3º livro das férias

Para mim, o sujeito que escreve um livro de quase 500 páginas, com trocentos personagens, misturando figuras históricas reais e outras inventadas (para dar ambientação), que solta nomes estranhos a rodo e os retoma centenas de páginas adiante, que deixa diversas expressões francesas intraduzidas (o que considero um erro da editora no Brasil), que mistura tramas e fala através da voz de três totalmente diferentes narradores, inclusive com estilos diferentes, e que, apesar disso, nunca deixa seu leitor perdido é, sem sombra de dúvida, alguém que domina a arte da narração.

Este é Umberto Eco. Você pode começar a ler seu livro na primeira semana de janeiro, após devorar, um por dia, dois livros bem mais leves (já resumidos aqui no blog), parar por mais de uma semana enquanto faz viagens por lugares belos do Brasil e, ao retomar, tanto tempo depois, relembrar de tudo o que já foi tratado antes.

Isso é fácil e aceitável para muitas narrativas, mas essas com tantos personagens, tantas tramas intrincadas e tantas questões em suspense — além de todas as informações históricas, com suas várias datas e questões políticas locais demais (na Itália e França) para alguém que estudou numa escola brasileira — tornam o trabalho do narrador muito mais habilidoso e seu resultado, já que satisfatório, muito mais competente.

Assim é “O Cemitério de Praga“. Você começa sem entender nada daquele personagem, capitão Simone Simonini, que destila tanto ódio aos judeus, aos maçons, aos jesuítas, às mulheres e às gentes de várias nacionalidades, como os italianos, franceses e alemães.

O suposto herói da trama, aquele que vai narrar em primeira pessoa boa parte do mundo que nos será apresentado, é esse crápula? Esse sujeito egoísta, cínico, desonesto, traíra, mesquinho, glutão, mercenário, frio, sórdido e merecedor de tantos outros adjetivos negativos?

Pior é que é, mas, como costuma acontecer aos protagonistas literários, nem por isso conseguimos evitar torcer um pouquinho por ele, talvez em nome da extrema sinceridade (não honestidade!), da ironia e, graças a deus, do excelente humor que ele deixa escapar de vez em quando.

Eis o resumo desse livro: um emaranhado de fatos e personagens históricos reais (por incrível que possa parecer), apinhados de tramas e complôs surreais, geralmente produzidos por esse protagonista asqueroso (mas baita personagem) e descritos com bastante suspense, do início ao fim — mas tão bem descrito que nenhuma ponta fica solta, tudo é explicadinho e vai se fechando, ao longo do livro, em vários maravilhosos “cliques” mentais.

E essa história europeia, que já sabíamos ter muito de religião, aparentemente também teve muito de satanismo, de clubes secretos, de espionagem, de rituais escabrosos e de eventos criados para satisfazer o poderoso da vez — rei, premiê, papa etc –, sacrificando quantas vidas fossem necessárias.

Alguém duvida que seja assim até hoje, passando pelo 11 de setembro e tantos outros eventos mais ou menos conhecidos de todos nós?

“O Cemitério de Praga”
Umberto Eco
R$ 28 a R$ 75
Record
479 págs.
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