15 curiosidades sobre o Chaves

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Em 2005, ganhei de presente o livro “Chaves — Foi sem querer querendo?“, de Luís Joly, Fernando Thuler e Paulo Franco. O livro surgiu de um TCC no curso de jornalismo da UniFIAAM e traz histórias maravilhosas sobre o programa de televisão que fez milhões de fãs no Brasil e em outros países. Como estamos todos de luto pela morte de seu criador — o genial Roberto Bolaños –, resolvi trazer para o blog algumas das curiosidades que aprendi com essa leitura. Ressaltando que, se você também adora o Chavinho, deveria comprar e ler o livro original, que já está em sua segunda edição.

NO BRASIL

  1. Sílvio Santos comprou cada episódio de Chaves, no primeiro contrato de cinco anos, por míseros US$ 250, que depois passaram para US$ 500. Era o ano de 1981, quando a TVS, precursora do SBT, foi criada;
  2. Antes de comprar os episódios, SS os exibiu para um grupo de diretores, que acharam a produção péssima, as piadas fracas, e apostaram que o programa seria um fiasco. Mesmo com o “não” do grupo, SS resolveu comprar um pacote de 250 episódios de Chaves e Chapolin.
  3. Esses 250 são os episódios repetidos até hoje pelo canal. Reza a lenda que o SBT tem “episódios perdidos”, pouco ou nunca exibidos, até hoje. Agora que Bolaños morreu, eles querem exibi-los
  4. Dez dubladores fizeram a dublagem dos 250 episódios entre 1981 e 1986; alguns poucos episódios tiveram dublagem diferente: são aqueles que Sílvio Santos tinha pedido para ficarem prontos para a análise inicial do programa, logo que ele chegou ao Brasil;
  5. Chaves foi exibido pela primeira vez na TV brasileira em agosto de 1984 e o episódio era “Caçando Lagartixas”;
  6. No original, “El Chavo del Ocho” significaria algo como “o moleque do 8”, número do canal onde o programa era transmitido no México. Mas foi traduzido errado como Chaves e assim ficou, no Brasil — grazadeus 😉

NO MÉXICO

  1. O programa estreou em 1971 e viveu seu principal momento até 1979. Segundo o livro, “foram gravados mais de mil episódios” (pág. 49), mas já li em outros lugares que seriam um total de cerca de 500;
  2. O episódio de Acapulco acontece em 1978, quando o programa estava em seu auge no México;
  3. Em 1979, o ator que interpreta o Kiko deixa a série. Uma das versões atribui a saída ao fato de Dona Florinda, sua antiga namorada, ter começado a namorar Bolaños, o Chaves, com quem depois iria se casar. Poucos meses depois, Seu Madruga também deixa a série;
  4. Para tapar o buraco dos dois grandes atores, surge a personagem de Dona Neves, bisavó da Chiquinha (repararam que ela nunca divide a cena com o Seu Madruga?), e o carteiro Jaiminho;
  5. Seu Madruga volta à série em 1981, num episódio inédito no Brasil em que ele diz que estava se aventurando pelo mundo. Mas logo ele deixa a série de novo, em 1983, para trabalhar no circo. Em 1988, morre de câncer pulmonar;
  6. A partir da década de 80, Bolaños começa a fazer mais remakes de episódios;
  7. Dona Clotilde (1994), Jaiminho (1994) e Godinez (1999) também já morreram. Além de, agora, o querido Chaves (2014);
  8. Com altos e baixos e com alguns desfalques importantes, as gravações de Chaves só foram interrompidas totalmente em 1995, quando os atores não conseguiam mais esconder sua idade avançada. No México, o programa dessa fase era chamado de “Chespirito” e depois foi trazido ao Brasil como “Clube do Chaves”;
  9. Chapolin terminou bem antes de Chaves: em 1979. Mas depois, em 1987, voltou como um quadro do “Clube do Chaves”.

