A morte de Itamar e a volta do “Bionicão”

Texto de José de Souza Castro:

A morte de dois senadores mineiros neste ano – Eliseu Resende e Itamar Franco – reforça a ideia de que é preciso mudar a legislação eleitoral, principalmente em relação à escolha dos suplentes de senadores. Com a morte dos eleitos, seus suplentes, Clésio Andrade e Zezé Perrella, passam a representar Minas Gerais no Senado. Eles chegaram ao cargo por acordos de caciques partidários, não pelo voto dos eleitores.

O repórter Raphael Veleda, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Minas, lembra hoje que o cartola do Cruzeiro Zezé Perrella “se tornou primeiro suplente de Itamar após negociação feita pelo senador Aécio Neves (PSDB) para ter o PDT na aliança que elegeu o tucano Antonio Anastasia ao governo estadual”.

E acrescenta: “Perrella foi indiciado pela Polícia Federal no ano passado, sob suspeita de lavagem de dinheiro na venda do zagueiro cruzeirense Luisão ao Real Madrid, em 2003, e é investigado pelo Ministério Público, sob suspeita de ocultar patrimônio. À Justiça Eleitoral, declarou menos de R$ 500 mil. Denúncias veiculadas na imprensa mineira afirmam que ele é dono de uma fazenda que valeria cerca de R$ 60 milhões. Perrella afirma que a propriedade pertence a uma empresa de seus filhos.”

Clésio Andrade também não é um santo. Em setembro de 2006, quase na véspera da eleição de Eliseu Resende, escrevi no blog Tamos com Raiva que, em 2004, o Ministério Público Federal (MPF), no rastro das investigações da Polícia Federal contra doleiros, acabou pedindo a quebra do sigilo bancário de seu suplente, por suspeita de lavagem de dinheiro para financiamento de campanha eleitoral em operações realizadas por duas instituições dirigidas pelo vice-governador de Minas, Clésio Andrade. São elas: Instituto de Desenvolvimento, Assistência Técnica e Qualidade de Transporte (Idaf), vinculada à Confederação Nacional de Transportes (CNT), presidida por Clésio desde 1993, e Instituto J. Andrade, de Juatuba, cuja entidade mantenedora é também presidida por Clésio. “O juiz Jorge Macedo Costa, da 4ª Vara Federal em Belo Horizonte, determinou em 27/7/2004, a quebra do sigilo bancário dos dois institutos, mas, antes que isso ocorresse, foi obrigado a remeter o processo ao Superior Tribunal de Justiça, por causa do cargo de vice-governador. O processo corre ali em segredo de justiça.”

Acrescentei que Clésio Andrade estava sendo também processado pelo Ministério Público mineiro, num caso envolvendo a privatização do Credireal. Ele foi acusado de ter-se aproveitado de “crescente prestígio econômico e político” para obter, em outubro de 1996, a quitação de dívida de R$ 1,8 milhão da SMP&B Publicidade, da qual era sócio, no Credireal.

Desde o começo deste ano, ficou mais difícil julgar e condenar Clésio Andrade, que fez carreira política como vice. Em 1998, foi candidato a vice-governador na chapa de Eduardo Azeredo, que não conseguiu se reeleger, perdendo para Itamar Franco (cujo vice era Newton Cardoso).

Fazendo um parêntesis: Itamar morreu com fama de político honesto, mas não sabia – ou não tinha condições de escolher — companheiros honestos para disputar eleições. Ele será cremado hoje em Contagem, depois de receber homenagens em Juiz de Fora e Belo Horizonte. Espero que não seja esquecido, pelo menos por uma coisa: o ter tirado a Cemig do controle de Daniel Dantas, do grupo Opportunitty. Esse controle havia sido dado pelo antecessor no Palácio da Liberdade, Eduardo Azeredo, com apoio do governo Fernando Henrique Cardoso. Além de ter desafiado seu sucessor no Palácio da Alvorada, Itamar teve a coragem de enfrentar a imprensa que apoiava a qualquer custo a desestatização das empresas públicas.

Em 2002, Clésio elegeu-se vice-governador, mas quatro anos depois o governador Aécio Neves livrou-se dele, convencendo Eliseu Resende a aceitá-lo como primeiro suplente em sua chapa.

Portanto, Minas terá a partir de agora um senador eleito, Aécio Neves, e dois senadores “Bionicães”. Os mais velhos se lembram que assim eram chamados, na década de 1970, os senadores escolhidos pelos ditadores militares, o que muito irritava Murilo Badaró. Esses aí foram escolhidos pelo neto de Tancredo Neves. Ironia da história…

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