Cada prédio tem um estado de espírito

"Ciudad y Abismos", tela de Xul Solar.

“Ciudad y Abismos”, tela de Xul Solar.

Nos últimos seis anos, tive que morar em sete lugares diferentes. E uma coisa eu aprendi, nesse período de mudanças constantes (fora a constatação óbvia de que o processo de mudança é uma trabalheira sem fim!): cada prédio tem um estado de espírito particular. É claro que esse estado de espírito reflete o perfil dos moradores, mas também em especial o do síndico, o da administradora de condomínios e os das regras vigentes.

Existem aqueles prédios que apenas seguem a legislação do país e da cidade, que já conta com as restrições básicas de silêncio em determinados horários, coleta de lixo etc. E existem aqueles prédios que impõem milhões de pequenas normas, que tentam se sobrepôr à legislação e que tornam a vida de todos um inferno.

Num prédio, a síndica é tão megera que obriga os moradores que acabaram de se mudar a “não deixar caixas no vão em frente ao apartamento” — ou serão multados, ameaça ela. Ora, todo mundo sabe que, durante uma mudança, é normal que algumas caixas fiquem sobrando, ainda mais bem na porta da unidade, até que todos os móveis entrem etc.

Teve um apartamento em que morei, o último, que proíbe qualquer barulho “de reforma” após as 17h e aos fins de semana. Não importa se a lei do silêncio prevê o fim dos barulhos às 22h. Eu cheguei lá numa sexta e, no sábado, agendei a visita do técnico da NET para instalar o cabo da internet. Não é reforma, pensei. Mas o cara teve que botar quatro preguinhos, desses minúsculos, só pra firmar o fio branco na parede, sabem? Levaria bem uns dois minutos para bater esses preguinhos. Só que, na segunda martelada, tocou a campainha do apartamento e a síndica avisou: não pode ter “reforma” aos sábados.

No apartamento anterior, a mesma coisa. Aproveitei a visita dos pais no sábado para pedir ajuda ao meu pai para pregar os quadros na parede. Ele levaria no máximo cinco minutos para bater uns pregos e pôr as telas. Mas, na primeira martelada, tocou o interfone e o porteiro avisou: prego aos sábados não pode.

fiz uma matéria sobre um prédio que começou a multar os moradores que gritassem palavrões (por exemplo, naqueles clássicos “CHUUUUPA, TIME X!” após um gol importante do campeonato, ou numa inocente pelada na quadra do condomínio, onde acabam surgindo esporádicos xingamentos). Um morador chegou a levar R$ 600 como penalidade. A desculpa para a restrição era, como sempre, “proteger as crianças” do prédio. Daí fui entrevistar uma professora de educação infantil da USP. Ela, como eu, achou um baita exagero. “É um exagero de cuidado e de controle. A gente não pode impedir que essas coisas todas façam parte do cotidiano das crianças, porque elas ouvem palavrão em casa, na TV, em todo lugar. A gente não tem controle, quer faça mal ou não”, disse ela na reportagem.

Durante a apuração dessa matéria e de outras, descobri que há condomínios multando de casais que fazem barulho durante o sexo a pessoas que dão descarga durante a noite a mulheres que usam sapato de salto em casa. Outro dia uma mulher foi ameaçada de levar uma multa caso não carregasse o cachorro — que pesa uns 30 kg –, em vez de caminhar com ele pelo chão do condomínio. Com problemas na coluna, teve que recorrer à Justiça (e ganhou).

A neurose coletiva, e uma experiência pessoal me levaram a outra pauta: moradores que ouvem barulhos imaginários, geralmente vindos de um vizinho contra o qual têm alguma cisma ou preconceito em particular. Durante a apuração desta, descobri que um terço das queixas são de barulhos imaginários! Meu queixo caiu.