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Bolaños (1929-2014): perdi um amigo de infância e um herói

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Fui pega de surpresa com a morte de Roberto Gómez Bolaños, o Chaves. Claro, eu sabia que ele já estava velhinho e tinha estado internado recentemente, muito doente. Mas foi um susto ver a carinha do Chaves, dentro de seu barril, no topo de todos os sites de notícia, com o anúncio de sua morte.

Sem nem perceber como, me vi chorando de soluçar. Acho que senti como se tivesse perdido um amigo de infância. E foi bem isso mesmo: Chaves começou a ser exibido pelo SBT no Brasil um ano antes de eu nascer. E, desde que tenho memória, me recordo de assistir ao seriado.

Com o Chaves aprendi alguns conceitos importantes, que carrego comigo até hoje. Por exemplo, aprendi que as mulheres podem ser bem mais fortes, em todos os sentidos, que os homens. Dona Florinda era uma mãe que criava o filho sozinha, trabalhava com mil coisas (já vendeu churros e, empreendedora, chegou a abrir um restaurante) e não deixava barato quando se sentia ameaçada por um homem (principalmente o Seu Madruga, mas não só ele). E a Chiquinha era a menina esperta, astuta, inteligente, que bolava os planos e conseguia sempre o que queria, inclusive bilhetes premiados para que ela e o pai fossem passar as férias dos sonhos em paradisíaco Acapulco 😉

Também aprendi o conceito de justiça, por exemplo. Alguém se lembra do episódio em que todos acusam o Chaves de ser um ladrão? Ofendido, ele deixa a vila com sua trouxinha. Toda vez que assisto a este episódio, eu choro com a gravidade da injustiça escancarada. Mas também é com o Chaves que a gente aprende a perdoar e que “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena“.

Aprendemos também com o Seu Barriga, o mais rico da história, mas extremamente generoso, inclusive capaz de perdoar 14 meses de aluguel. E com o anti-herói que é Seu Madruga – malandro, preguiçoso (embora ele também trabalhe feito um condenado em várias cenas), que distribui cascudos nas crianças, fuma adoidado (vale ressaltar que foi o cigarro que levou Bolaños e o próprio Ramón Valdés…), mas que também tem um coração imenso (“as pessoas boas devem amar seus inimigos”, olha que lindo!).

Com Chaves, aprendi desde criança sobre meninos de rua, sobre crise, desemprego, sobre a disparidade dos garotos que têm sempre acesso ao sanduíche de presunto e aos brinquedos mais caros (Quico e Nhonho) e os que não possuem nada, sobre a inveja que isso causa, sobre vizinhos que se acham superiores aos outros (“gentalhas”), mesmo morando numa mesma vila, lado a lado.

Também foi minha primeira experiência de presenciar um grande amor. Era palpitante ouvir aquela música toda vez que Dona Florinda e Professor Girafales se encontravam, e ouvir a voz adocicada que usavam nos cumprimentos de praxe, além de serem mágicas aquelas cenas em que eles só se olhavam, mudos, alheios ao mundo ao redor, sem piscar, apenas se admirando, apaixonados. Por outro lado, também havia o lado cruel do eterno namorado que não queria assumir um compromisso. Uma dose de vida real para desmistificar esse amor de cinema.

Ainda foi com Chaves que aprendi a amar o México e todas as coisas incríveis que conheci sobre a cultura daquele país por meio da telinha: como são deliciosos os churros, como é emocionante o Dia de São Valentín, como Acapulco é um lugar dos sonhos etc.

Chaves tinha abordagens que hoje seriam consideradas politicamente incorretas, talvez até tabus. Cenas de bullying, de trabalho infantil, de violência contra crianças, dentre outros. O que só ressalta como talvez estejamos criando um mundo excessivamente quadrado e chato, já que milhares de crianças do planeta inteiro assistiram ao Chaves e não por isso se tornaram delinquentes ou exploradores. O politicamente incorreto pode mesmo ser engraçado – demonstrava sempre o Bolaños –, embora ele nunca tenha recorrido a mulheres peladas ou cenas apelativas como faziam nossos Trapalhões.

