Ei, aquele apartamento era meu!

A vista, cheia de árvores e passarinhos. (Foto: CMC)

A vista, cheia de árvores e passarinhos. (Foto: CMC)

Uma amiga está procurando por um apartamento para morar em Belo Horizonte. Entrou no site de anúncios de aluguel de imóveis. Colocou as características. Preço mais baixo possível, bairros tais, um quarto, não precisa de garagem mesmo. Apareceram algumas opções. Ela abriu uma delas e, opa, viu meu antigo apê!

Mandou para mim. Comecei a navegar pelas fotos de cômodos pelados. Mesmo sem meus móveis, que davam a cara para o lugar, puxa vida, aquele apartamento ainda é o meu!

Bateu uma dorzinha no peito. Não, não sinto saudades de lá. O clima era meio pesado, alguns dos vizinhos eram neuróticos (falei disso AQUI e, sim, já alertei a amiga). Além do mais, estou adorando meu apezim atual. Mas, ao mesmo tempo, bateu uma nostalgia danada das histórias que vivi lá. Dos amigos que recebi, apertados, e tiveram até que se sentar no chão da sala para caber. Da família indo almoçar uma frangoada lá, também apertada na mesa. Do amor que floresceu naquele quadradinho e criou uma comunicação toda única, feita de assobios pela janela e respostas, também assobiadas, da rua, poucos andares abaixo. Da vista da janela, inundada de árvores frondosas cheias de passarinhos, que alegravam todas as minhas manhãs. (Fiz muitos frilas e muitos posts para este blog no computador diante desta janela, que me fazia descansar a vista de vez em quando, para admirar os galhos cheios de folhas verdinhas.) De ver todos os jogos do Galo na Libertadores, até a vitória sofrida. Dos churrascos nas tardes de domingo, porque não é preciso ter espaço para ter churrasco em casa:

Churrasqueira de panela, uma das melhores aquisições da minha vida, que uso quase todo dia :)

Churrasqueira de panela, uma das melhores aquisições da minha vida, que uso quase todo dia 🙂

Ver aqueles cômodos vazios sendo oferecidos a qualquer um, assim, na internet, me deu uma tristeza danada. Quem vai morar lá, será que vai fazer jus ao que aquele apartamento merece? Ou será uma pessoa ruim, sem atenção, que vai descuidar de tudo o que cuidamos com tanto carinho, consertando os pequenos problemas que precisaram de reparo ao longo desses meses? Quem vai morar lá? Será que vai parar para admirar a vista da janela, cheia de árvores e passarinhos? Será que vai assobiar para o amor, chegando na rua, para ele perceber que está seguro e tem gente em casa? Vai pôr quadros alegres e coloridos nas paredes, vai comprar vasos de flores para embelezar o lar?

Eu preferia não ter visto meu — sim, meu — apezim sendo oferecido assim, tão vulgar e tão abandonado, no anúncio de internet. Queria ter deixado ele em segurança, com algum amigo que estivesse em busca de um canto pra se esconder da cidade. Alguém que pudesse dar vida de novo àquele esqueleto, sem se incomodar com os fantasmas do prédio, porque um apartamento é um lugar que, embora faça parte da mesma estrutura, tem personalidade totalmente independente das outras unidades de um edifício.

Ei, amiga, se for alugar meu apartamento, vê se vive bem feliz nele, viu?

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Cada prédio tem um estado de espírito

"Ciudad y Abismos", tela de Xul Solar.

“Ciudad y Abismos”, tela de Xul Solar.

Nos últimos seis anos, tive que morar em sete lugares diferentes. E uma coisa eu aprendi, nesse período de mudanças constantes (fora a constatação óbvia de que o processo de mudança é uma trabalheira sem fim!): cada prédio tem um estado de espírito particular. É claro que esse estado de espírito reflete o perfil dos moradores, mas também em especial o do síndico, o da administradora de condomínios e os das regras vigentes.

Existem aqueles prédios que apenas seguem a legislação do país e da cidade, que já conta com as restrições básicas de silêncio em determinados horários, coleta de lixo etc. E existem aqueles prédios que impõem milhões de pequenas normas, que tentam se sobrepôr à legislação e que tornam a vida de todos um inferno.

