Plebiscito pra quê?

Esse foi o único cartaz que eu vi nas manifestações falando de plebiscito -- e não era a favor... (Foto: Tribuna da Bahia, 2.7.2013)

Esse foi o único cartaz que eu vi nas manifestações falando de plebiscito — e não era a favor… (Foto: Tribuna da Bahia, 2.7.2013)

Quanto mais eu leio e penso a respeito, mais acho besteira essa ideia do plebiscito (embora, à primeira vista, eu tenha comemorado).

É meio bilhão para que o povo se debruce sobre temas que já estão contemplados em projetos que tramitam no Congresso (tanto que ontem, um dos pontos — o fim do voto secreto — já foi votado em comissão do Senado, dispensando, se for aprovado em plenário, a necessidade de ir a plebiscito).

E nem é garantia de que o Congresso vá votar como foi definido em plebiscito.

Além disso, não estão previstas entre as perguntas questões importantes, como o fim da reeleição, que é demandado por parcela da população (eu entre essa parcela) há anos. Jânio de Freitas lembra de outras essenciais AQUI.

E qual o nível de familiaridade que as pessoas têm com assuntos como o “distritão”, o voto proporcional com lista fechada ou flexível, o voto distrital e o distrital misto?

A única vantagem do plebiscito seria, como foi com o referendo do desarmamento, o incrível potencial que ele tem de levantar discussões políticas saudáveis entre a população, aumentar o esclarecimento sobre alternativas do sistema político, ajudar a conscientizar politicamente um pouco mais um povo que geralmente é analfabeto político. Boa parte das pessoas teria que correr atrás de entender o que são os pontos levantados pelo plebiscito para formarem opinião. Mas nem todas farão isso. E, afinal, meio bilhão pra isso não seria demais? As manifestações, que tampouco saíram de graça, já contribuíram enormemente com o mesmo fim.

A ideia da Constituinte própria para a reforma política já se mostrou equivocada, inclusive porque, segundo ministros do STF, inconstitucional. Dilma recuou. Agora, que nem a base aliada está apoiando o plebiscito para mudanças que já valham para 2014, será que não vale a pena recuar também?

Não era plebiscito que “o povo nas ruas” pedia, de todo modo. Não ouvi esse grito, alguém ouviu? Pelo contrário, o que sempre foi pedido foi menor desperdício do dinheiro público e que esse dinheiro fosse melhor usado para oferecer os serviços básicos de que uma população precisa, como saúde e educação. Que as pessoas que trabalham até maio, todo ano, apenas para pagar os impostos mais altos do mundo pudessem ver um retorno para essa facada anual e diária. Medidas como o enxugamento da máquina estatal (o governo federal já tem 39 ministérios, com um criado recentemente, só pra alojar cabos eleitorais. O mesmo ocorre com secretarias de Estado e municipais inchadíssimas) seriam muito mais eficazes contra esse desperdício. O povo pediu mais moralidade. Que um parlamentar que usa avião da FAB para ir a jogo de futebol ou a casamento não apenas devolvesse (parte do) dinheiro público gasto, mas fizesse como em outros países mais sérios: pedisse o chapéu.

Se nem o desperdício é combatido, nem melhores serviços são prometidos e nem a moralidade é resgatada, pra que plebiscito? Ele não contempla a voz das ruas. Sorte dos políticos que essa voz já ficou rouca e voltou pra casa, cabisbaixa.

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