Chaves me ensinou, sobretudo, a rir. Inclusive a rir das desgraças próprias e alheias. Já perdi a conta de quantas vezes assisti a cada episódio e, no entanto, quase sempre ria das ideias geniais de Bolaños, muitas vezes mais para o discernimento de adultos que de crianças. E como o cara conseguia, do alto de seus 42 anos (quando o primeiro episódio foi ao ar, em 1971), incorporar tão bem um garoto de 8?! Sempre me espantei com a capacidade que ele e os outros atores tinham de fazer o mundo inteiro enxergá-los com uma lente mágica que os transformava realmente em crianças. Em nenhum momento passava pela minha cabeça que Chaves, Chiquinha, Quico, Nhonho, Godines, Paty, Pópis e outros fossem adultos. Bolaños nos fazia esquecer disso e embarcar na fantasia, como ninguém. (♫ ♫ ♫ “Que bonita a sua roupa… Que roupinha muito louca…!” ♪♫♪ )

Por tudo isso, para mim, ele era um gênio. Mais gênio que o Charles Chaplin, com a vantagem de ser latino, quase brasileiro. Ele nos deixa um legado imenso de personagens incríveis, como Chaves, Chapolin, Chespirito e Doutor Chapatin – além de todos os outros que ele criou em sua cabeça mirabolante e levou para a TV na pele de outros atores incríveis (“quero evitar a fadiga…”, que bordões sensacionais!). E conquistou milhões de fãs ao redor do planeta. (Parêntesis para agradecer infinitamente ao Silvio Santos por ter trazido ele até nós, em primeiro lugar).

Fiquei triste de verdade com a perda desse amigo íntimo. Esse velhinho de 85 anos que eu enxergava como uma eterna criança (e que me estimula até hoje a conservar minha alma de criança dentro de mim). O que me consola é que tenho todos os episódios de Chaves e de Chapolin e, sempre que me bater a saudade, vou lá assisti-los de novo. E vou apresentar esse gênio Chespirito para meus futuros filhos, netos e bisnetos, para ajudar a eternizar o pequeno herói que vivia num barril e o outro, que carregava uma marreta biônica – muito mais importantes para mim que qualquer aranha, morcego ou E.T. que exista por aí.

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1º filme das férias: “Papagaios loiros!”

Para ver no cinema: AS AVENTURAS DE TINTIN

Nota 8

Sou suspeita. Desde que me entendo por gente, mais ou menos pela época em que li “A Ilha do Tesouro”, sou fascinada pelas histórias de piratas. Meu sonho, quando criança, era ser pirata (não sei como eu ia fazer, já que detesto peixe e rum). Eu não entendia muito bem a parte criminal da coisa; o importante eram as aventuras!

Pra completar, também sou doida com jornalismo. E comecei a me imaginar nessa profissão na mesma época em que comecei a ler histórias de detetives, e queria, como jornalista, desvendar mistérios e depois reportá-los para o mundo. Mais aventuras!

E não vou mentir dizendo que era viciada no desenho do Tintin como era com o Caverna do Dragão e o Chaves. Mas assisti a vários episódios e sempre gostei de ver o cachorro espertíssimo, ao melhor estilo Scooby Doo, e os policiais paspalhões, que me lembravam Tweedledee e Tweedledum, da “Alice Através dos Espelhos”.

Pois neste primeiro filme das férias vibrei ao ver a combinação da história do herói-jornalista (mais pra detetive) com as histórias de piratas e tesouros escondidos por enigmas.

Tudo feito por quem melhor entende desse tipo de riscado, ou seja, Steven Spielberg, com uma animação em 3D caprichadíssima (é o topetinho de Tintin voando sem parar…), embora dispensável.

O filme é muito bem feito, com um roteiro que não deixa nada a desejar à história de Stevenson e muitas tiradas bem-humoradas, especialmente as arrotadas pelo capitão beberrão que acompanha Tintin em suas aventuras.