Num prédio, a síndica é tão megera que obriga os moradores que acabaram de se mudar a “não deixar caixas no vão em frente ao apartamento” — ou serão multados, ameaça ela. Ora, todo mundo sabe que, durante uma mudança, é normal que algumas caixas fiquem sobrando, ainda mais bem na porta da unidade, até que todos os móveis entrem etc.

Teve um apartamento em que morei, o último, que proíbe qualquer barulho “de reforma” após as 17h e aos fins de semana. Não importa se a lei do silêncio prevê o fim dos barulhos às 22h. Eu cheguei lá numa sexta e, no sábado, agendei a visita do técnico da NET para instalar o cabo da internet. Não é reforma, pensei. Mas o cara teve que botar quatro preguinhos, desses minúsculos, só pra firmar o fio branco na parede, sabem? Levaria bem uns dois minutos para bater esses preguinhos. Só que, na segunda martelada, tocou a campainha do apartamento e a síndica avisou: não pode ter “reforma” aos sábados.

No apartamento anterior, a mesma coisa. Aproveitei a visita dos pais no sábado para pedir ajuda ao meu pai para pregar os quadros na parede. Ele levaria no máximo cinco minutos para bater uns pregos e pôr as telas. Mas, na primeira martelada, tocou o interfone e o porteiro avisou: prego aos sábados não pode.

fiz uma matéria sobre um prédio que começou a multar os moradores que gritassem palavrões (por exemplo, naqueles clássicos “CHUUUUPA, TIME X!” após um gol importante do campeonato, ou numa inocente pelada na quadra do condomínio, onde acabam surgindo esporádicos xingamentos). Um morador chegou a levar R$ 600 como penalidade. A desculpa para a restrição era, como sempre, “proteger as crianças” do prédio. Daí fui entrevistar uma professora de educação infantil da USP. Ela, como eu, achou um baita exagero. “É um exagero de cuidado e de controle. A gente não pode impedir que essas coisas todas façam parte do cotidiano das crianças, porque elas ouvem palavrão em casa, na TV, em todo lugar. A gente não tem controle, quer faça mal ou não”, disse ela na reportagem.

Durante a apuração dessa matéria e de outras, descobri que há condomínios multando de casais que fazem barulho durante o sexo a pessoas que dão descarga durante a noite a mulheres que usam sapato de salto em casa. Outro dia uma mulher foi ameaçada de levar uma multa caso não carregasse o cachorro — que pesa uns 30 kg –, em vez de caminhar com ele pelo chão do condomínio. Com problemas na coluna, teve que recorrer à Justiça (e ganhou).

A neurose coletiva, e uma experiência pessoal me levaram a outra pauta: moradores que ouvem barulhos imaginários, geralmente vindos de um vizinho contra o qual têm alguma cisma ou preconceito em particular. Durante a apuração desta, descobri que um terço das queixas são de barulhos imaginários! Meu queixo caiu.

No último prédio onde morei, a primeira coisa que o visitante ou morador via ao entrar na portaria era um quadro de avisos com milhões de papéis: “não pode isso, não pode aquilo”. No prédio onde moro hoje, só existe um papelzinho, pequeno, que lista apenas os “telefones úteis”, como do gás, da luz, de encanador, pintor, faxineira…

Então, como eu ia dizendo, cada prédio tem seu estado de espírito. Há os prédios que mais parecem internatos, onde você anda em sua própria casa pisando em ovos, estressado para não incomodar o vizinho com a descarga. Há os prédios festivos, onde os vizinhos confraternizam nos aniversários e aproveitam até a desgastante reunião de condomínio para relaxar tomando uma cervejinha. Há os prédios tranquilos, onde as pessoas se respeitam sem muitas normas, mas deixam a vida dos outros em paz. Há também aqueles de clima tenso, onde você vê os moradores antigos aos cochichos pelos corredores, falando uns dos outros. Já morei num desses e, num dia em que descia a escada, ouvi a moradora falando pra outra: “Esta é a jornalista de que te falei…”. Oi? Falou o quê, minha senhora?

Quando você for alugar ou comprar um apartamento, não olhe apenas se o acabamento é bom, se o bairro é seguro, se os quartos comportam os móveis ou se tem elevador. Não olhe apenas se existem bares muito próximos infernizando a madrugada ou se a construtora seguiu as novas regras da ABNT. Procure, principalmente, captar o estado de espírito daquele prédio. Porque, pode ter certeza, ele será o quesito mais importante para sua felicidade e qualidade de vida nos próximos meses ou anos.

