Internet: antro de covardes anônimos

Uma coisa que me irrita na internet, para a qual ainda não vi solução satisfatória, é o anonimato. E o pior é o anonimato sendo usado como canal para o ódio, a agressividade, a ofensa ou para, por exemplo, servir a um político ou partido político e tentar destruir argumentações sérias na base do grito.

Mas já estou nessa internet há anos e, embora não me conforme, já me acostumei com a existência desses covardes anônimos.

O pior é o Chico, tadinho, que nunca tinha aberto uma página de comentários de notícia na vida e viu o queixo cair com o baixo nível de algumas (até com isso já me acostumei, porque tenho o hábito de, quando sobra tempo, ler os comentários de algumas matérias no online para ver se escapa alguma pré-pauta ali no meio… O que é raro).

Vejam que dó:

Chico, querido: você é amado, sim. Esses caras é que são mal-amados.

Sobre isso, vale reproduzir toda uma crônica que o Ruy Castro escreveu dia desses, que diz tudo:

Ódio on-line 
Na esteira de seu novo disco, à venda num site para o qual as pessoas podem escrever o que quiserem, Chico Buarque fez uma grave constatação. “Eu achava que era amado, porque as pessoas iam ao show, me aplaudiam, e, na rua, me cumprimentavam”, ele disse. “Descobri, na internet, que sou odiado. As pessoas falam o que lhes vem à cabeça. Agora entendi as regras do jogo.”
Sim, são as novas regras. Chico Buarque, possivelmente, nunca foi a unanimidade que se pensava -ao lado das multidões que lhe são gratas pela beleza que espalha em letra e música há quase 50 anos, sempre devem ter existido os inconformados com seu sucesso, com seu talento, com suas rimas, talvez até com seus olhos claros.
A diferença é que os que não gostavam dele não se dariam ao trabalho de ir a seus shows para hostilizá-lo e, se passassem por ele na rua, não se disporiam a desfeiteá-lo. A vida real tem seus códigos de convívio -nela, para melhor andamento dos trabalhos, somos mais tolerantes e evitamos dizer o que pensamos uns dos outros. Mas a internet está fora desses códigos.
Nesta, ao sermos convidados a “interagir” e a “postar” nossos comentários, podemos despejar tudo que pensamos contra ou a favor de quem quer que seja. Quase sempre, contra. Uma sequência de comentários -que, em poucas horas, são milhares- a respeito de qualquer coisa nas páginas on-line é uma saraivada de ódios, despeitos, rancores, recalques e ressentimentos. E, não raro, num português de quinta. Pode-se ofender, ameaçar e agredir sem receio, como numa covarde carta anônima coletiva.
Alguns dirão que isso tem um lado bom -com a internet, acabou a hipocrisia e, agora, as pessoas podem se revelar como realmente são. Que ótimo. Resta perguntar quando elas passarão à prática -do ódio on-line contra X ou Y para sua manifestação concreta na rua.

Pra terminar, deixo vocês — meus queridos comentaristas do bem, que só enriquecem este blog — com uma música do CD novo do Chico, muito lindinha, pra continuarem amando esse grande letrista:

P.S. O trecho “me dão bom dia, cheios de carinho” é o que ele usa pra ilustrar a decepção com os comentaristas anônimos, repararam?

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Avatar de Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

17 comments

  1. Não sei se a culpa é mesmo td do anonimato ou pelo menos a parte maior. Mesmo sites que exigem cadastros dos comentaristas (e até CPF como o Estadão) não se livram de comentários pouco educados. Talvez haja uma incidência menor, mas seria preciso fazer um levantamento mais sistemático.

    Há também vídeos extremamente virulentos no YouTube, em que o opinionista mostra sua cara. E há blogueiros, conhecidos jornalistas (e não apenas jornalistas), que descem bem o nível do achincalhe.