O que estragou um pouco foi essa solução que está quase virando mania entre os novos filmes (especialmente os de animação) de terminar o filme já indicando que haverá uma continuação. Nesse caso, pelo menos, foi menos descarado que em “Piratas do Caribe”, que chegou a terminar totalmente no meio do caminho. Pelo menos chega-se a uma conclusão, embora ainda não a definitiva.

Enfim, vale a pena ver no cinema, mas também não é de todo má ideia esperar até que todas as sequências tenham sido lançadas e ver uma atrás da outra – como fazemos hoje em dia com a saga de Indiana Jones 😉

Minha mensagem de Natal

Natal é a única época do ano que, só por existir, independente do mau humor de algumas pessoas, da religião e do consumismo, promove um estado de espírito generalizado que envolve, dentre outras coisas boas:

  • A reunião da família
  • A lembrança dos vários amigos, novos e velhos, que tanto amamos
  • A generosidade
  • A doação
  • A condescendência
  • O perdão

É uma data que, junto à virada do calendário daqui a uma semana, nos faz refletir sobre o que estamos fazendo da nossa vida, sobre novos rumos a seguir, nos inspira a tomar decisões ousadas e a nos presentear com coisas muito desejadas.

E, nesse último item, não estou falando, necessariamente, de gastar uma grana preta.

Querem um exemplo? Meu colega e amigo Guto se deu o melhor presente de Natal que poderia, sem gastar um centavo por isso: parou de fumar.

O 2012 dele será de muita saúde, facilidade de subir escadas, mais anos de vida e menos doenças, com certeza. Sem contar a economia que ele vai fazer com os maços a menos na despesa mensal (não entendo nada de cigarros, mas o Google me diz que um maço custa cerca de R$ 4,50 – talvez mais, porque achei essa informação referente a 2009. Se a pessoa fuma um maço por dia, gasta R$ 135 por mês ou R$ 1.620 por ano. O que me leva ao ótimo argumento do André Forastieri de que o maço deveria custar R$ 50).

Eu desejo, neste Natal, que meus amigos fumantes cortem o cigarro de suas vidas; que meus pais se dêem de presente mais momentos de alegrias juntos, sem tantas discussões inúteis; que meus irmãos me dêem de presente mais lindos sobrinhos; que meus amigos se/me dêem de presente mais emails, mensagens e cartas compartilhando suas novidades; que meus amigos casados ou namorando se permitam um investimento no romantismo e na confiança; que os colegas do trabalho renovem o ímpeto, a persistência e a resiliência e, por fim, que as empresas nos dêem a todos de presente belos aumentos para acompanhar os lucros 😉

Nem tudo é dinheiro, como vêem, mas Natal é, acima de tudo, sobre esperança.

Que o espírito de Kris Kringle esteja com vocês na ceia de hoje, no almoço de amanhã e no regime de segunda!

😀

Leia mais sobre minha época do ano favorita:

Em defesa da leveza na vida e da permissividade no humor

É um show de piadas. Comédia stand up, como se diz. O auge da moda. O cara é pago para ficar num palco, de frente para um público de negros, gays, mulheres, nordestinos, gaúchos, cruzeirenses, são-paulinos, judeus, gordos, carecas, pobres e loiras e contar piadas, por duas horas seguidas, muitas vezes sobre negros, gays, mulheres, nordestinos etc. Os bons contam de improviso, mesclando com o noticiário do dia, com os assuntos atuais, com o que vê no público*. Os ruins seguem um roteirinho já totalmente montado. Já tem até curso ensinando como faz.

Pois bem. Ben Ludmer estava no Teatro Folha na madrugada de sábado, onde levei minha mãe e irmã e cunhado para verem uma stand up na última vez em que estive lá, contando piadas sobre gordos. Detalhe: ele é gordo. Ou seja, ele foi pelo caminho menos arriscado do humor, já que estava com carta-branca para falar de um “pecado” que ele mesmo possui.

Pra quê: levou porrada (literalmente) de um gordo da plateia, que tinha sido provocado (parêntesis: stand up é pra isso mesmo: o humorista interage com seu público o tempo todo*. Se o espectador não gosta disso, que ligue a televisão no Zorra Total).

