Quem avisa, amigo é (votaram no Itamar, assumiu o Zezé)

"Farinhaço" em protesto para cobrar investigações pelo uso de um helicóptero de um senador da República para tráfico de 445 kg de cocaína. Foto: Léo Fontes/O Tempo.

“Farinhaço” em protesto para cobrar investigações pelo uso de um helicóptero de um senador da República para tráfico de 445 kg de cocaína. Foto: Léo Fontes/O Tempo.

Os leitores deste blog leram meu desabafo no dia 2 de julho de 2011, dia da morte de Itamar Franco. Não escrevi aqui no blog lamentando o falecimento, biografando o ex-presidente ou algo do gênero. O que lamentei, profundamente, de chorar pitangas, foi a posse do primeiro suplente, Zezé Perrela.

Não lembram não, pessoas desmemoriadas? Então CLIQUEM AQUI pra refrescar a memória.

Agora, passados pouco mais de dois anos, o Brasil inteiro está a par de quem é Zezé Perrela, este senhor que os mineiros já conheciam há tempos. O país ficou sabendo por causa de um certo helicóptero, apreendido pela Polícia Federal, que carregava 445 kg de cocaína (nuh!), e que pertence aos Perrela e era abastecido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (de acordo com revelação da repórter Tâmara Teixeira, do jornal mineiro “O Tempo”. Mas o mais legal é ler a entrevista dela com o filho de Perrella: “Mais essa agora que vocês estão me arrumando…“).

O mesmo farinhaço, na porta da ALMG, em foto de Raquel Freitas/G1 MG

O mesmo farinhaço, na porta da ALMG, em foto de Raquel Freitas/G1 MG

Vamos dar o nome certo ao crime? Trá-fi-co. Para quem? A mando de quem? Para onde ia? Quem é o dono daquela fazenda? Quem chefiava? Alguém que transporta 445 kg de cocaína (= R$ 10 milhões) no helicóptero de um senador da República não é peixe pequeno, é um dos maiores traficantes do país. Qual o nome dele? É investigado pela PF? Conhecido? Tem apelido? É de alguma facção? É mineiro? Qual sua ligação com o senador? Esperamos e estamos atentos ao desenrolar dessas investigações. Ou vão me dizer que era pra consumo próprio? 😀

Charge do Adão publicada na "Folha" de 26.11.2013

Charge do Adão publicada na “Folha” de 26.11.2013

Mas esta é só a cereja do bolo. Neste post da “Placar” há um breve histórico de coisas “bacanas” que o senador mineiro vem fazendo nos últimos anos, desde que era cartola do Cruzeiro. Vejam AQUI.

Eu falei: quem avisa amigo é. Mas os mineiros não me ouviram e puseram Perrela no Senado Federal, um dos cargos mais nobres do poder público, por meio do octogenário Itamar Franco. Como diria o chargista Duke:

Charge publicada em "O Tempo" de 29.11.2013

Charge publicada em “O Tempo” de 29.11.2013

Anúncios

Ivete Sangalo, a “cidadã mineira”

EI, VOCÊ AÍ! Me dá seu voto aí, me dá seu voto aí!

Texto de José de Souza Castro:

Ivete Sangalo confirma hoje em sua página no Twitter – com mais de 4 milhões de seguidores – que vai receber neste mês o título de Cidadã Honorária de Minas Gerais. Diz ainda que neste sábado fará show em Juiz de Fora, terra do deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), autor da lei que concede o título à cantora e compositora baiana.

“Estou muito honrada de ser homenageada por esse estado tão lindo”, escreveu Ivete, que, com Minas Gerais, até hoje, só tem uma forte ligação: o dinheiro. Sim, o dinheiro que leva para a Bahia em cada show que faz aqui. O mais recente, dia 9 de outubro, foi em São João Del Rei, terra do avô do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que dizem ser amigo da cantora.

Além do dinheiro, teríamos então outra ligação dela com Minas, embora digam que Aécio é mais carioca que mineiro. Uma busca na Internet revela (na Wikipedia) que Ivete Sangalo, como vocalista da Banda Eva, entre 1993 e 1998, vendeu mais de 3,78 milhões de discos. Na carreira solo, iniciada em 1999, vendeu mais de 12 milhões de cópias.

Será que é possível converter esses milhões em votos?

Pois não é a carreira musical que faz de Ivete uma mineira. Ela tem em seu acervo quase três dezenas de DVDs gravados. Mas só descobri uma música mineira cantada por ela, em gravações: “O Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Foi em 2001, quando o grupo carioca Roupa Nova lançou um álbum em homenagem a compositores mineiros. Ivete Sangalo teve uma participação especial naquela música, que foi cantada por Paulinho.

Muito pouco, para quem nasceu em 1972 em Juazeiro e começou a carreira bem jovem, para merecer o título de cidadã mineira. Ela parece não ter se recuperado ainda da surpresa, pois escreveu hoje no Twitter: “Serei cidadã mineiraaaaaaaa”. E prometeu: “E aí vou brindar muito no dia 22 de outubro em cima do palco, fazendo um super show pra vcs.”

