Toy Story 5: leia minha resenha (com reflexões) e veja o trailer do filme

Imagem de divulgação do filme Toy Story 5
Imagem de divulgação do filme Toy Story 5

Vale ver nos cinemas: Toy Story 5
2026 | 1h42 de duração | Classificação: Livre | nota 9

Quando o primeiro Toy Story foi lançado, em 1995, eu tinha dez anos. Meu pai tinha comprado o primeiro computador da nossa família um ano antes, ainda sem acesso à internet (que tinha acabado de chegar ao Brasil, diga-se de passagem).

Eu gostava de desenhar no Paint e brincar de jogos do DOS como o Prehistorik 2, que foi lançado em 1993 (descobri que dá pra jogar ele AQUI) e a gente instalava no PC com um disquete. Celular ainda era uma coisa impensável na nossa família e muuuuito recente no mundo.

O segundo Toy Story veio em 1999, ano em que finalmente instalamos a internet em casa. Ela era discada e cada ligação custava uma fortuna, então a gente usava mais depois de uma certa hora da noite, quando o preço barateava, ou aos domingos, quando dava pra ficar online o tempo todo pagando só por uma ligação.

Mas a web era muito instável, vivia caindo. A gente usava mais para mandar email e, nos anos 2000/2001, passei a usar para treinar meu inglês no chat do Terra ou para conversar com as amigas da escola no ICQ. Meu jogo favorito da época era Carmen Sandiego, que eu tinha num CD-ROM.

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O terceiro Toy Story, de 2010, veio numa época em que eu já era jornalista da Folha, mas não tinha ainda um smartphone pra me comunicar, só um celular basicão. Não existia WhatsApp (pelo menos ele não havia se popularizado, o que só foi acontecer no Brasil uns três anos depois); a gente trocava mensagens via SMS.

Não por acaso, o maior desafio para os brinquedos Woody, Buzz e os outros nesses primeiros filmes do Toy Story era o crescimento das crianças. Ao virar adolescentes e perder interesse em brincadeiras, eles acabavam abandonados. Mas nem se cogitava um mundo de crianças viciadas em telas. Bom, tinha as tevês, mas o nível de dependência e fissura era muito menor.

O Toy Story 4 é de 2019. A esta altura, a tecnologia já tinha dado um verdadeiro salto. O WhatsApp foi o aplicativo mais baixado no Brasil e no mundo naquele ano. Já existia Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, Netflix, Tinder, Uber, 99, Mercado Livre, Spotify, Nubank etc. Além de uma porção de jogos.

E as crianças? Já estavam vidradas nas telinhas de smartphones e tablets?

Segundo a pesquisa “TIC Kids Online Brasil“, a mais abrangente a respeito, que é feita no país desde 2012 pelo Cetic.br e Unesco:

  • 89% de crianças e adolescentes de 9 a 17 anos tinham acessado a internet nos últimos 3 meses em 2019
  • mas 3 milhões de crianças e adolescentes não eram usuários de internet no Brasil e 1,4 milhão nunca tinham acessado a internet em 2019.

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Corta para 2026, ano do Toy Story 5, que acaba de chegar aos cinemas.

Além de todos os dispositivos e aplicativos que bem conhecemos, ainda temos a inteligência artificial à mão até das criancinhas.

Agora, segundo a pesquisa TIC Kids mais recente, de 2025:

  • 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos acessam a internet e só 710.343 nunca acessaram;
  • 77% das crianças e adolescentes têm o próprio celular;
  • 78% acessam o celular várias vezes por dia;
  • 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usaram a IA generativa;
  • 66% têm perfil próprio no WhatsApp e o mesmo percentual no Instagram.

E mais: a idade do primeiro acesso está começando cada vez mais cedo, com 28% começando a usar a web antes dos 6 anos de idade e 61% até os dez anos:

Idade do primeiro acesso de crianças à internet. Fonte: TIC Kids Online Brasil 2025
Idade do primeiro acesso de crianças à internet. Fonte: TIC Kids Online Brasil 2025

Já está claro que as crianças estão passando cada vez mais tempo diante de telas, principalmente tablets e smartphones, além da velha tevê. (Assim como seus pais e demais adultos que as circundam).

