Belo Monte e o precedente de Furnas

texto de José de Souza Castro:

Parece que caiu no vazio o pedido da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para que o governo suspenda imediatamente as obras da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, até que os índios que serão afetados sejam ouvidos. Dilma Rousseff tem um precedente histórico para ignorar o pedido: Furnas Centrais Elétricas.

Em 1958, a Federação da Agricultura de Minas encaminhou ao presidente Juscelino Kubitschek documento pedindo, não que fosse paralisada a obra da primeira usina de Furnas Centrais Elétricas, mas para que as famílias de fazendeiros que teriam suas terras inundadas – aproximadamente 400 – recebessem indenização justa. JK não se deu ao trabalho de responder e as obras foram em frente. Deixou para depois o problema das indenizações.

O lago de Furnas foi formado no começo da década de 60. Em 1963, já estavam submersas uma cidade inteira – Guapé –, aldeias indígenas e fazendas centenárias, sob uma lâmina d’água de 1.457 km². É ainda hoje o maior lago artificial do mundo, construído em terras agricultáveis de 34 municípios mineiros, por ordem de um presidente mineiro.

O lago garante o funcionamento de uma usina com capacidade instalada para 1.216 MW de energia, ou 11 vezes menos que a Binacional Itaipu.

Em comparação, Belo Monte, um projeto da Eletrobrás, terá capacidade para 11.233 MW – será a terceira maior do mundo – com um reservatório de 516 km², ou quase um terço de Furnas. E ocupando terras de apenas cinco municípios do Pará, um estado politicamente mais fraco do que Minas Gerais há 50 anos.

O consórcio que vai construir Belo Monte é formado por empresas com grande poder de fogo: Centrais Elétricas do São Francisco (Chesf), Queiroz Galvão, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Serveng-Civilsan, J. Malucelli, Contern Construções, Cetenco Engenharia e Gaia Energia e Participações.

Diante desses dados, não resta dúvida de que o apelo da OEA cairá no vazio. Os jornais de hoje já esqueceram o assunto levantado na véspera.

Só nos resta lamentar o destino dos indígenas do Xingu que terão que deixar suas terras. E esperar que a compensação para eles seja mais justa do que a recebida pelos agricultores mineiros atingidos pelo lago de Furnas.

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