No último prédio onde morei, a primeira coisa que o visitante ou morador via ao entrar na portaria era um quadro de avisos com milhões de papéis: “não pode isso, não pode aquilo”. No prédio onde moro hoje, só existe um papelzinho, pequeno, que lista apenas os “telefones úteis”, como do gás, da luz, de encanador, pintor, faxineira…

Então, como eu ia dizendo, cada prédio tem seu estado de espírito. Há os prédios que mais parecem internatos, onde você anda em sua própria casa pisando em ovos, estressado para não incomodar o vizinho com a descarga. Há os prédios festivos, onde os vizinhos confraternizam nos aniversários e aproveitam até a desgastante reunião de condomínio para relaxar tomando uma cervejinha. Há os prédios tranquilos, onde as pessoas se respeitam sem muitas normas, mas deixam a vida dos outros em paz. Há também aqueles de clima tenso, onde você vê os moradores antigos aos cochichos pelos corredores, falando uns dos outros. Já morei num desses e, num dia em que descia a escada, ouvi a moradora falando pra outra: “Esta é a jornalista de que te falei…”. Oi? Falou o quê, minha senhora?

Quando você for alugar ou comprar um apartamento, não olhe apenas se o acabamento é bom, se o bairro é seguro, se os quartos comportam os móveis ou se tem elevador. Não olhe apenas se existem bares muito próximos infernizando a madrugada ou se a construtora seguiu as novas regras da ABNT. Procure, principalmente, captar o estado de espírito daquele prédio. Porque, pode ter certeza, ele será o quesito mais importante para sua felicidade e qualidade de vida nos próximos meses ou anos.

"Ciudad Lagui", tela de Xul Solar.

“Ciudad Lagui”, tela de Xul Solar.

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A banca da Creusa e a informação inflacionada

Quando eu era criança, ao longo de vários anos, ia passear com a Kika (meu apelido surgiu dessa minha querida vira-lata) até a padaria, para comprar pão, e depois ficava no mínimo uns 30 minutos batendo papo com a Creusa, dona da banca de revistas em frente. Fiz amizade com vários vizinhos ali na banca, troquei figurinhas de álbuns — compradas na banca da Creusa — com outras crianças, e foi ali mesmo, na frente da banca, que consegui meu primeiro “emprego fixo”, para dar aulas particulares à filha de uma moradora da região.

A Creusa era amiga de todos do bairro e sempre prestava informações a todos que pediam. Não é à toa que fazia tão boas vendas, porque ir-até-a-banca-da-Creusa já era quase que um programa por si só, e não só um acidente de percurso, uma passagem até a padaria. E a Creusa continua firme e forte no mesmo ponto, até hoje. Mesmo quando a padaria ia fechando por falta de clientes.

Todo mundo sabe que jornaleiro, trocador de ônibus e taxista são as três pessoas mais indicadas para prestar informações sobre as ruas. Ah sim, e os carteiros, mas eles a gente vê com menos frequência. É parte da profissão: o jornaleiro sendo um expert nas redondezas, o trocador sendo um conhecedor do trajeto de seu ônibus e o taxista, o bom taxista, tendo um mapa da cidade toda na cabeça. Esse “domínio de informações geográficas” deveria ser motivo de orgulho desses profissionais e tenho certeza que, quando as prestam com gentileza, eles saem ganhando a simpatia de um futuro cliente.

Mas eis que hoje leio na “Folha”, em matéria do Leandro Machado, que um jornaleiro do bairro Água Branca, em São Paulo, resolveu cobrar R$ 8 para dar esse tipo de informação! Uma inflação absurda, porque, em um mês, passou a cifra de R$ 2 para R$ 8. Diz que é pra evitar amolação, porque “virou vício” pedir informação a jornaleiro. Ora, mas que amolação ele evita? Comparem os dois diálogos abaixo:

DIÁLOGO 1

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Sim, é só virar a primeira à esquerda.

— Muito obrigada! E quanto tá o chocolate? Mê vê dois, por favor.

DIÁLOGO 2

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Custa R$ 8 a informação. Tá na placa aí fora.

— O quê? R$ 8 pra dizer o nome de uma rua? O sr. tá brincando?!

— Não. Tá na placa.

— Não vou pagar! Que absurdo!