Mas o que isso significa? Quais os danos que esse excesso de telas pode causar às crianças?

Segundo o estudo “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais“, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), “2 horas ou mais de uso de telas em crianças de 3 anos estão associadas a prejuízos no comportamento, na linguagem e no desenvolvimento”.

Os prejuízos do uso das telas por crianças sem mediação incluem:

  • Atrasos cognitivos e de linguagem
  • Dificuldade de atenção e regulação emocional
  • Maior impulsividade e descontrole de comportamentos
  • Sono prejudicado e cansaço diurno
  • Redução de interações presenciais e empatia
  • Pior desempenho acadêmico e problemas de aprendizagem
  • Maior risco de ansiedade, depressão e estresse
  • Alimentação desregulada e sedentarismo
  • Dependência digital e uso problemático de internet

O mesmo estudo explica todas as habilidades que são desenvolvidas durante a primeira infância (que incluem coordenação motora ampla e fina, linguagem, cognição, emoções e sociabilidade) e mostra todos os benefícios das brincadeiras longe das telas para esse desenvolvimento.

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Diante da constatação/realidade de que crianças estão parando de brincar ou trocando as brincadeiras por uso de telas, e de todos esses prejuízos já esmiuçados em centenas de pesquisas científicas, o novo filme do Toy Story resolveu colocar um tablet como vilão dos brinquedos.

E o filme não parou por aí. Além da reflexão sobre o excesso de telas, e como a personagem Bonnie foi ficando cada vez mais distraída, irritadiça, ansiosa, solitária e triste depois de ganhar seu tablet, Toy Story 5 também mostrou:

  • adultos cada vez mais adoecidos, sem conseguir desgrudar os olhos de seus mundinhos brilhantes, sem conseguir ver o que estava acontecendo diante do nariz,
  • os riscos de colocar os eletrônicos como muletas para problemas mais graves (por exemplo, a dificuldade de fazer amizade)
  • e como as crianças podem superar seus problemas quando recebem o devido estímulo ou empurrãozinho dos seus cuidadores.

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Mas a abordagem sobre a tecnologia em Toy Story 5 não foi no sentido de demonizar os eletrônicos.

Pelo contrário: o filme chega a ser nostálgico com a evolução tecnológica e mostra como os dispositivos podem ser úteis (esta é a palavra) – por exemplo, para fotografar, rastrear um caminho num mapa ou enviar uma mensagem e encurtar distâncias.

Ou então para nos divertir com joguinhos, que evoluíram muito desde os tempos do saudoso Pre2 ❤ (Ainda que a imaginação e a fantasia das brincadeiras sejam muito mais benéficas para as crianças que os games viciantes.)

A utilidade da tecnologia não é colocada em questão. Não há dúvida a respeito. O problema é o uso cedo demais, por tempo em excesso, sem mediação adequada e, muitas vezes, sem qualidade.

Tempo máximo recomendado de uso de telas por idade.
Tempo máximo recomendado de uso de telas por idade. Fonte: NCPI

Pior: quando as pessoas substituem as relações com outros humanos pelas telas, transformando o que deveria ser só uma máquina útil em uma “amiga”.

É tudo isso que atrapalha o desenvolvimento das crianças, e arrisco dizer que também dos adultos.

Voltando a Toy Story 5, mais uma vez, ganhamos um filme lindo, emocionante, bem feito, com história ótima e que, além de tudo, nos faz pensar.

A gente termina de assistir entendendo que o tablet e o smartphone não são os verdadeiros vilões deste mundo que estamos vivendo. Somos nós mesmos, quando não somos capazes de usá-los com controle e equilíbrio.

Eis um filme didático para a criançada – e também pra gente 😉

Veja o trailer de Toy Story 5:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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