tenha vivido isso consegue nem de longe conceber o que é o palpitar sobrenatural da notícia, o orgasmo da nota exclusiva, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a morrer por isso poderia persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia (…).” (1996)

*

“Aos meus doze anos, estive a ponto de ser atropelado por uma bicicleta. Um padre que passava me salvou com um grito: ‘Cuidado!’ O ciclista caiu no chão. O senhor padre, sem se deter, me disse: ‘Viu só o que é o poder da palavra?'” (1997)

Mas o trecho mais legal, aquele que citei de cara neste post, vou deixar para publicar aqui amanhã, porque domingo é dia do bom e do melhor 😉

De qualquer forma, adianto: quem gosta de literatura, de história e de jornalismo, de refletir sobre a palavra e de sorver textos tão maravilhosamente bem escritos, tem que dar um jeito de ler este livro.

Eu não vim fazer um discurso
Gabriel García Márquez
Editora Record
127 páginas
De R$ 16 a R$ 28

Leia também os seguintes posts sobre discursos:

 

Filas de antipatizantes

O politicamente correto às vezes é bastante útil como discurso de conscientização e reflexão. Mas, também não raro, às vezes é apenas um negócio CHATO PRA DANAR. Tipo assim:

chargeheroisCom picuinhas, agressividade e chatice, muitas pessoas estão perdendo aliados para suas causas, bandeiras e visões próprias do mundo e, em troca, enfileirando antipatizantes.

Sábio é aquele que consegue unir o bom senso ao bom humor — e, assim, convencer de que sua verdade é a “melhor”.

***

Um cara que sabe defender os direitos das pessoas com deficiência de forma bem humorada e cativante é, por exemplo, o colunista e blogueiro Jairo Marques, da “Folha”. E mesmo ele às vezes tem que aturar amolação de gente chata , que não admite o pensamento divergente, como se vê AQUI.

Também já escrevi a respeito outras vezes aqui no blog:

Em defesa da leveza na vida e da permissividade no humor
Pica-Pau: mocinho ou bandido?
De idosos, anciãos e velhos-jovens

Suspiro, cansada, contra os donos da verdade

1. Entro no táxi da USP e o motorista dispara: “Esses estudantes têm medo da polícia por quê? Devem ter algo pra esconder, né? Se um policial me para, não vejo problema algum em mostrar o documento. Aqui estão meus documentos, senhor policial, e pronto. Se eles têm algo a esconder, aí tá explicado por que têm medo da polícia, né? Só podem ter algo a esconder, pra querer a polícia longe assim.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

2. Entro no elevador do prédio e uma velhinha, com o jornal na mão, dispara: “O Lula está com câncer, né? Queria ver ele ir pra fila do SUS, pra ver se conseguia tratamento. Tanta gente à espera de um leito do SUS e ele lá, em hospital de primeira. Se ele fosse pro SUS, ia morrer, como tanta gente.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

3. Entro numa assembleia de estudantes da USP, majoritariamente de esquerda, e, se tenho que me apresentar como repórter, eles disparam: “Quantas mentiras você já publicou hoje? A grande imprensa só sabe distorcer a verdade, em nome do lucro. Vocês tratam a gente como um bando de maconheirozinhos querendo defender o baseado, e mais nada. A imprensa é imperialista, golpista etc.”

(Suspiro e, se estou nos meus melhores momentos, dou um jornal para eles lerem, para afiar a crítica, ou entro para o debate, já que jornalismo é uma das poucas coisas de que entendo um pouco na vida)

Mas estou cansada. Cansada de discursos simples. Uma coisa que aprendi fazendo jornal, embora todos digam que jornais são superficiais, rasteiros e simplistas (e muitas vezes são mesmo), é que nada é simples. Tudo, absolutamente, é mais complexo e tem mais versões e mais interesses em jogo do que parece à primeira vista. Por isso mesmo, os discursos dos donos da verdade, como esses acima, geralmente ignoram tanta coisa importante, que deve ser levada em conta, que tentar infiltrar essas outras realidades neles é quase um trabalho de debater contra um robô.

Um exemplo de como tudo é muito complexo: a assembleia geral dos estudantes da USP, da qual saí há pouco. Todos lá pareciam discursar em torno de um consenso, demonstrado pelo excesso de aplausos entre um discurso e outro: a saída da PM do campus. Ouvi, ao longo de umas cinco horas, mais de 50 discursos. E posso dizer que, tirando um ou outro ponto, quase todos disseram sempre a mesma coisa, mas com outras palavras. E, mesmo havendo esse consenso e, mesmo sendo quase todos ali pessoas autodenominadas de esquerda, ou seja, com muitas ideias em comum, não faltaram vaias, xingamentos, desrespeitos aos discursos dos outros, e posições autoritárias e antidemocráticas de uma parte das pessoas, que quis ganhar no grito algo que já tinha sido perdido pela votação.

Quer dizer: fazer democracia é trabalho árduo. E mesmo seus maiores defensores parecem despreparados para lidar com ideias divergentes. Com, por exemplo, uma imprensa (cheia de defeitos, é claro) que não reproduz apenas o que querem ouvir. Com um colega que defende uma ideia diferente sobre a segurança no campus. Com alunos que não estão apenas defendendo o baseado, mas criticando abordagens repressivas e a própria administração atual. Com um ex-presidente rico que pode pagar um tratamento de primeira para se livrar de um grave problema de saúde.

Importante: dos mais de mil reunidos ali, a grande maioria parecia respeitar o diálogo, tendo em vista que aplaudia, em peso, quem criticava aqueles que queriam passar por cima das exaustivas deliberações feitas por uma maioria. Mas achei curioso ver, ali na minha frente, um exemplo claro de como a realidade é complexa, de como os discursos, por mais parecidos que sejam, encontram matizes múltiplas, que se esbarram a todo momento.

Acho que as pessoas deveriam, às vezes, fazer um pouco mais como eu: suspirar, cansadas, e ouvir mais que falar (não que eu faça isso sempre), pelo menos quando entendem pouco do que está sendo discutido. Porque somos todos ignorantes mundinhos convictos e não representamos nem uma ínfima parte daquela Verdade da qual nos julgamos donos.