Essa notícia que o G1 publicou me deu oportunidade pra tratar de um assunto que há muito eu queria abordar: como o mundo anda cinza e rabugento.

Sério: que bom que avançamos e progredimos o suficiente para que, na lei, os racistas paguem por seu racismo, as mulheres tenham oportunidades de trabalho iguais às dos homens e, mais recentemente, os homossexuais possam cadastrar o cônjuge no plano de saúde, receber pensão e adotar um filho. Todas essas mudanças culturais vieram com a seriedade com que a sociedade passou a tratar os direitos humanos.

O problema, na minha opinião, é quando essa seriedade se torna uma patrulha do politicamente correto, que às vezes foge do razoável.

Na linguagem, por exemplo. Não conheço um negro sequer que prefira ser chamado de afrodescendente. Ele é negro, e com muito orgulho. A cultura é negra. O meu amado blues é músico negra. Todos os ativistas que conheço, mesmo os mais ferrenhos, gostam de usar essa palavra para se autoafirmar, afirmar seu “orgulho negro”. Não seu orgulho afrodescendente!

Querem outra? Favela. Quando eu ainda era estagiária, escrevi uma matéria sobre o CarnaFavela, um evento que aconteceria naquele fevereiro, em vários morros de Beagá. Pois não é que a editora queria que eu colocasse que a festa se passaria em uma “comunidade”? Porra, se o próprio morador da favela, organizador do evento, quis ressaltar no nome da festa que ela era na Favela, com F maiúsculo e tudo, por que eu deveria esconder essa informação do texto?!

Vou radicalizar. “Viado” (o palavrão é com i, né?). É óbvio e evidente que chamar um homossexual de viado não é legal. É ofensivo, pejorativo, agressivo e tudo o mais. Mas e se você chama um imbecil de viado, sem nem passar pela sua cabeça a associação com o uso homossexual do termo? Se, na sua linguagem, viado é sinônimo de imbecil, sem qualquer conotação homofóbica nisso? Não pode? Mas dizer que o sujeito está sendo homofóbico não é o mesmo que assumir antecipadamente que todo “viado” é gay? Porque, afinal, você está partindo de um pressuposto linguístico que você criou, e que nada tem a ver com o significado que paira pela cabeça daquela pessoa que soltou o palavrão, que apenas pensava no imbecil, seja ele hetero, gay ou assexuado.

Com esses exemplos já deu pra ver o que acho da radicalização do politicamente correto na língua, né? É claro que avançamos também nisso, porque hoje ninguém se dirige a um negro chamando ele de “crioulo”, nem a um gay falando que ele é “viado”. Também faz sentido que um “deficiente” tenha virado uma pessoa com deficiência, porque é uma sutileza sensível. Isso tudo é um avanço. Mas a tucanização de todas as palavras, até chegar ao ridículo do cego ter que virar “pessoa com deficiência visual” me tira do sério. Afinal, a palavra “cego” é pejorativa? É ofensiva? Por quê? (E eu gostaria de saber o que os cegos acham disso, claro. Suspeito que pensem como os negros no exemplo acima.)

Da linguagem pulo para outro campo que acho que está apanhando de forma intransigente e até burra com o avançar do progresso: o humor.

Aqui eu faço uma pausa para que todos leiam o ótimo texto do Hélio Schwartsman sobre o assunto (está aberto neste blog). Um trechinho:

“O humor também encerra dinâmicas emocionais. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa.
Kant, na “Crítica do Juízo”, diz que o riso é o resultado da “súbita transformação de uma expectativa tensa em nada”. Rimos porque nos sentimos aliviados. É nesse contexto que se torna plausível rir de desgraças alheias.
Em alemão, até existe uma palavra para isso: “Schadenfreude”, que é o sentimento de alegria ou prazer provocado pelo sofrimento de terceiros. Não necessariamente estamos felizes pelo infortúnio do outro, mas sentimo-nos aliviados com o fato de não termos sido nós a vítima.
Mais ou menos na mesma linha vai o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941). Em “O Riso”, ele observa que muitas piadas exigem “uma anestesia momentânea do coração”. A crueldade é explícita nos chistes mais primitivos (como a “Casa dos Autistas”), mas sobrevive mesmo nos gracejos mais elaborados, na forma de malícia (caso das piadas em que se comparam diversas nacionalidades), autodepreciação (típica do humor judaico) ou, mais simplesmente, na suspensão da solidariedade para com a vítima (sim, piadas geralmente têm vítimas).”

