- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Um dos livros que recomendei às crianças que participaram da minha oficina de educação midiática foi este “A Geração Incrível”, de Jonathan Haidt e Catherine Price, com belas ilustrações de Cynthia Yuan Cheng.
Super atual, o livro foi lançado em 2025 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil agora em 2026, pela Companhia das Letrinhas. Ele se apresenta como “um guia para ser livre e se divertir num mundo cheio de telas”.
Embora eu não tenha gostado muito da narrativa repetitiva, cheio de “magos da tecnologia” versus “rebeldes”, a crítica que o livro faz à forma como as telas vêm viciando e fazendo mal às pessoas (notadamente as crianças e adolescentes) é incontestável e necessária.
Muitas das informações que o pesquisador e psicólogo social Jonathan Haidt e a jornalista de saúde e ciência Catherine Price trazem eu seu livro já apareciam, por exemplo, no ótimo documentário “O Dilema das Redes”, de 2020. A diferença é que o filme tem classificação indicativa de 12 anos, e este livro tem uma linguagem ainda mais didática, tornando-se acessível para crianças a partir dos 8 a 10 anos, por exemplo.
O livro não chega a abordar a questão da polarização, das eleições e das fake news, como o documentário, mas toca nestes outros pontos em comum:
- que as redes sociais deixaram as pessoas totalmente viciadas,
- que deixaram as pessoas mais agitadas e ansiosas
- e que contribuíram para a piora na saúde mental e autoestima, aumentando os casos de depressão, automutilação e suicídio, principalmente entre os adolescentes e pré-adolescentes.

Ele é dividido em 3 partes, além da introdução e conclusão:
- A ascensão dos magos da tecnologia, ou seja, os executivos que criaram Google, Meta, TikTok etc (e suas mentiras)
- Os segredos dos magos da tecnologia (eles não vendem produtos, vendem você; aplicativos “grátis” podem custar caro; eles estão hackeando seu cérebro; estão também reprogramando seu cérebro; e eles sabem que seus produtos estão prejudicando as crianças)
- Como se rebelar
Quem me acompanha sabe que eu venho abordando tudo isso aqui no blog, com bastante frequência, nesses últimos 16 anos no ar (veja alguns posts no pé deste).
Por exemplo, em 2019 eu já escrevi este post: O smartphone é mais viciante que o cigarro – e é isso que as gigantes da tecnologia querem.
Mas é bom existir um livro reunindo tanta coisa de forma tão didática, voltado para crianças e adolescentes, e ainda mesclando ciência/informação a uma HQ simpática que conta uma historinha e gera identificação.

