Não nos acostumemos mais!

Excelente foto de Joel Silva, publicada na Folha de 26/02/2009, tirada na estação da Sé.

Ontem levei minha família — mãe, irmã e cunhado –, de Minas, para conhecer alguns pontos turísticos de São Paulo, na região do centro.

Na Duque de Caxias, em direção à Cracolând… ops, à Santa Ifigênia, passamos por dezenas de moradores de rua, dormindo no cimento da calçada, sob o sol das 9h30. Eles se espantaram. Em Beagá há, sim, alguns moradores de rua, mas não os 13.000 de São Paulo, que geralmente vivem no centro.

Percebi que, mesmo sem querer, mesmo me obrigando a pensar sobre isso sempre, meu espanto dos primeiros meses de São Paulo diminuiu consideravelmente. Sem me dar conta, eu me acostumei a essa realidade dos mendigos.

Seguimos pela imensidão de lojas de eletrônicos que não pagam impostos, passamos depois pelo largo de São Bento e, diante da degradação do centro, minha irmã deixou escapar: “Nossa, eu nunca quero morar em São Paulo!”

Como morei bem ali por alguns meses, logo que cheguei, há três anos, o mictório a céu aberto que algumas ruas se tornaram não me choca mais tanto.

Caímos na 25 de Março, alcançamos o Mercadão, terminamos tudo na Liberdade. Dali, às 15h30, fomos pegar o metrô. E ele estava cheio, mas o cheio possível numa sexta às 15h30. Ou seja, absolutamente vazio para quem já viu como ele fica nos horários de pico da manhã e da noite.

Eles preferiram esperar por três trens antes de se enfiar na sardinha e, lá dentro, ficaram brincando: “Nossa, nem precisamos segurar, porque está tão cheio que não dá pra cair.” E eu olhava ao redor e pensava: “Mas até que está tranquilo. Tem dia que é difícil respirar aqui dentro.”

Quer dizer: eu tinha me acostumado ao inferno e, por isso, aquela lata de sardinha ainda parecia muito razoável.

Por que nos acostumamos com as coisas ruins? Por que não conservamos nosso olhar puro, dos que não são obrigados a viver o caos e não acham que há normalidade no caos? Se conservássemos esse olhar virgem, talvez nos oporíamos com mais vigor aos problemas urbanos que, em uma cidade do tamanho de São Paulo, são mesmo proporcionalmente muito maiores. Talvez cobraríamos mais eficientemente das autoridades ou não reelegeríamos os políticos que não fizeram nada para melhorar a qualidade de vida de todos, os ricos e pobres que dividem o mesmo teto cinza.

Povo que vive na Terra Cinza, paulistanos, paulistas e forasteiros: não nos acostumemos mais!

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