— Então não sei onde fica a rua.

— Vai tomar no %$#¨%$, seu mal-humorado! Sovina! Nunca mais compro nada nessa banca!

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na "Folha" de 29.7.2013

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na “Folha” de 29.7.2013

Enfim, acho que os diálogos se aproximam da realidade e mostram que a amolação, provavelmente, triplicou. Como diz uma colega: “RIP Gentileza” (“Descanse em paz”). O que o “Palmeirense” ganha com essa atitude? Certamente, não deve ter ganhado R$ 8 de ninguém. Mas sim uma antipatia generalizada de quem precisava genuinamente de informação e pensava poder contar com ela a partir de uma pessoa que está fixa no bairro há anos. Quem sabe virar cliente dessa pessoa.

Eu já tinha notado essa má vontade algumas vezes lá em São Paulo. Na avenida Paulista mesmo, às vezes me desnorteava sobre qual era a estação seguinte e perguntava na banca: a Trianon está pra lá ou pra cá? Sempre com cuidado pra ver se o jornaleiro estava ocupado atendendo alguém na hora ou não. Bastava o cara apontar um dedinho pra um dos dois lados, mas, não raro, ele respondia, rabugento: “Não sei!” Ora, como não sabe? Que má vontade! E eu desistia na hora de fazer uma das coisas que eu mais gostava na vida, graças à banca da Creusa: ficar por ali mais uns minutinhos, olhando as revistas, e escolher umas duas pra levar.

Enfim, na minha opinião, a falta de gentileza faz todo mundo perder. Não só quem leva a patada, mas, muito mais, quem a desfere. E o mundo vai ficando cada vez mais cinza na Terra Cinza…

A casa dos meus sonhos

(Foto: CMC)

Nesta noite tive um longo sonho em que eu estava procurando um apartamento novo para morar e, feliz da vida, encontrei um com ganchos de rede já na parede, como é comum nos apartamentos do Nordeste (feliz daquele povo).

Como me junto àqueles que não têm cacife pra pagar o próprio apê, e não acho certo sair furando buracões nas paredes de apartamentos alheios, tenho que me contentar, por enquanto, com os sonhos.

E eu estava aqui, feliz da vida, deitada na cama esperando a preguiça passar (antes de lavar e passar roupa, faxinar a casa e fazer outras coisas nada convenientes para este sabadão de sol), imaginando como seria minha casa dos sonhos. Aquela que a gente compra quando ganha na Mega Sena.

Pra começo de conversa, seria uma casa. Nunca morei em casa na vida, mas apartamento, com raras exceções, traz muita amolação. Vai desde vizinho maluco até o que é só chato mesmo. Tem inclusive o que ouve barulhos imaginários às 3h da madrugada.

Minha casa teria redes, muitas redes pra deitar nos sábados de sol. E muitas plantas, dentro e fora. Um quintalzinho com jardim, de preferência com uma churrasqueira e o freezer razoável, pra receber os amigos.

Se fosse apartamento, vá lá, mas que tivesse pelo menos uma varadinha com vista agradável, com a rede, com banquinhos, que coubesse pelo menos os quatro amigos mais chegados, para aquela cervejinha de domingo.

Além da rede, um pufe gigante (este eu já tenho, rá!), qualquer coisa que convidasse as pessoas a se esparramarem, a se sentirem em casa, que tornasse ainda mais agradável o filme alugado na locadora (ainda tem gente que faz isso, além de mim?), o futebolzinho das 16h.

E, de preferência, que o imóvel estivesse encravado num bairro com gente, com pessoas que andam a pé pelas ruas, com árvores, com cara de bairro.

E é só isso. Não me importa muito o tamanho, a garagem (nem tenho carro e me pergunto se um dia voltarei a ter), o preço, a cafeteira de última geração da Nespresso, a adega com capacidade para 24 garrafas, a TV de plasma com 500 polegadas etc.

O importante é que minha casinha, quando eu a tiver, seja palco de muitas alegrias. Me faça me sentir em casa.