Em defesa da leveza na vida e da permissividade no humor

É um show de piadas. Comédia stand up, como se diz. O auge da moda. O cara é pago para ficar num palco, de frente para um público de negros, gays, mulheres, nordestinos, gaúchos, cruzeirenses, são-paulinos, judeus, gordos, carecas, pobres e loiras e contar piadas, por duas horas seguidas, muitas vezes sobre negros, gays, mulheres, nordestinos etc. Os bons contam de improviso, mesclando com o noticiário do dia, com os assuntos atuais, com o que vê no público*. Os ruins seguem um roteirinho já totalmente montado. Já tem até curso ensinando como faz.

Pois bem. Ben Ludmer estava no Teatro Folha na madrugada de sábado, onde levei minha mãe e irmã e cunhado para verem uma stand up na última vez em que estive lá, contando piadas sobre gordos. Detalhe: ele é gordo. Ou seja, ele foi pelo caminho menos arriscado do humor, já que estava com carta-branca para falar de um “pecado” que ele mesmo possui.

Pra quê: levou porrada (literalmente) de um gordo da plateia, que tinha sido provocado (parêntesis: stand up é pra isso mesmo: o humorista interage com seu público o tempo todo*. Se o espectador não gosta disso, que ligue a televisão no Zorra Total).

Essa notícia que o G1 publicou me deu oportunidade pra tratar de um assunto que há muito eu queria abordar: como o mundo anda cinza e rabugento.

Sério: que bom que avançamos e progredimos o suficiente para que, na lei, os racistas paguem por seu racismo, as mulheres tenham oportunidades de trabalho iguais às dos homens e, mais recentemente, os homossexuais possam cadastrar o cônjuge no plano de saúde, receber pensão e adotar um filho. Todas essas mudanças culturais vieram com a seriedade com que a sociedade passou a tratar os direitos humanos.

O problema, na minha opinião, é quando essa seriedade se torna uma patrulha do politicamente correto, que às vezes foge do razoável.

Na linguagem, por exemplo. Não conheço um negro sequer que prefira ser chamado de afrodescendente. Ele é negro, e com muito orgulho. A cultura é negra. O meu amado blues é músico negra. Todos os ativistas que conheço, mesmo os mais ferrenhos, gostam de usar essa palavra para se autoafirmar, afirmar seu “orgulho negro”. Não seu orgulho afrodescendente!

Querem outra? Favela. Quando eu ainda era estagiária, escrevi uma matéria sobre o CarnaFavela, um evento que aconteceria naquele fevereiro, em vários morros de Beagá. Pois não é que a editora queria que eu colocasse que a festa se passaria em uma “comunidade”? Porra, se o próprio morador da favela, organizador do evento, quis ressaltar no nome da festa que ela era na Favela, com F maiúsculo e tudo, por que eu deveria esconder essa informação do texto?!

Vou radicalizar. “Viado” (o palavrão é com i, né?). É óbvio e evidente que chamar um homossexual de viado não é legal. É ofensivo, pejorativo, agressivo e tudo o mais. Mas e se você chama um imbecil de viado, sem nem passar pela sua cabeça a associação com o uso homossexual do termo? Se, na sua linguagem, viado é sinônimo de imbecil, sem qualquer conotação homofóbica nisso? Não pode? Mas dizer que o sujeito está sendo homofóbico não é o mesmo que assumir antecipadamente que todo “viado” é gay? Porque, afinal, você está partindo de um pressuposto linguístico que você criou, e que nada tem a ver com o significado que paira pela cabeça daquela pessoa que soltou o palavrão, que apenas pensava no imbecil, seja ele hetero, gay ou assexuado.

Com esses exemplos já deu pra ver o que acho da radicalização do politicamente correto na língua, né? É claro que avançamos também nisso, porque hoje ninguém se dirige a um negro chamando ele de “crioulo”, nem a um gay falando que ele é “viado”. Também faz sentido que um “deficiente” tenha virado uma pessoa com deficiência, porque é uma sutileza sensível. Isso tudo é um avanço. Mas a tucanização de todas as palavras, até chegar ao ridículo do cego ter que virar “pessoa com deficiência visual” me tira do sério. Afinal, a palavra “cego” é pejorativa? É ofensiva? Por quê? (E eu gostaria de saber o que os cegos acham disso, claro. Suspeito que pensem como os negros no exemplo acima.)

Da linguagem pulo para outro campo que acho que está apanhando de forma intransigente e até burra com o avançar do progresso: o humor.

