- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Há quase três anos, escrevi o seguinte aqui no blog: “Toda distopia funciona como um alarme, uma sirene frenética, para os perigos a que estamos sujeitos quando falhamos enquanto sociedade.”
Eu estava me referindo ao clássico “Admirável Mundo Novo“, de Aldous Huxley. Mas poderia estar falando de “Filhos de Sangue“, “O Conto da Aia” ou deste incrível “Os Corações Perdidos”, de Celeste Ng.
Eu já tinha lido as duas obras anteriores desta escritora (Tudo o que nunca contei e Pequenos incêndios por toda parte) e já tinha amado – tanto que escrevi que “mal posso esperar pelo próximo”.
Mas este terceiro livro dela, publicado em 2022, é o melhor de todos.
Ele bebe da fonte de Huxley, Margaret Atwood, Octavia E. Butler e outros adeptos das distopias na literatura. E, como naqueles clássicos, serve de alerta para situações perigosamente verossímeis na nossa realidade atual.
No livro, o medo provocado por uma grande crise, que leva os Estados Unidos a um colapso econômico e social, acaba abrindo uma brecha para que fosse instaurado um regime de fanatismo, racismo, xenofobia e ódio institucionalizado.
A PACT – uma lei criada pelo governo norte-americano, digamos que algo como nosso AI-5 – abre espaço para delações, vigilância constante entre os vizinhos, censura, queima de livros em praça pública, perseguições, prisões e desaparecimentos.
O “grande inimigo” da vez são a China e os chineses, apontados como culpados pela crise antes da PACT. O que abre espaço para perseguição generalizada, linchamentos, humilhações e outras formas de violência dirigidos a qualquer um com traços minimamente asiáticos.
Pra piorar, crianças são usadas como forma de controle político, sendo removidas de suas famílias, tiradas de pais considerados “subversivos” – com ou sem “motivo”.
Isso pode parecer mera ficção, mas não é. Como disse a autora na nota ao final do livro:
“Tantos nos Estados Unidos quanto em outros lugares, existe uma longa história de remoção de crianças como forma de controle político. Se isso tocar você, como espero que aconteça, por favor, informe-se mais sobre as muitas ocasiões, tanto passadas quanto atuais, em que crianças foram separadas de suas famílias: a separação de famílias escravizadas, os colégios internos para crianças indígenas (…), as desigualdades do sistema de acolhimento, as separações de famílias de migrantes que ainda ocorrem na fronteira sul dos Estados Unidos, entre outras.”
São várias as inspirações em “eventos reais, tanto passados quanto atuais”, usadas pela autora em seu pano de fundo ficcional. A leitura evoca episódios da história como a ditadura militar brasileira, o Holocausto, e a discriminação contra asiáticos, que inclusive aumentou nos Estados Unidos durante a pandemia da Covid-19.
Sobre a questão da imigração, a escritora Celeste Ng, que é norte-americana filha de pais chineses, disse em entrevista de 2018 que o estereótipo instituído sobre os imigrantes afetou sua percepção de mundo e pautou os temas de suas obras:
“Eu nasci nos EUA, meus avós em Hong Kong. Porém, diferentemente do Brasil, por exemplo, onde eu seria brasileira e ponto, aqui eu jamais poderia ser só americana. Muitos de nós somos sempre alguma coisa + americana. No meu caso, asiática-americana, ou sino-americana, mas nunca, jamais, apenas americana. Algo central na minha literatura é o fato de eu sempre ter vivido a realidade muito clara de que os outros não me viam como eu me sabia ser. O estereótipo instituído afetou a maneira como eu passei a perceber o mundo à minha volta e pautou os temas que tenho interesse em discutir nos livros. Hoje, especialmente, vivo a realidade de que, a qualquer momento alguém pode gritar: volte para o seu país! Ou mesmo coisas piores.”
Ela também antecipou o que abordaria neste livro tão precioso, que ainda estava sendo escrito:
“Minha arte é, inevitavelmente, política. Meu próximo livro, que já comecei a rascunhar, irá refletir esta terrível reação conservadora de proporções planetárias de nossos tempos. Quero tratar dos limites que esta nova sociedade que construímos impõe a pessoas como eu. O que ela permite às mulheres? E às mulheres não brancas? E às mulheres não brancas, e mães? Quais são as fronteiras que ela tenta nos impor?”
“Os Corações Perdidos” é, portanto, assumidamente uma pérola política. Muito bem escrita, que traz aquela “sirene frenética” que mencionei logo no início. E que também explora maravilhosamente a relação entre mães e filhos, como as duas obras anteriores.
Mas também é uma homenagem às artes, em especial à poesia. Que mostra a força dos livros, dos versos, das bibliotecas, dos protestos pacíficos, das mentes pensantes, em um mundo de fanatismo e patriotismo emburrecedores.
Como escreveu Stephen King, é “uma reflexão sobre o poder, por vezes, acidental das palavras, a força de uma história e a persistência da memória”.
Palavras, histórias, memória. Não há “armas” melhores que estas para combater o medo e o ódio que vez por outra ganham força no mundo de novo.
Os Corações Perdidos
celeste Ng
Ed. Intrínseca
335 páginas
R$ 24 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Leia as resenhas de outras autoras norte-americanas aqui no blog:
- O Sol é Para Todos, de Harper Lee
- Uma Árvore Cresce no Brooklyn, de Betty Smith
- Em busca de um final feliz, de Katherine Boo
- Kindred – Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
- A vida do livreiro A. J. Fikry, de Gabrielle Zevin
- Uma Questão de Química, de Bonnie Garmus
- Clube de Leitura dos Corações Solitários, de Lucy Gilmore
- O Olho Mais Azul, de Toni Morrison
- O Bom Ladrão, de Hannah Tinti
- A Contadora, de Freida McFadden
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