2º livro das férias

Histórias Apócrifas“, de Karel Capek, foi uma das dicas que recebi de vocês naquele post de março, sobre o quanto eu andava lendo pouco.

Foi apenas o segundo que li, dentre as sugestões — por enquanto. E quem me aconselhou veementemente, e mais de uma vez, a ler esses contos, foi meu amigo Jaime “Groo” Guimarães.

Pois bem, a orelha era promissora: “Como teria sido o tribunal que condenou Prometeu por roubar o fogo dos deuses? Que resmungos trocaria um velho casal da Idade da Pedra lamentando a decadência das novas gerações e a fala de perspectivas da humanidade? Quais seriam os comentários maldosos que corriam entre os soldados gregos no cerco de Troia? O que um esforçado padeiro de Jerusalém diria sobre Cristo e seu milagre dos pães?”

Realmente, todas essas perguntas abrem margem para mil possibilidades de histórias paralelas aos clássicos trazidos até nós pela Bíblia, pela mitologia grega e pela História. Possibilidades que uma mente criativa como a desse escritor tcheco transforma em iguarias.

Tem de tudo ali. Muito humor, muito sarcasmo e, sobretudo, um certo tom de parábola, de reflexão, de tentar encontrar a moral da história por trás das velhas histórias que engolimos desde crianças.

Isso é sensacional.

Mas coloco um porém. Esses exemplos listados na orelha são justamente os melhores contos do livro. Fora eles, a fórmula fica um pouco repetitiva. E o próprio estilo do Capek, que é delicioso, não muda muito: diálogos, muitos diálogos, praticamente só diálogos formando os contos, bem curtos, com os personagens falando em tom rabugento, mantendo as formas do português mais correto, com todos os seus “vós sois” e afins.

E isso tem explicação: os contos foram escritos em datas aleatórias, publicados em jornal, sem a intenção original do autor de formar um livro fechado com todos eles. Então é natural que uma fórmula que funciona excelentemente para um conto isolado fique desgastada quando ele é colado, em fileira, ao lado de outros contos com o mesmo estilo, inspiração e intenção.

Nada disso, porém, tira o mérito do autor. Minha sugestão é que vocês leiam muito mais devagar que eu li (devorei em dois dias, espreguiçada na rede), esperando, entre um conto e outro, algumas semanas. E comecem pelos vovôs da Idade Média, são imperdíveis!

“Histórias Apócrifas”
Karel Capek
De R$ 21 a R$ 35
Editora 34
175 págs
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4 comentários sobre “2º livro das férias

  1. Oi, Cris! Ah, este livro eu reli durante minhas férias. Gosto muito – e li assim, com calma, revendo personagens que às vezes escapam em leituras anteriores. Talvez esteja aí outro “problema” da obra: quem não está muito a par das histórias de Prometeu ou mesmo de Hamlet provavelmente encontre algum “tédio” na leitura. Nada que São Google não resolva, em partes…rsrs

    Sim, estes contos citados são realmente os mais destacados, ou inspirados do autor tcheco, mas eu me diverti à beça com os quatro soldados romanos contando suas façanhas nos combates – e aquela confusão toda com os nomes de terras, rios, generais, etc. É que lembra as velhas reuniões familiares de domingo aqui em casa: todo mundo contando histórias e aquela confusão toda sobre datas, nomes e lugares 😀

    Nestas férias li outro de Capek, este considerado sua obra-prima: “Guerra das Salamandras”. Piração total, muito bom o livro. Imagine aí o que aconteceria se uma espécie evoluída de Salamandras passasse da condição de exploradas para ditar os rumos do planeta e da humanidade? Vai ser criativo assim lá na…República Tcheca! rs

    Bjs e aproveite as férias! 🙂

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  2. Cristina, não li o livro ainda. A tradução deve ter sido feita para o português de Portugal. Condlusão que tiro de sua observação de os verbos estarem na segunda pessoa do plural. O que não é muito usado por aqui. Ou, então, o autor narrou a história usando torneios de linguagem da época em que ocorreram os fatos do conto, como recurso de estilo. Abs.

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