‘Só trafico drogas’, diz senador Zezé Perrella em conversa com Aécio Neves

Momento da prisão dos envolvidos no transporte de 445 kg de cocaína, em 2013. (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

“Não faço nada de errado, só trafico drogas”, diz o senador Zezé Perrella ao ouvir uma dura do senador Aécio Neves, num áudio divulgado dia 30 de maio pelo jornal “Hoje em Dia”. Aécio ligou às vésperas da Semana Santa, para reclamar de uma entrevista dada pelo seu vice no governo de Minas à Rádio Itatiaia. Foi antes da divulgação da “colaboração premiada” de Joesley Batista, mas Aécio já era denunciado na Lava Jato.

A assessoria de Perrella tenta explicar ao jornal:

“Basta ouvir o áudio na íntegra e contextualizar a expressão mencionada.

Durante o diálogo, o senador Zezé Perrella cita o episódio do helicóptero referindo-se ao fato de que, mesmo após ter sido comprovada sua inocência, lamentavelmente, a imprensa ainda insiste em associar o seu nome ao caso.

Seu incômodo está explícito no áudio, antes mesmo do momento em questão. Fica óbvia, inclusive pela reação do interlocutor, a ironia expressa pelo Senador Zezé Perrella em relação à forma criminosa e caluniosa que abordam o assunto”.

Não foi uma confissão de culpa, talvez – você decide, após ouvir o vídeo. E Aécio, na conversa, tenta se desvencilhar da companhia de políticos que pediram dinheiro a empresas para se enriquecer. Disse que pediu apenas para a campanha política, sua e de outros correligionários do PSDB, como Perrella.

A divulgação dessa conversa entre dois senadores mineiros é ilustrativa, mas não é o fato mais grave do dia. Vamos a outros: Continuar lendo

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A linguagem imprópria de Aécio na conversa com o dono da Friboi

Michel Temer e Aécio Neves. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/31.8.2016

Texto escrito por José de Souza Castro:

Foram divulgados na tarde desta sexta-feira (19) documentos relativos à delação de Joesley Batista, presidente do Grupo J & F (Friboi), homologada pelo Supremo Tribunal Federal, e que podem ser lidos AQUI. Fiz um resumo, concentrando-me nas denúncias contra o ex-governador de Minas, Aécio Neves, sobre quem tenho escrito com alguma frequência.

Primeiro, devo dizer que não reconheço nas palavras dele, mais parecidas com políticos dos romances de Nelson Rodrigues, algo semelhante ao que eu ouvia do avô, Tancredo Neves, nas muitas vezes em que o entrevistei para o “Jornal do Brasil”.

Na gravação da conversa de Joesley com Aécio, no Hotel Unique, em São Paulo, dia 24 de março, o senador fala sobre a Operação Carne Fraca, que atingia, entre outros, o Friboi. “Confusão filha da puta”, comenta o então presidente do PSDB. “Eu estava falando com o Trabuco hoje de manhã, fomos apertar o Michel agora, a Polícia Federal tinha que fazer uma mea culpa pública e pedir desculpa”.

Sua linguagem senatorial, porém, fica melhor quando Joesley e Aécio falam sobre a necessidade de impedir que as investigações da Lava Jato avancem.

Conforme a Procuradoria Geral da República (PGR), no pedido de abertura de inquérito contra Aécio Neves, Michel Temer e o deputado federal Rodrigo Loures (PMDB-PR), o senador mineiro teria tentado organizar uma forma de impedir tal avanço, “por meio de escolha dos delegados que conduziriam os inquéritos, redirecionando as distribuições, mas isso não teria sido finalizado entre ele, Michel Temer e o ex-Ministro da Justiça e atual Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre Moraes”.

Aécio comenta com Joesley: Continuar lendo

Quem avisa, amigo é (votaram no Itamar, assumiu o Zezé)

"Farinhaço" em protesto para cobrar investigações pelo uso de um helicóptero de um senador da República para tráfico de 445 kg de cocaína. Foto: Léo Fontes/O Tempo.

“Farinhaço” em protesto para cobrar investigações pelo uso de um helicóptero de um senador da República para tráfico de 445 kg de cocaína. Foto: Léo Fontes/O Tempo.

Os leitores deste blog leram meu desabafo no dia 2 de julho de 2011, dia da morte de Itamar Franco. Não escrevi aqui no blog lamentando o falecimento, biografando o ex-presidente ou algo do gênero. O que lamentei, profundamente, de chorar pitangas, foi a posse do primeiro suplente, Zezé Perrela.

Não lembram não, pessoas desmemoriadas? Então CLIQUEM AQUI pra refrescar a memória.

Agora, passados pouco mais de dois anos, o Brasil inteiro está a par de quem é Zezé Perrela, este senhor que os mineiros já conheciam há tempos. O país ficou sabendo por causa de um certo helicóptero, apreendido pela Polícia Federal, que carregava 445 kg de cocaína (nuh!), e que pertence aos Perrela e era abastecido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (de acordo com revelação da repórter Tâmara Teixeira, do jornal mineiro “O Tempo”. Mas o mais legal é ler a entrevista dela com o filho de Perrella: “Mais essa agora que vocês estão me arrumando…“).

O mesmo farinhaço, na porta da ALMG, em foto de Raquel Freitas/G1 MG

O mesmo farinhaço, na porta da ALMG, em foto de Raquel Freitas/G1 MG

Vamos dar o nome certo ao crime? Trá-fi-co. Para quem? A mando de quem? Para onde ia? Quem é o dono daquela fazenda? Quem chefiava? Alguém que transporta 445 kg de cocaína (= R$ 10 milhões) no helicóptero de um senador da República não é peixe pequeno, é um dos maiores traficantes do país. Qual o nome dele? É investigado pela PF? Conhecido? Tem apelido? É de alguma facção? É mineiro? Qual sua ligação com o senador? Esperamos e estamos atentos ao desenrolar dessas investigações. Ou vão me dizer que era pra consumo próprio? 😀

Charge do Adão publicada na "Folha" de 26.11.2013

Charge do Adão publicada na “Folha” de 26.11.2013

Mas esta é só a cereja do bolo. Neste post da “Placar” há um breve histórico de coisas “bacanas” que o senador mineiro vem fazendo nos últimos anos, desde que era cartola do Cruzeiro. Vejam AQUI.

Eu falei: quem avisa amigo é. Mas os mineiros não me ouviram e puseram Perrela no Senado Federal, um dos cargos mais nobres do poder público, por meio do octogenário Itamar Franco. Como diria o chargista Duke:

Charge publicada em "O Tempo" de 29.11.2013

Charge publicada em “O Tempo” de 29.11.2013

A morte de Itamar e a volta do “Bionicão”

Texto de José de Souza Castro:

A morte de dois senadores mineiros neste ano – Eliseu Resende e Itamar Franco – reforça a ideia de que é preciso mudar a legislação eleitoral, principalmente em relação à escolha dos suplentes de senadores. Com a morte dos eleitos, seus suplentes, Clésio Andrade e Zezé Perrella, passam a representar Minas Gerais no Senado. Eles chegaram ao cargo por acordos de caciques partidários, não pelo voto dos eleitores.

O repórter Raphael Veleda, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Minas, lembra hoje que o cartola do Cruzeiro Zezé Perrella “se tornou primeiro suplente de Itamar após negociação feita pelo senador Aécio Neves (PSDB) para ter o PDT na aliança que elegeu o tucano Antonio Anastasia ao governo estadual”.

E acrescenta: “Perrella foi indiciado pela Polícia Federal no ano passado, sob suspeita de lavagem de dinheiro na venda do zagueiro cruzeirense Luisão ao Real Madrid, em 2003, e é investigado pelo Ministério Público, sob suspeita de ocultar patrimônio. À Justiça Eleitoral, declarou menos de R$ 500 mil. Denúncias veiculadas na imprensa mineira afirmam que ele é dono de uma fazenda que valeria cerca de R$ 60 milhões. Perrella afirma que a propriedade pertence a uma empresa de seus filhos.”

Clésio Andrade também não é um santo. Em setembro de 2006, quase na véspera da eleição de Eliseu Resende, escrevi no blog Tamos com Raiva que, em 2004, o Ministério Público Federal (MPF), no rastro das investigações da Polícia Federal contra doleiros, acabou pedindo a quebra do sigilo bancário de seu suplente, por suspeita de lavagem de dinheiro para financiamento de campanha eleitoral em operações realizadas por duas instituições dirigidas pelo vice-governador de Minas, Clésio Andrade. São elas: Instituto de Desenvolvimento, Assistência Técnica e Qualidade de Transporte (Idaf), vinculada à Confederação Nacional de Transportes (CNT), presidida por Clésio desde 1993, e Instituto J. Andrade, de Juatuba, cuja entidade mantenedora é também presidida por Clésio. “O juiz Jorge Macedo Costa, da 4ª Vara Federal em Belo Horizonte, determinou em 27/7/2004, a quebra do sigilo bancário dos dois institutos, mas, antes que isso ocorresse, foi obrigado a remeter o processo ao Superior Tribunal de Justiça, por causa do cargo de vice-governador. O processo corre ali em segredo de justiça.”

Acrescentei que Clésio Andrade estava sendo também processado pelo Ministério Público mineiro, num caso envolvendo a privatização do Credireal. Ele foi acusado de ter-se aproveitado de “crescente prestígio econômico e político” para obter, em outubro de 1996, a quitação de dívida de R$ 1,8 milhão da SMP&B Publicidade, da qual era sócio, no Credireal.

Desde o começo deste ano, ficou mais difícil julgar e condenar Clésio Andrade, que fez carreira política como vice. Em 1998, foi candidato a vice-governador na chapa de Eduardo Azeredo, que não conseguiu se reeleger, perdendo para Itamar Franco (cujo vice era Newton Cardoso).

Fazendo um parêntesis: Itamar morreu com fama de político honesto, mas não sabia – ou não tinha condições de escolher — companheiros honestos para disputar eleições. Ele será cremado hoje em Contagem, depois de receber homenagens em Juiz de Fora e Belo Horizonte. Espero que não seja esquecido, pelo menos por uma coisa: o ter tirado a Cemig do controle de Daniel Dantas, do grupo Opportunitty. Esse controle havia sido dado pelo antecessor no Palácio da Liberdade, Eduardo Azeredo, com apoio do governo Fernando Henrique Cardoso. Além de ter desafiado seu sucessor no Palácio da Alvorada, Itamar teve a coragem de enfrentar a imprensa que apoiava a qualquer custo a desestatização das empresas públicas.

Em 2002, Clésio elegeu-se vice-governador, mas quatro anos depois o governador Aécio Neves livrou-se dele, convencendo Eliseu Resende a aceitá-lo como primeiro suplente em sua chapa.

Portanto, Minas terá a partir de agora um senador eleito, Aécio Neves, e dois senadores “Bionicães”. Os mais velhos se lembram que assim eram chamados, na década de 1970, os senadores escolhidos pelos ditadores militares, o que muito irritava Murilo Badaró. Esses aí foram escolhidos pelo neto de Tancredo Neves. Ironia da história…