Pica-Pau: mocinho ou bandido?

Eu estava tomando café da manhã e, sem nada melhor passando na TV, como é hábito aos domingos, fui ver os desenhos do Pica-Pau.

Quando a gente vê esses desenhos quando criança, só temos em mente que existe um herói, o Pica-Pau, e seus inimigos, que são malvados e ele precisa combater. Com a vantagem de que todos são torturados e assassinados mil vezes, mas nunca morrem.

Vendo agora, outros detalhes saltam aos olhos:

O bandido fumando, os dois entram em um butecão copo-sujo e pedem uma cachaça, enquanto um sujeito que está no bar está soluçando e cambaleando de tão bêbado. Em outro episódio, o Pica-Pau trabalha como gari e é humilhado por um xerife; quando vai revidar, o xerife mostra o distintivo e bate nele com um cassetete, para registrar quem é que manda ali (lembra algumas pessoas reais?). Em outro, Pica-Pau e o bandido tentam se matar com um machado, uma bomba, uma flecha gigante, uma espingarda, um fosso de crocodilos, um canhão, um serrote, um martelo gigante e outras armas letais. Pica-Pau só se livra do bandido quando o despacha por um elevador, cujo ascensorista é o demônio em pessoa. Tudo para destruir uma apólice – que criança nenhuma sabe o que significa.

A turma do politicamente correto arrepiaria ao ver tudo isso em um desenho animado infantil, né?

Eu só digo uma coisa: eu própria e outras várias gerações assistimos (e assistirão, inclusive meus filhos) a tudo isso em Pica-Pau, e também no Popeye, Tom e Jerry, Piu-Piu e Frajola, Pernalonga, e em desenhos mais “modernos” como He-man, Caverna do Dragão etc. Até em Ursinhos Carinhosos era bem capaz de haver umas maldades.

E daí? Além de não terem formado assassinos em massa, ou fumantes e alcoólatras compulsivos, esses desenhos podem ter nos ajudado a perceber como é tênue a linha que separa os bandidos dos mocinhos, neste mundo que se presta a tudo, menos ao maniqueísmo.

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