A confraria dos míopes tem mais poesia

Põe os óculos. O mundo é certinho, cada coisa no lugar, como deve ser para a maioria das pessoas. Tira os óculos, e volta a ser uma obra de arte, com técnicas de borrão expressionista.

Descobri que eu era míope lá pelos 14 anos. Nem sentando nas primeiras carteiras da sala de aula eu conseguia enxergar direito o que era escrito pelo professor no quadro-negro. Se não me engano, só fui ter meu primeiro óculos receitado aos 15, e eu já estava com dois graus de miopia.

Mas eu só queria saber do mundo da obra de arte, o dos borrões e luzinhas e coisas misteriosas. Aquilo é um pássaro ou um avião? Poderia ser um disco voador, e eu jamais saberia.

Comecei na faculdade, mas eram aquelas aulas mais teóricas que tudo, e eu só precisava ficar sentada, ouvindo o que o professor dizia e, geralmente fazendo uns rabiscos no caderno, que, na época, era bom pra aguçar a concentração. Pra que óculos? Deixava quase sempre guardados na bolsa, só tirando pra usar no cinema.

Foi quando comecei a dirigir, na mesma época em que comecei a trabalhar com carteira assinada. E até para enxergar a tela do computador, a uma distância de 50 centímetros do meu rosto, era difícil. Ainda mais aquela tela preta com letras verdes, do SisBB (o sistema do Banco do Brasil, onde comecei a trabalhar aos 19 anos). Mas jamais teria coragem de fazer aquela operação a laser, pelo simples fato de eu ter um pânico secreto de ficar cega algum dia e por conhecer alguém, pessoalmente, amiga minha, que foi prejudicada por essa operação.

E assim fui resignando-me à condição de míope. Como detestava ter um artefato pendurado no rosto, mais pelo incômodo que pela feiura propriamente dita, optei, no começo, pelas lentes de contato. Perdi rapidinho aquele medo de colocar a mão no globo ocular etc. Mas não resisti nem um ano com a lente: meu olho logo desenvolveu uma alergia a ela, e eu já não conseguia ficar nem uma hora com aquela gelatina sem ter vontade de arrancar os olhos a unhadas.

OK, eu me rendo. Comecei a usar mesmo meus óculos, sempre preferindo os menores e mais invisíveis possíveis. Enquanto todos queriam os aros grossos ou, anos mais tarde, aqueles aros gigantes à moda Janis Joplin, eu sempre quis as hastes fininhas, levíssimas, aqueles que me fizessem esquecer que eu tinha algo pendurado na cara. Eram um custo de achar nas óticas modernas, sempre ansiosas por agradar aos adeptos da moda em vigor.

Hoje, 28 anos de idade — metade da vida com miopia diagnosticada e pelo menos nove anos de uso contínuo de corretores de visão –, estou num tal grau de dependência que, antes de dormir, deixo os óculos no criado-mudo e eles são a primeira coisa que busco ao acordar. Já acumulo mais de três graus em cada olho e não estou mais disposta a andar na rua tateando a paisagem com o olhar, buscando desesperadamente entender seu significado. Quero ver o mundo como ele é, sem muitos riscos e perigos, e só dou uma pausa para minha realidade quando estou almoçando, e descanso os óculos ao lado do prato. (Mesmo assim, quando preciso achar o saleiro, os coloco de novo, no automatismo.)

O lado ruim é que perco um pouco da poesia que só os Miguilins possuem. Mas não totalmente. Ainda tem uma hora do dia, que chamo de hora mágica e os outros chamam de lusco-fusco, que é a “pior” para os míopes. Mesmo de óculos, nessa hora crepuscular eu enxergo com muito mais dificuldade (o que significa que, se estiver dirigindo nessa hora — o que evito — posso ser um perigo para a humanidade). E ainda tenho alguma dificuldade de identificar as pessoas num primeiro olhar, quando ando na rua (o que me deixa meio mal-educada de vez em quando). Acho mesmo que conservo um pouco do ar apatetado que só os míopes têm, meio sonhadores, como se enxergassem uma quarta dimensão — aquela tela de pintura. Nunca deixamos totalmente a confraria que nos une — exceto os que traem o grupo e apelam para a cirurgia.

