A banca da Creusa e a informação inflacionada

Quando eu era criança, ao longo de vários anos, ia passear com a Kika (meu apelido surgiu dessa minha querida vira-lata) até a padaria, para comprar pão, e depois ficava no mínimo uns 30 minutos batendo papo com a Creusa, dona da banca de revistas em frente. Fiz amizade com vários vizinhos ali na banca, troquei figurinhas de álbuns — compradas na banca da Creusa — com outras crianças, e foi ali mesmo, na frente da banca, que consegui meu primeiro “emprego fixo”, para dar aulas particulares à filha de uma moradora da região.

A Creusa era amiga de todos do bairro e sempre prestava informações a todos que pediam. Não é à toa que fazia tão boas vendas, porque ir-até-a-banca-da-Creusa já era quase que um programa por si só, e não só um acidente de percurso, uma passagem até a padaria. E a Creusa continua firme e forte no mesmo ponto, até hoje. Mesmo quando a padaria ia fechando por falta de clientes.

Todo mundo sabe que jornaleiro, trocador de ônibus e taxista são as três pessoas mais indicadas para prestar informações sobre as ruas. Ah sim, e os carteiros, mas eles a gente vê com menos frequência. É parte da profissão: o jornaleiro sendo um expert nas redondezas, o trocador sendo um conhecedor do trajeto de seu ônibus e o taxista, o bom taxista, tendo um mapa da cidade toda na cabeça. Esse “domínio de informações geográficas” deveria ser motivo de orgulho desses profissionais e tenho certeza que, quando as prestam com gentileza, eles saem ganhando a simpatia de um futuro cliente.

Mas eis que hoje leio na “Folha”, em matéria do Leandro Machado, que um jornaleiro do bairro Água Branca, em São Paulo, resolveu cobrar R$ 8 para dar esse tipo de informação! Uma inflação absurda, porque, em um mês, passou a cifra de R$ 2 para R$ 8. Diz que é pra evitar amolação, porque “virou vício” pedir informação a jornaleiro. Ora, mas que amolação ele evita? Comparem os dois diálogos abaixo:

DIÁLOGO 1

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Sim, é só virar a primeira à esquerda.

— Muito obrigada! E quanto tá o chocolate? Mê vê dois, por favor.

DIÁLOGO 2

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Custa R$ 8 a informação. Tá na placa aí fora.

— O quê? R$ 8 pra dizer o nome de uma rua? O sr. tá brincando?!

— Não. Tá na placa.

— Não vou pagar! Que absurdo!

— Então não sei onde fica a rua.

— Vai tomar no %$#¨%$, seu mal-humorado! Sovina! Nunca mais compro nada nessa banca!

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na "Folha" de 29.7.2013

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na “Folha” de 29.7.2013

Enfim, acho que os diálogos se aproximam da realidade e mostram que a amolação, provavelmente, triplicou. Como diz uma colega: “RIP Gentileza” (“Descanse em paz”). O que o “Palmeirense” ganha com essa atitude? Certamente, não deve ter ganhado R$ 8 de ninguém. Mas sim uma antipatia generalizada de quem precisava genuinamente de informação e pensava poder contar com ela a partir de uma pessoa que está fixa no bairro há anos. Quem sabe virar cliente dessa pessoa.

Eu já tinha notado essa má vontade algumas vezes lá em São Paulo. Na avenida Paulista mesmo, às vezes me desnorteava sobre qual era a estação seguinte e perguntava na banca: a Trianon está pra lá ou pra cá? Sempre com cuidado pra ver se o jornaleiro estava ocupado atendendo alguém na hora ou não. Bastava o cara apontar um dedinho pra um dos dois lados, mas, não raro, ele respondia, rabugento: “Não sei!” Ora, como não sabe? Que má vontade! E eu desistia na hora de fazer uma das coisas que eu mais gostava na vida, graças à banca da Creusa: ficar por ali mais uns minutinhos, olhando as revistas, e escolher umas duas pra levar.

Enfim, na minha opinião, a falta de gentileza faz todo mundo perder. Não só quem leva a patada, mas, muito mais, quem a desfere. E o mundo vai ficando cada vez mais cinza na Terra Cinza…

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