Motim no ônibus

Detalhes destacados. (Fotos: CMC)

A viagem de ida já era um anúncio do que estava por vir. Um homem não parava de reclamar com o motorista que aquele ônibus não era executivo coisíssima nenhuma, era convencional, pois ele sabia bem a diferença entre os dois, não tinham nem água!, o banheiro era um lixo, os bancos eram apertados demais, cadê o descanso para os pés?, e assim foi.

Uma ou duas pessoas fez eco, mas a coisa ficou por aí. Alguém deve ter ligado para a ouvidoria da ANTT (0800-61-0300), porque, ao chegar em Beagá, um fiscal da agência estava lá. “É um executivo velho, mas é executivo, não posso fazer nada”, me disse ele.

Mas na volta para São Paulo não teve conversa de fiscal da ANTT, não teve conciliação com o motorista, nada disso.

O que houve foi um motim.

Já na rodoviária de Beagá um grupo de algumas senhoras falava bravo com o motorista. As mesmas reclamações que ouvi na ida (o ônibus era idêntico, o tal “executivo velho”), mas mais enérgicas e, diria, até escandalosas.

Mas desta vez era um grupo de pessoas aparentemente da mesma família, formando um coro de pelo menos dez vozes em protesto. “O banheiro está trancado!” “Não tem água!” “Não tem descanso de pé!” “Isso não é executivo!” “A gente pagou por ele (R$ 89,90), não vamos receber em troca um lixo!” “Viajei esses anos todos de executivo, sei como é!” “Vim em outro muito melhor, pelo mesmo preço!”

O motorista só conseguiu partir quando prometeu que passaria na garagem da Cometa para buscar água.

Lá chegando, alguns minutos depois, o encarregado sugeriu ao motorista que o ônibus fosse trocado. A operação toda fez com que a viagem atrasasse uma hora. Saímos da garagem só às 21h22, quando a passagem estava marcada para 20h15. Deitados numa poltrona bem mais reclinável, com mais espaço para colocar as mãos e (suponho, porque não fui checar) com água lá no fundo, é verdade.

Multidão que desceu do ônibus na garagem da Cometa.

Poltronas apertadas do primeiro ônibus.

A troca do ônibus nr. 6243 pelo 7730.

Metade do ônibus parecia satisfeita, soltando ainda alguns resmungos pela vitória na rebelião, a outra metade parecia incomodada com o atraso, com o estresse provocado ao motorista, com o fato de o outro executivo não ser tão mais maravilhoso assim.

Eu não sei bem em que metade me colocava. Por um lado, acho fantástico quando essas “pequenas revoluções” acontecem (um dia postarei apenas sobre as pequenas revoluções), quando as pessoas se unem com um propósito comum, em vez de aguardar passivamente pelo fiscal, que geralmente nada vai fazer de concreto.

Por outro lado, essas pessoas que gostam de “clamar por seus direitos” geralmente o fazem da maneira mais intransigente, intolerante e absolutamente chata do universo. Não se importam em massacrar o pobre do motorista, que ainda tem oito horas de estrada pela frente e não tem culpa nenhum do ônibus que lhe foi entregue (“se nos entregam uma Kombi, tenho que ir com ela”, disse um deles). Também não se importam se uma maioria de passageiros preferia ficar sossegada ali e chegar logo em casa a ter que atrasar uma hora de viagem por causa de um encosto de pé. Olham para eles com desdém, discutem, dizem que não são bons brasileiros, porque assistem aos problemas com braços cruzados.

Enfim, o fato é que, não sei se por isso ou pelo turbilhão de pensamentos que vêm andando pela minha cabeça nos últimos dias, meus ânimos exaltados não relaxaram um minuto sequer da jornada e nem quando cheguei em casa. Valeu a pena derrubar o rei Cometa? (Minha alma pequena e insone não sabe o que responder.)

Leia também:
  1. Os prós e contras de viajar de busão e avião.
  2. Para viajar melhor de busão, cinco regras de adaptação.
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16 comentários sobre “Motim no ônibus

  1. Haha! Seu post me lembrou um texto que li ontem na Piauí, O popula exaltado

    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-55/tipos-brasileiros/o-popular-exaltado

    Às vezes me incomodo muito na passividade das pessoas ao meu redor quando vêem coisas erradas. Ao mesmo tempo, temos que ter moderação na hora de criticarmos, quem criticamos (às vezes o funcionário não tem culpa alguma e ele que acaba escutando nossa ia) e como criticamos.

    Já me exaltei além da conta (acho que não como no texto da Piauí, rs), mas acho importante essas manifestações.

    Dois exemplos. Certo dia estava num dos bancos da praça dos bancos da USP e uma professora da Escola de Comunicação e Artes dessa universidade começou a apontar alguns problemas (do banco e da universidade). Concordei com as críticas e falei, não necessariamente com essas palavras “Não adianta muito ficarmos só no resmungo, temos que nos manifestar. Veja como exemplo o jornal da universidade, há espaço para discussão dos problemas? Cadê o espírito crítico que deríamos fomentar por aqui?” A professora concordou comigo, mas desconfio que acabou não fazendo nada – não sei se percebeu se eu estava dando um indireta para ela também, assim como tinha em mente os mais de 5000 professores dessa instituição.

    Um contraste a esse caso, também ocorreu comigo num ônibus, em 2004. Estava num ônibus do transporte público de Palermo, Itália, quando começo a ouvir um motim de um grupo de velhinhos. Como não falo italiano, apesar de já estar há alguns meses no país, demorei uns minutos para entender qual era a reivindicação: estava muito quente e o ônibus não tinha ar-condicionado.

    Confesso que achei bonito ver aquilo, um grupo de velhinhos, todos juntos, gesticulando as mãos como um bom italiano, sobre algo que eu nunca cogitaria ver alguém reclamando por aqui.

    Não sei qual foi o tom das reclamações no seu caso, Cristina, mas para um povo habituado apenas a resmungar e não tomar atitude efetivas para resolver pequenos problemas, tendo a ver como algo positivo.

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  2. Bom, pelo menos foi uma experiência engraçada para seus leitores…
    E pelo menos você já está de volta!
    Acho que eu entraria no grupo das pessoas que ficam irritadas com o atraso, e não com o encosto de pé…

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  3. A briga mais difícil de conciliar é quando ambas as partes têm razão, cada qual com seus justos argumentos. Assim, nas greves, um grupo adere outro não à paralização; ambos com justos motivos para sua posição. assim também em todas as pequenas revoluções, e nas grandes também, como as revoltas árabes. Nessas horas – das revoluções – se necessário, surgem os mediadores, os conciliadores. Geralmente são líderes naturais, ditos ad hoc que, mesmo aderindo a um grupo, respeita a posição do grupo oposto, e conseguem manter certa ordem. Admiro estas pessoas.
    Abraços, Cristina, que bom que você chegou firme e forte e já postando notas muito interessantes.

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  4. Fiquei um tempão sem ler seu blog, mas não resisti a esse post sobre o ônibus. Passei por algo semelhante no domingo de Páscoa, mas o ônibus já chegou na rodoviária uns 40 minutos atrasado e o caos era tanto que ninguém quis brigar ou reclamar que não era lá o mais novo e confortável… Minha vontade era entrar logo e dormir. Nessas horas o descanso (ou a tentativa de descansar) é minha prioridade.
    Beijo e parabéns pelo blog, tá um sucesso!

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