"Ciudad Lagui", tela de Xul Solar.

“Ciudad Lagui”, tela de Xul Solar.

O que resolveu a novela com o vizinho de baixo

Hoje eu estava relendo posts antigos e percebi que deixei uma lacuna para os leitores deste blog que acompanharam minha cruzada contra o vizinho de baixo.

Para relembrar, o vizinho primeiro interfonou uma vez, supostamente porque deixei o sofá-cama escorregar e cair com um barulho mais forte ao ser aberto, que durou um segundo.

Em outro dia, interfonou uma segunda vez quando eu estava deitada na cama, em silêncio absoluto, me acusando de estar fazendo muito barulho e ameaçando chamar a polícia.

Atendendo à sugestão de leitores do blog, tentei falar pessoalmente com ele, mas, como ele não me recebeu, falei pelo interfone, e imaginei ter resolvido a questão.

Só que não foi assim que resolvi, porque, passada uma semana daquele dia, o vizinho interfonou uma terceira vez, me acusando de estar arrastando móveis e fazendo uma barulheira quando eu estava novamente em silêncio absoluto!

Coloco aqui, tardiamente, o desfecho da história, para que sirva de exemplo a outras pessoas que estejam passando por algo semelhante com a vizinhança. O que resolveu definitivamente a questão foi eu ter escrito uma carta formal, com cópia para a administradora do condomínio e para o zelador, que é esta que segue abaixo:

“Caro sr. XXXXX,
Escrevo para tentar resolver mais uma vez esse problema que estamos tendo. Quero que o senhor entenda: eu moro sozinha e não fico arrastando móveis à meia-noite, que é a hora em que, se não estou já dormindo, estou me preparando para dormir. Portanto, se é que alguém possui esse hábito lá no prédio, esse alguém não sou eu.
Pensei que isso já tivesse ficado claro na última vez em que nos falamos, depois que o sr. ZELADOR me interfonou quando eu já estava deitada na minha cama, lendo um livro para pegar no sono. O senhor não quis me receber em seu apartamento para conversarmos, mas mesmo assim eu te interfonei e pensei ter mostrado ao senhor que é preciso averiguar bem a fonte dos ruídos que o senhor diz ouvir antes de sair interfonando para a casa dos outros, incomodando o sono alheio. Sim, porque eu até perco o sono depois de ser acusada de coisas tão injustas por três vezes seguidas e ameaçada de chamarem a polícia por minha causa.
Já disse ao senhor pelo interfone e repito agora: sou uma vizinha exemplar que, nas poucas horas em que fico em casa, ando sem salto alto, ouço televisão e rádio baixinho, e não tenho nem forças para produzir ruídos que possam atrapalhar o sono de alguém.
Mas mesmo tendo explicado tudo e conversado com o senhor, fui mais uma vez incomodada pelo senhor ZELADOR, sempre perguntando “O que está acontecendo aí?”, como se eu tivesse que explicar que estou deitada, lendo mensagens no celular, com a cabeça cheia de problemas e tristezas por razões pessoais, que não dizem respeito a ninguém. Será que meus pensamentos estão tão altos assim?
Assim sendo, envio esta carta como última tentativa de obter sossego e respeito do meu vizinho de baixo. Vou enviar uma cópia dela à administradora do condomínio e outra cópia ao sr. ZELADOR. Também pedirei a ele que nunca mais me interfone quando a solicitação partir do senhor – porque, até onde sei, não há nenhuma norma no prédio que permita ao zelador incomodar os vizinhos a pedido de outros vizinhos. O zelador tem que zelar pelo bem-estar e pelo sossego dos condôminos e tenho certeza que o sr. ZELADOR já percebeu que, pela terceira vez, ele foi forçado a atrapalhar meu sono injustamente.
Se mesmo assim o senhor continuar perturbando meu sossego, vou pedir à administradora que lhe envie uma notificação formal, seguida de multa, conforme está previsto no regimento do prédio.
Conto com sua colaboração para que nada disso seja necessário. A única coisa que quero é conviver em paz com meus vizinhos. Espero que o senhor queira o mesmo.
Cordialmente,
Cristina, do apto XXX”

Foi só depois desta carta que parei de ser amolada. E desde então, nunca mais fui. Por isso, fica a dica. Não é com todos que o “diálogo” funciona 😉