    Uma possibilidade é a despersonalização do interlocutor. Em redes sociais, por exemplo, as pessoas são identificadas somente por avatar – que ou não representam uma face humana ou, em geral, são estáticas, não mostrando a reação da pessoa. Um estudo mostrou que usuários de internet podem ter problemas em identificar emoções das pessoas: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/938527-cerebro-de-pipoca.shtml
    —————–

    Ou tão somente que a internet apenas ajuda a expor aquela opinião de mesa de bar – o anonimato (parcial já que sempre se pode rastrear o IP) sendo só a consequência da dinâmica, não a força motora.

    Talvez algum dia algum grupo de psicólogos venham a examinar a questão.

    []s,

    Roberto Takata

    Curtir

  2. Apesar de eu não gostar do Chico, concordo sobre o anonimato, embora também concorde com o Roberto acima, que diz não ser este o único motivo. Sempre fui a favor de que as pessoas se identifiquem na rede, por isso gostei da proposta do Facebook, especialmente se comparada ao Orkut, onde cada um pode colocar o nome que quiser, ter inúmeras contas etc. (Não que isso não possa ocorrer no Facebook, mas o sistema não incentiva isso e dá vários avisos quando se vai criar uma conta.) Aliás, falando no Chico, na semana passada, mesmo, li um crítica sobre ele, que em muito me lembrou o que penso (embora não fosse 100% do que penso), publicada numa coluna no JT.

    Isso tudo faz lembrar de quando duas pessoas, que diziam ser duas garotas, invadiram os comentários do blog do meu primo, criticando o conteúdo que lá estava. Conteúdo tosco, é verdade, mas nada anônimo, ao contrário dos comentários dessas duas pessoas. E aquele caso nem foi tão grave. Esse tipo de coisa ocorre todos os dias, inúmeras vezes, e em graus bem mais graves.

    Curtir

      1. Uai, Alexandre, tá se arrependendo da amizade de 8 anos? 😛
        Porque essas foram as “anônimas” mais legais que você já encontrou na sua vida, ou pelo menos uma delas 😛 😛
        Que, aliás, se identificou com o mesmo nome com que se identifica em tudo hoje 😛 😛 😛
        E sempre comentávamos com o link pro nosso blog (tanto que seu primo ficou criticando nosso blog), onde estava nossos nomes completos, cidade de origem e tudo o mais.
        Incomparável com o objeto deste post. Humpf.

        Curtir

  3. Tem um negócio que eu li certa vez e não lembro onde: a culpa é da televisão. Durante 50 anos o pessoal se acostumou a xingar impunemente o que passa na TV, sem consequências. Claro: o cara pode xingar à vontade, sem precisar nem ter razão, que ninguém sabe quem ele é – e nem vai saber. Futebol tem muito isso. O sujeito vai consumir outro meio de comunicação e leva o mesmo comportamento embaixo do braço. Só que nesse ele tem não apenas a chance de mostrar seu xingamento pra todo mundo como também tem a possibilidade de continuar xingando sem mostrar a cara. Sei lá o quanto dá pra comprovar isso, mas si non è vero, è bene trovatto.

    Curtir

  4. “As pessoas falam o que lhes vem à cabeça. Agora entendi as regras do jogo.”

    Um jogo bem diferente daquele que você via em Pagão, meu caro Chico…http://ftt-futeboldetodosostempos.blogspot.com/2010/10/encontros-eternizados-chico-buarque.html

    Concordo com o Leo K: “internet = trânsito
    dentro do carro, ou atrás do monitor, qualquer nego fica valente”. E acrescento: inteliJente. Com “J” mesmo, porque é tanta gente com “atitude” sobretudo nas redes sociais que até me espanta o quanto eu ando “mal informado”…

    Curtir

  5. A internet e os Blogs, espelham nos Comentários Destrutivos, Ofensivos e de Ódio, uma Sociedade Doente e Perversa cheia de Rancor.

    Curtir

Deixe um comentário

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo