Contra a tortura do soldado Manning

texto de José de Souza Castro:

Os primeiros 100 dias do governo Dilma foram lembrados hoje pela imprensa. Em geral, os comentários foram positivos. A Folha de S. Paulo, que não pode ser acusada de governista, diz em editorial que o novo governo abandonou “a atitude seletiva para com valores internacionais, tais como os direitos humanos, que nos aproximava de regimes autocráticos e gerava desnecessário atrito com os países desenvolvidos” que precisam ser confrontados em torno de “contenciosos concretos, que não faltam”. Não deu qualquer exemplo, o que me permito fazer aqui.

Há mais de dez meses se encontra preso numa base da Marinha nos Estados Unidos o soldado Bradley Manning, acusado de passar informações sigilosas ao WikiLeaks. Está preso sob tortura, segundo PJ Crowley, porta-voz do Departamento de Estado, que renunciou logo após fazer a denúncia, no mês passado, durante seminário no MIT (Massachusetts Institute of Technology). “O que o Departamento da Defesa está fazendo a Bradley Manning é ridículo, contraproducente e estúpido”, classificou Crowley.

O presidente Barack Obama não podia mais fugir ao tema, como vinha fazendo, e saiu pela tangente: disse que havia sido informado pelo Pentágono de que os procedimentos eram “apropriados”.

Um procedimento de forma alguma apropriado, porém, para um presidente que chegou à Casa Branca dizendo que um dos objetivos principais de seu governo seria recuperar a imagem global dos EUA. Na época, Obama considerava o tratamento degradante que o governo Bush dava aos prisioneiros como uma ação contrária aos interesses nacionais dos EUA.

Em artigo publicado pelo jornal britânico Guardian, há um mês, Daniel Ellsberg, o analista militar que em 1971 tornou públicos os “Pentagon Papers” (estudo altamente secreto do Departamento de Defesa sobre a Guerra do Vietname), ironizou a declaração do presidente dos Estados Unidos:

“Se Obama acredita nisso, acreditará em qualquer coisa. Seria de esperar que fizesse mais e melhor do que perguntar aos criminosos se estão agindo como devem agir. Posso até ouvir a voz do presidente Nixon, dizendo à imprensa: “Os empregados da manutenção dos encanamentos da Casa Branca que assaltaram o escritório do Dr. Daniel Ellsberg em Los Angeles informaram-me que seus atos são apropriados e conforme nossos padrões básicos.”’

Como se sabe, Nixon acabou renunciando. Mas os tempos são outros, e nem Ellsberg espera que Obama renuncie por causa de torturas de um soldado num quartel dos Estados Unidos. No entanto, ele aponta um caminho a ser seguido pelo presidente:

“Mas, se o presidente Obama realmente desconhece as reais condições da prisão de Manning – se realmente acredita, como disse, que “parte dos procedimentos adotados [ser mantido nu, em isolamento, impedido de dormir, sob iluminação direta e sob vigilância de câmeras 24 horas por dia] têm a ver com preservar a integridade física do prisioneiro”, apesar do laudo do psicólogo da prisão, que diz exatamente o contrário –, então, estão mentindo ao presidente, e é preciso que o presidente retome as rédeas do próprio governo.”

Duvido que o caso tenha sido discutido durante a recente visita de Obama ao Brasil, embora alguns ingênuos esperem que Dilma Rousseff discuta direitos humanos durante sua próxima visita à China.

Enquanto nada disso acontece, a Avaaz.org, uma rede de ativistas para mobilização social global através da Internet, criada em 2007, está recolhendo assinaturas em petição a ser enviada a Obama, pedindo o fim da tortura de Manning e a observação da lei. Quem quiser assinar, pode fazê-lo aqui: https://secure.avaaz.org/po/bradley_manning/?vl

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