Com isso estou defendendo o Rafinha Bastos, que disse que toda feia tem que agradecer pela “oportunidade” de ter sido estuprada e que o estuprador merece um abraço? Não exatamente. É óbvio que isso ofende as mulheres, especialmente as que passaram pela dor irreparável de terem sido estupradas. Assim como a piada do gordo ofende ao gordo e a do negro ofende ao negro e a do gay ofende ao gay. Eu só acho que o campo do humor tem certas permissividades (no sentido amplo dessa palavra) até em nome da sobrevivência do próprio humor.

E vai caber ao humorista equilibrar a graça, o choque (de que trata o artigo do Hélio) e o BOM SENSO — essa coisa rara (que faltou ao Rafinha Bastos).

Vou pegar um exemplo. Pensemos no programa humorístico menos apelativo e mais inocente já feito até hoje. O primeiro que me vem à cabeça, e imagino que a maioria vai concordar comigo, é o Chaves e o Chapolin, geniais, que já fazem rir três gerações de brasileiros. O Chaves era até progressista demais, ao fazer com que a Chiquinha e a Dona Florinda fossem as verdadeiras manda-chuvas numa época em que o machismo ainda era muito dominante. Também não fazia piadas com gays ou negros ou piadas xenófobas etc.

No entanto, mesmo o inocente Chaves fazia piadas constantes com os gordos Seu Barriga e Nhonho. Com o esfarrapado de pobre Seu Madruga. Com a feia e velha Senhorita Clotilde. E rolava até agressões físicas contra o garoto de oito anos chamado Chaves. Na onda do politicamente correto de hoje, até o Chaves seria censurável por tudo isso!

O que dizer dos Trapalhões, que xingavam o cabeçudo cearense do Didi, o negão manguaçudo do Mussum, batiam na bunda de mulheres, faziam piadas com gays etc?

Viramos pessoas piores por assistir a esses programas? Não, pelo contrário. O mundo, como eu já disse neste post, avançou. Progrediu. Mas está, ao mesmo tempo, se tornando um lugar sombrio, onde qualquer risada pode ser censurada na Justiça, e qualquer piada é levada a sério demais com um murro.

O que eu proponho, com esta bíblia de post (sorry!), é a defesa da leveza. Do bom humor. Vamos continuar progredindo na letra da lei, nas escolas, mas vamos suspender o excesso de seriedade nas colunas do Zé Simão, nos palcos de uma Comédia Stand Up, nos programas do Chaves! Precisamos de humor para respirar, para nos lembrar que a vida é uma coisa engraçada que ninguém sabe muito bem pra que serve. Abaixo os rabugentos que se levam a sério demais!

* Certa vez fui ao Teatro Folha e o excelente humorista Marcio Ribeiro me viu comendo um sacão de pipoca e tentando aplaudir enquanto comia, desengonçadamente. Ele me zuou na frente de todos, depois perguntou meu nome. E a cada piada que ele fazia, adivinha quem ele usava de exemplo? A Cris da pipoca. Eu estava sozinha, tinha acabado de levar um pé-na-bunda, estava tristonha e meio mal-humorada. Fiquei super sem-graça de ter virado exemplo dele e isso tinha tudo pra ter estragado minha noite. Mas levei no bom humor, na esportiva. O resultado é que saí de lá com a alma leve, de tanto rir! Ri de todas aquelas piadas politicamente incorretas — mas ri, sobretudo, de mim mesma. E da vida. É o que deveríamos fazer mais vezes 😉