1º livro das férias

Buddy Bolden’s Blues“, de Michael Ondaatje, foi escrito como um jazz.

Um enredo, baseado no personagem do título, faz a costura de diversos retalhos de notas musicais, muito poéticas, que não respeitam a pontuação convencional e fluem com muita velocidade.

Faltam vírgulas, especialmente nos vocativos e sequências. Mas como parecem dispensáveis!

Para completar, o narrador ora é do tipo onisciente, em terceira pessoa, ora está em primeira pessoa: e essas pessoas se misturam subitamente, mas nunca saem do ritmo, nunca é difícil entender quem está falando, tamanhas as forças dos personagens.

O principal, Buddy Bolden, justifica todo esse malabarismo literário. Afinal, ele é ninguém menos que um dos criadores do jazz. Um filho de New Orleans.

Com esse título, o livro bem poderia ser uma biografia. E ele tem, sim, vários dados biográficos, baseados em documentos históricos, que chegam a ser inseridos na narrativa, como âncoras para lembrar o desvairado do cornetim de que ele tem audiência e ela não pode se perder totalmente.

Mas o livro não é uma biografia e o motivo para isso é muito simples: quase nada se sabe sobre Bolden. Não há, por exemplo, nem um único registro fonográfico de suas músicas. Uma única foto, desbotada, junto dos outros músicos, dá uma ideia de como ele era fisicamente. Não há certeza do ano em que nasceu, nem do que fez até surgir, de repente, tocando num desfile, aos 20 e poucos anos.

Mas sabe-se que, aos 31, ficou louco, justamente tocando num desfile, e que passou 24 anos de sua vida internado num hospício, onde morreu, em 1931.

O que encanta neste livro é, além da narrativa jazzística, o personagem que surgiu do nada e morreu perdido em seu próprio mundinho, e o quanto ele era interessante, como músico, barbeiro, editor de um “jornal” de fofocas, amante, pai, amigo e inimigo. Tão interessante e misterioso que terminamos a leitura — mais literária que biográfica, lembremos — ainda sem entender totalmente quem foi esse homem do sopro e o que aconteceu com ele.

“Buddy Bolden’s Blues”
Michael Ondaatje (de “O Paciente Inglês”)
R$ 22 a R$ 45
Companhia das Letras
173 págs.
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2 comentários sobre “1º livro das férias

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