A artista tem motivos para comemorar esse tipo de homenagem. Se bem não faz, também não faz mal. E pode até faturar mais um pouco com esse show. Mas nem todos concordam com o título, que deveria ter sido entregue em julho passado, mas teve que ser adiado por causa da greve dos professores. Entre eles, uma mineira chamada Conceição Lemos, que publicou artigo no blog Viomundo, criticando a homenagem à cantora:

“Só rindo para não chorar. Para os professores mineiros, tropa de choque, espiões, gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha. Já para a Ivete, uma das musas do “Cansei”, a guarda de honra do governador e tapete vermelho.”

Voltando à Internet, só encontrei outro título de cidadã honorária entregue por outro estado a Ivete Sangalo: Pernambuco, terra natal de dona Maria, a mãe dela. Foi entregue em 2001, época em que nosso estado era governado por um mineiro nascido em mares baianos, Itamar Franco. Será por que ele não pensou em prestar a mesma homenagem à cantora baiana famosa? Terá faltado a Itamar a esperteza política do governador Antonio Anastasia Neves? Ou terá sido ele o esperto?

Como saber quantos votos alguém ganha quando dá um título desse a Ivete Sangalo? Pelo jeito, Aécio Anastasia Neves, que quer ser candidato à Presidência da República, acha que tem muito a ganhar. Ah, será onde estará ele no dia em que Ivete Sangalo receber o título? Em Brasília, certamente não.

PMDB mineiro recebe pedido de expulsão de Newton Cardoso

Texto de José de Souza Castro:

Dois deputados federais e o prefeito de Ouro Preto, eleitos pelo PMDB, pediram hoje, dia 11 de julho, ao presidente do diretório estadual a expulsão do deputado federal Newton Cardoso por infrações ao Código de Ética do partido. Acusado de enriquecimento ilícito desde a época em que foi governador de Minas, na década de 1980, a ética de Newton só agora preocupa seus companheiros de partido. Não em defesa da população e dos eleitores, mas deles próprios.

Newton Cardoso foi o dono incontestável do PMDB quando governador, como ele mesmo gostava de dizer. Mas veio colecionando revezes e revoadas de partidários. Na representação apresentada hoje, os deputados Leonardo Quintão e Ivair Nogueira e o prefeito Ângelo Oswaldo, entre outros, destacam alguns desses revezes:

  1. Em 1990, o PMDB lançou o nome de Ronan Tito para o governo mineiro, mas ele não teve apoio do então governador, Newton Cardoso, e foi derrotado por Hélio Garcia.
  2. Em 2002, Newton Cardoso, que era vice-governador, implodiu o processo de reeleição do governador Itamar Franco e se lançou candidato, obtendo apenas 7% dos votos válidos ao Governo de Minas. O PMDB perdeu sete das 13 cadeiras na Câmara dos Deputados e o mesmo número na Assembleia Legislativa, elegendo apenas nove deputados estaduais.
  3. Em 2008, ele detonou a candidatura do deputado Leonardo Quintão a prefeito de Belo Horizonte. Depois de conseguir ir para o segundo turno, com 41,26% dos votos válidos, Quintão foi surpreendido com o apoio não solicitado de Newton Cardoso, o que foi explorado amplamente na propaganda eleitoral dos adversários, e “o PMDB viu sua campanha ruir”.
  4. Em 2010, após ser derrotado por Hélio Costa na Convenção Estadual do PMDB, Newton Cardoso usou a mesma estratégia: postou um vídeo no Youtube de apoio a Hélio Costa ao governo de Minas. Diz a representação: “O vídeo em questão, de tom jocoso, demonstra claramente que Newton Cardoso o produziu e o publicou para prejudicar a candidatura de Hélio Costa, pois a rejeição de Newton Cardoso na região metropolitana de Belo Horizonte é extraordinária.”

Neste ano, Newton Cardoso apresentou ao Diretório Estadual 194 pedidos de intervenção em diretórios municipais, “uma verdadeira caça às bruxas”. O diretório deferiu apenas quatro delas, o que irritou o deputado. Em matéria publicada no jornal “Hoje em Dia”, há cinco dias, Newton Cardoso teria dito: “Isso não é executiva. É um bando”. E em entrevista à revista “Encontro”, deste mês de julho, ele chamou toda a Executiva do PMDB Estadual de bandidos, acrescentando: “Bandidos não podem continuar à frente do PMDB”.

Como se dizia antigamente, “é o porco falando do toucinho”.

A morte de Itamar e a volta do “Bionicão”

Texto de José de Souza Castro:

A morte de dois senadores mineiros neste ano – Eliseu Resende e Itamar Franco – reforça a ideia de que é preciso mudar a legislação eleitoral, principalmente em relação à escolha dos suplentes de senadores. Com a morte dos eleitos, seus suplentes, Clésio Andrade e Zezé Perrella, passam a representar Minas Gerais no Senado. Eles chegaram ao cargo por acordos de caciques partidários, não pelo voto dos eleitores.