E uma das explicações para isso talvez seja o fato de ainda conservarmos uma moldura eternamente míope, não importa quão larga seja nossa lente. Foi o que descobriram os artistas Jamie Beck e Kevin Burg, com as lindas imagens de cinemagrafia que encontrei no site Tudo Interessante. Eles acharam um bom jeito de retratar a poesia da visão dos míopes de tal forma que até os outros, os danados que tudo enxergam, possam entender. Vejam só o que estão perdendo:

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Ei, aquele apartamento era meu!

A vista, cheia de árvores e passarinhos. (Foto: CMC)

A vista, cheia de árvores e passarinhos. (Foto: CMC)

Uma amiga está procurando por um apartamento para morar em Belo Horizonte. Entrou no site de anúncios de aluguel de imóveis. Colocou as características. Preço mais baixo possível, bairros tais, um quarto, não precisa de garagem mesmo. Apareceram algumas opções. Ela abriu uma delas e, opa, viu meu antigo apê!

Mandou para mim. Comecei a navegar pelas fotos de cômodos pelados. Mesmo sem meus móveis, que davam a cara para o lugar, puxa vida, aquele apartamento ainda é o meu!

Bateu uma dorzinha no peito. Não, não sinto saudades de lá. O clima era meio pesado, alguns dos vizinhos eram neuróticos (falei disso AQUI e, sim, já alertei a amiga). Além do mais, estou adorando meu apezim atual. Mas, ao mesmo tempo, bateu uma nostalgia danada das histórias que vivi lá. Dos amigos que recebi, apertados, e tiveram até que se sentar no chão da sala para caber. Da família indo almoçar uma frangoada lá, também apertada na mesa. Do amor que floresceu naquele quadradinho e criou uma comunicação toda única, feita de assobios pela janela e respostas, também assobiadas, da rua, poucos andares abaixo. Da vista da janela, inundada de árvores frondosas cheias de passarinhos, que alegravam todas as minhas manhãs. (Fiz muitos frilas e muitos posts para este blog no computador diante desta janela, que me fazia descansar a vista de vez em quando, para admirar os galhos cheios de folhas verdinhas.) De ver todos os jogos do Galo na Libertadores, até a vitória sofrida. Dos churrascos nas tardes de domingo, porque não é preciso ter espaço para ter churrasco em casa:

Churrasqueira de panela, uma das melhores aquisições da minha vida, que uso quase todo dia :)

Churrasqueira de panela, uma das melhores aquisições da minha vida, que uso quase todo dia 🙂

Ver aqueles cômodos vazios sendo oferecidos a qualquer um, assim, na internet, me deu uma tristeza danada. Quem vai morar lá, será que vai fazer jus ao que aquele apartamento merece? Ou será uma pessoa ruim, sem atenção, que vai descuidar de tudo o que cuidamos com tanto carinho, consertando os pequenos problemas que precisaram de reparo ao longo desses meses? Quem vai morar lá? Será que vai parar para admirar a vista da janela, cheia de árvores e passarinhos? Será que vai assobiar para o amor, chegando na rua, para ele perceber que está seguro e tem gente em casa? Vai pôr quadros alegres e coloridos nas paredes, vai comprar vasos de flores para embelezar o lar?

Eu preferia não ter visto meu — sim, meu — apezim sendo oferecido assim, tão vulgar e tão abandonado, no anúncio de internet. Queria ter deixado ele em segurança, com algum amigo que estivesse em busca de um canto pra se esconder da cidade. Alguém que pudesse dar vida de novo àquele esqueleto, sem se incomodar com os fantasmas do prédio, porque um apartamento é um lugar que, embora faça parte da mesma estrutura, tem personalidade totalmente independente das outras unidades de um edifício.

Ei, amiga, se for alugar meu apartamento, vê se vive bem feliz nele, viu?