Duas regras que devemos seguir neste mundo cheio de telas
Gostei especialmente do último capítulo, que mostra aos jovens como eles podem se rebelar contra tudo isso. O livro propõe 2 regras bem simples, que acho que todo mundo deveria seguir:
#1 Use a tecnologia como uma ferramenta, em vez de deixar que a tecnologia use você.
#2 Encha sua vida de amizades, liberdade e diversão de verdade.
No meu post de 12 de agosto, sobre inteligência artificial, por exemplo, eu também defendi que ela seja usada como uma ferramenta útil, e a comparei a uma calculadora:
“A IA pode ter suas utilidades, como a velha calculadora sempre teve. (…) Se eu verifico que a IA é boa em fazer tabelas, e sempre me entrega tabelas com qualidade que atende o meu nível de exigência, posso continuar usando ela pra isso, por exemplo. Ela é uma ferramenta útil nesse caso.”
O livro faz o mesmo, e até compara o celular a um canivete, nas páginas 162 e 163:
“Se a tecnologia ajuda você a aprender, a se tornar a pessoa que você quer ser ou a realizar algo importante, então sim: é uma ferramenta útil. Por exemplo, se você usa a inteligência artificial para aprender um conceito matemático que não entendeu na aula ou se usa um aplicativo de línguas para ajudar você a aprender vocabulário de um novo idioma, está fazendo bom uso da tecnologia.”
3 perguntas que devemos nos fazer para saber usar a tecnologia com inteligência
Nessa mesma parte, o livro ensina os jovens a se fazerem 3 perguntas para saber usar as telas e a tecnologia com inteligência, diferenciando aquilo que pode prejudicar ou viciar daquilo que pode tornar suas vidas melhor.
São elas:
#1 Pode ser usada como uma ferramenta útil?
#2 Pode ser usada para ter amizades reais, liberdade real ou diversão real?
#3 Foi feita para viciar?
São boas perguntas para ser feitas por todos nós, pessoas de todas as idades. Muito válidas, por exemplo, para o Instagram. Que é sabidamente uma rede social feita para viciar, então cabem as outras duas perguntas: será que o Instagram está sendo útil para você? E está proporcionando experiências reais de amizade e diversão?
Sugiro que faça estas perguntas a você mesm@ e veja o que encontra 😉
10 dicas para ajudar a reduzir o vício em telas
A seguir, algumas dicas que o livro traz para reduzir o vício em telas:
- Tornar os aparelhos menos tentadores (dá para deixar a tela em preto e branco, por exemplo, ou sem ícones na tela inicial, para reduzir os gatilhos)
- Bloquear todas as notificações de aplicativos, principalmente as sonoras (fiz isso há anos e recomendo muitíssimo para todo mundo!)
- Deletar aplicativos que só servem para sugar o tempo
- Parar de usar o celular pelo menos uma hora antes de ir dormir
- Estabelecer limites de tempo, inclusive para os videogames (alguns apps têm lembretes para fazer pausas)
- Nunca conversar com desconhecidos na internet (incluindo nas redes sociais e nos chats de jogos online) e jamais mandar fotos para eles (regra especialmente importante quando estamos falando de crianças e adolescentes, que são mais vulneráveis a pessoas mal-intencionadas)
- Desativar a reprodução automática de vídeos no YouTube e outras plataformas de vídeo
- Não seguir as recomendações dos algoritmos: navegar pelo YouTube e outras redes de acordo com SEU interesse
- Evitar shorts: vídeos curtos prejudicam nossa capacidade de concentração
- Não acreditar em tudo o que é dito nas redes, inclusive pelos influenciadores, porque não há verificação do que é verdade ou mentira.
Eu já tinha dado algumas destas dicas aqui no blog. Por exemplo, nos posts abaixo:
- 2019: Como reduzir o uso do smartphone: 11 coisas que eu fiz e que funcionaram
- 2024: 3 passos simples para diminuir o tempo de tela
- 2024: Redes sociais: o que VOCÊ pode fazer para combater os problemas que elas causam?
80 ideias para se divertir sem celular
Por fim, compartilho aqui as 80 ideias para se divertir sem celular, que aparecem nas páginas 214 e 215 do livro. São mais voltadas para crianças e adolescentes, mas também podem e devem ser feitas pro pessoas de todas as idades (por que não?).
Grifei em negrito meus hobbies favoritos que apareceram entre elas:
- Jogar frisbee
- Aprender a fazer malabarismo
- Explorar um lugar novo
- Aprender a tocar um instrumento
- Montar uma banda
- Acampar
- Aprender uma arte marcial
- Aprender a costurar
- Consertar alguma coisa
- Construir alguma coisa
- Desenhar
- Pintar
- Jogar bola
- Ler um livro
- Aprender a nadar (ou simplesmente nadar, eu diria)
- Aprender como algo funciona
- Jogar boliche
- Ser voluntário
- Aprender a cozinhar
- Experimentar uma comida diferente
- Andar de bicicleta
- Mandar um cartão-postal
- Fazer um favor
- Tricotar um cachecol
- Construir um forte
- Redecorar seu quarto
- Entrar para um clube do livro
- Fazer uma noite de filmes
- Dar uma festa do pijama
- Escrever um diário
- Fotografar
- Observar as estrelas
- Fazer uma caminhada
- Inventar uma dança
- Cantar no karaokê
- Montar um quebra-cabeça
- Jogar um jogo de tabuleiro
- Fazer um álbum de fotografias
- Escrever uma newsletter
- Ficar olhando as nuvens
- Identificar pássaros
- Ajudar um vizinho
- Fazer um piquenique
- Patinar
- Empinar pipa
- Aprender origami
- Fazer suas próprias bijuterias
- Brincar com um cachorro
- Fazer uma cápsula do tempo
- Aprender a resolver um cubo mágico
- Fazer algo legal para um amigo
- Escrever um conto
- Aprender a jogar xadrez
- Aprender a jogar ioiô
- Fazer uma competição de aviõezinhos de papel
- Acordar para ver o nascer do sol
- Ler a biografia de alguém incrível
- Experimentar um esporte novo
- Fazer uma trilha
- Fazer biscoitos
- Fazer uma pulseirinha da amizade
- Se apresentar a alguém novo
- Pescar
- Jogar pedras na água
- Escrever um bilhete agradecendo a alguém importante na sua vida
- Comer ao ar livre
- Conhecer a história da sua cidade
- Ouvir uma música nova
- Aprender a assoviar
- Subir em uma árvore
- Deitar na rede
- Fazer café da manhã para seus pais
- Montar uma peça de teatro
- Fazer teste para entrar em um time ou uma peça de teatro
- Aprender a plantar bananeira
- Escrever um poema
- Compor uma música
- Aprender um truque de mágica
- Aprender a fazer animais de bexiga
- Inventar alguma coisa
Veja também: 10 ideias para se desconectar da rotina de trabalho e das telas
Enfim, gostei da leitura e acho que este é um livro útil e cheio de dados interessantes para pessoas de todas as idades, mas especialmente para crianças e adolescentes. Vale a pena ler, conhecer e presentear com ele ;)

A geração incrível: um guia para ser livre e se divertir num mundo cheio de telas
Jonathan Haidt e Catherine Price
Ed. Companhia das Letrinhas
240 páginas
R$ 44 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Você também vai gostar destes posts:
- 2011: Pra que servem as redes sociais??
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- 2019: O smartphone é mais viciante que o cigarro – e é isso que as gigantes da tecnologia querem
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