Aqui eu faço uma pausa para que todos leiam o ótimo texto do Hélio Schwartsman sobre o assunto (está aberto neste blog). Um trechinho:

“O humor também encerra dinâmicas emocionais. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa.
Kant, na “Crítica do Juízo”, diz que o riso é o resultado da “súbita transformação de uma expectativa tensa em nada”. Rimos porque nos sentimos aliviados. É nesse contexto que se torna plausível rir de desgraças alheias.
Em alemão, até existe uma palavra para isso: “Schadenfreude”, que é o sentimento de alegria ou prazer provocado pelo sofrimento de terceiros. Não necessariamente estamos felizes pelo infortúnio do outro, mas sentimo-nos aliviados com o fato de não termos sido nós a vítima.
Mais ou menos na mesma linha vai o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941). Em “O Riso”, ele observa que muitas piadas exigem “uma anestesia momentânea do coração”. A crueldade é explícita nos chistes mais primitivos (como a “Casa dos Autistas”), mas sobrevive mesmo nos gracejos mais elaborados, na forma de malícia (caso das piadas em que se comparam diversas nacionalidades), autodepreciação (típica do humor judaico) ou, mais simplesmente, na suspensão da solidariedade para com a vítima (sim, piadas geralmente têm vítimas).”

Com isso estou defendendo o Rafinha Bastos, que disse que toda feia tem que agradecer pela “oportunidade” de ter sido estuprada e que o estuprador merece um abraço? Não exatamente. É óbvio que isso ofende as mulheres, especialmente as que passaram pela dor irreparável de terem sido estupradas. Assim como a piada do gordo ofende ao gordo e a do negro ofende ao negro e a do gay ofende ao gay. Eu só acho que o campo do humor tem certas permissividades (no sentido amplo dessa palavra) até em nome da sobrevivência do próprio humor.

E vai caber ao humorista equilibrar a graça, o choque (de que trata o artigo do Hélio) e o BOM SENSO — essa coisa rara (que faltou ao Rafinha Bastos).

Vou pegar um exemplo. Pensemos no programa humorístico menos apelativo e mais inocente já feito até hoje. O primeiro que me vem à cabeça, e imagino que a maioria vai concordar comigo, é o Chaves e o Chapolin, geniais, que já fazem rir três gerações de brasileiros. O Chaves era até progressista demais, ao fazer com que a Chiquinha e a Dona Florinda fossem as verdadeiras manda-chuvas numa época em que o machismo ainda era muito dominante. Também não fazia piadas com gays ou negros ou piadas xenófobas etc.

No entanto, mesmo o inocente Chaves fazia piadas constantes com os gordos Seu Barriga e Nhonho. Com o esfarrapado de pobre Seu Madruga. Com a feia e velha Senhorita Clotilde. E rolava até agressões físicas contra o garoto de oito anos chamado Chaves. Na onda do politicamente correto de hoje, até o Chaves seria censurável por tudo isso!

O que dizer dos Trapalhões, que xingavam o cabeçudo cearense do Didi, o negão manguaçudo do Mussum, batiam na bunda de mulheres, faziam piadas com gays etc?

Viramos pessoas piores por assistir a esses programas? Não, pelo contrário. O mundo, como eu já disse neste post, avançou. Progrediu. Mas está, ao mesmo tempo, se tornando um lugar sombrio, onde qualquer risada pode ser censurada na Justiça, e qualquer piada é levada a sério demais com um murro.

O que eu proponho, com esta bíblia de post (sorry!), é a defesa da leveza. Do bom humor. Vamos continuar progredindo na letra da lei, nas escolas, mas vamos suspender o excesso de seriedade nas colunas do Zé Simão, nos palcos de uma Comédia Stand Up, nos programas do Chaves! Precisamos de humor para respirar, para nos lembrar que a vida é uma coisa engraçada que ninguém sabe muito bem pra que serve. Abaixo os rabugentos que se levam a sério demais!

* Certa vez fui ao Teatro Folha e o excelente humorista Marcio Ribeiro me viu comendo um sacão de pipoca e tentando aplaudir enquanto comia, desengonçadamente. Ele me zuou na frente de todos, depois perguntou meu nome. E a cada piada que ele fazia, adivinha quem ele usava de exemplo? A Cris da pipoca. Eu estava sozinha, tinha acabado de levar um pé-na-bunda, estava tristonha e meio mal-humorada. Fiquei super sem-graça de ter virado exemplo dele e isso tinha tudo pra ter estragado minha noite. Mas levei no bom humor, na esportiva. O resultado é que saí de lá com a alma leve, de tanto rir! Ri de todas aquelas piadas politicamente incorretas — mas ri, sobretudo, de mim mesma. E da vida. É o que deveríamos fazer mais vezes 😉
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