O repórter Raphael Veleda, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Minas, lembra hoje que o cartola do Cruzeiro Zezé Perrella “se tornou primeiro suplente de Itamar após negociação feita pelo senador Aécio Neves (PSDB) para ter o PDT na aliança que elegeu o tucano Antonio Anastasia ao governo estadual”.

E acrescenta: “Perrella foi indiciado pela Polícia Federal no ano passado, sob suspeita de lavagem de dinheiro na venda do zagueiro cruzeirense Luisão ao Real Madrid, em 2003, e é investigado pelo Ministério Público, sob suspeita de ocultar patrimônio. À Justiça Eleitoral, declarou menos de R$ 500 mil. Denúncias veiculadas na imprensa mineira afirmam que ele é dono de uma fazenda que valeria cerca de R$ 60 milhões. Perrella afirma que a propriedade pertence a uma empresa de seus filhos.”

Clésio Andrade também não é um santo. Em setembro de 2006, quase na véspera da eleição de Eliseu Resende, escrevi no blog Tamos com Raiva que, em 2004, o Ministério Público Federal (MPF), no rastro das investigações da Polícia Federal contra doleiros, acabou pedindo a quebra do sigilo bancário de seu suplente, por suspeita de lavagem de dinheiro para financiamento de campanha eleitoral em operações realizadas por duas instituições dirigidas pelo vice-governador de Minas, Clésio Andrade. São elas: Instituto de Desenvolvimento, Assistência Técnica e Qualidade de Transporte (Idaf), vinculada à Confederação Nacional de Transportes (CNT), presidida por Clésio desde 1993, e Instituto J. Andrade, de Juatuba, cuja entidade mantenedora é também presidida por Clésio. “O juiz Jorge Macedo Costa, da 4ª Vara Federal em Belo Horizonte, determinou em 27/7/2004, a quebra do sigilo bancário dos dois institutos, mas, antes que isso ocorresse, foi obrigado a remeter o processo ao Superior Tribunal de Justiça, por causa do cargo de vice-governador. O processo corre ali em segredo de justiça.”

Acrescentei que Clésio Andrade estava sendo também processado pelo Ministério Público mineiro, num caso envolvendo a privatização do Credireal. Ele foi acusado de ter-se aproveitado de “crescente prestígio econômico e político” para obter, em outubro de 1996, a quitação de dívida de R$ 1,8 milhão da SMP&B Publicidade, da qual era sócio, no Credireal.

Desde o começo deste ano, ficou mais difícil julgar e condenar Clésio Andrade, que fez carreira política como vice. Em 1998, foi candidato a vice-governador na chapa de Eduardo Azeredo, que não conseguiu se reeleger, perdendo para Itamar Franco (cujo vice era Newton Cardoso).

Fazendo um parêntesis: Itamar morreu com fama de político honesto, mas não sabia – ou não tinha condições de escolher — companheiros honestos para disputar eleições. Ele será cremado hoje em Contagem, depois de receber homenagens em Juiz de Fora e Belo Horizonte. Espero que não seja esquecido, pelo menos por uma coisa: o ter tirado a Cemig do controle de Daniel Dantas, do grupo Opportunitty. Esse controle havia sido dado pelo antecessor no Palácio da Liberdade, Eduardo Azeredo, com apoio do governo Fernando Henrique Cardoso. Além de ter desafiado seu sucessor no Palácio da Alvorada, Itamar teve a coragem de enfrentar a imprensa que apoiava a qualquer custo a desestatização das empresas públicas.

Em 2002, Clésio elegeu-se vice-governador, mas quatro anos depois o governador Aécio Neves livrou-se dele, convencendo Eliseu Resende a aceitá-lo como primeiro suplente em sua chapa.

Portanto, Minas terá a partir de agora um senador eleito, Aécio Neves, e dois senadores “Bionicães”. Os mais velhos se lembram que assim eram chamados, na década de 1970, os senadores escolhidos pelos ditadores militares, o que muito irritava Murilo Badaró. Esses aí foram escolhidos pelo neto de Tancredo Neves. Ironia da história…

Itamar morre, Perrela se empodera

Na época da campanha, eu falei, tuitei, postei, berrei, gritei: não votem no Itamar Franco para senador, porque seu primeiro suplente é José Perrela. Se acontecer algo com Itamar, quem vai ocupar a vaga do Senado? Quem? Perrela.

E eis que Itamar morre, neste sábado de 2 de julho, e Perrela ocupará o poder no Senado até 2019.

Boa sorte à mineirada.

Você não é mineiro, não conhece o Perrela? Dê uma busca no Google com as palavras “José Perrela” e “processo”. Aparecem 469 resultados. Há quem escreva “Perrella” também.