- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Em escala global, estima-se que 46,2% dos adultos e 17,9% dos adolescentes tenham jogado ou apostado no último ano, segundo o “Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas” que o Ministério da Saúde lançou em 2026.
Os danos à saúde associados a apostas podem gerar um custo à sociedade de pelo menos R$ 30,6 bilhões ao ano, segundo dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) de dezembro de 2025.
“Os custos dos danos à saúde associados ao jogo são de R$ 17 bilhões relativos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões relativos à depressão, sendo R$ 10,4 bilhões pela perda de qualidade de vida e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos“, diz o texto de divulgação do dossiê.
Outro estudo apontou que as bets viraram o maior motor do endividamento das famílias no Brasil. Trecho de matéria da Agência Câmara mostra o quanto elas empobreceram seus usuários:
“Segundo o Ministério da Fazenda, eram pouco mais de 25 milhões de apostadores em 2025, cerca de 18% da população adulta. São especialmente homens, de 18 a 50 anos, que perderam cerca de R$ 38 bilhões no ano passado. O total de apostas seria de quase dez vezes isso.”
Por tudo isso, acredito que as bets já sejam tão ou mais prejudiciais quanto as drogas pesadas, como cocaína, crack e heroína. Com o agravante de serem legalizadas no Brasil, com direito a propaganda insistente em todos os canais de mídia, camisas de times de futebol e perfis de “influencers”.
A comparação saiu na coluna do Antônio Prata, publicada em 27 de junho pela Folha de S.Paulo. Concordo com ele e tomo a liberdade de reproduzir o texto na íntegra abaixo, para que fique registrado aqui no blog:
Cassino
– Por Antonio Prata (coluna publicada na Folha de S.Paulo em 27.6.2026)
Imagina se em vez de legalizar o jogo, o Congresso tivesse legalizado drogas. Todas. E elas fossem a principal patrocinadora da Copa do Mundo.
“E começa a partida! Partida que fica mais animada com a Copacoca! A cocaína da torcida brasileira! Tá vendo o QR code aí no canto da tela? É só escanear e correr pro abraço, em meia hora a Copacoca tá aí na sua casa! Cheirou, é gooool! O Brasil toca a bola no campo de defesa. Casimiro. Pra Vini Jr. Vini é craaaaaaaaque! É craaaaaaaaque! Será que ele vai ser o craque da partida? Será? Será? Entra agora no nosso App, diz quem você acha que vai ser o craque da partida e você concorre a três pedras de crack e um cachimbo oficial da Seleção Brasileira! Brasil no ataque. Vini volta com Casimiro. Passa pra Neymar. Neymar aí que conseguiu se recuperar a tempo da Copa, Neymar herói, herói, herói, e herói chama o que? Herói chama heroína! Foi gol? Injetou! Viajou! Lembrando que é só pra maiores de dezoito anos e que pra mais emoção, injete com moderação!”.
Não sei se o locutor dormiria melhor por dizer a última frase. Eu não. Que hipocrisia enorme é vender um vício e pedir moderação. Se a loteria é a maconha, as bets são a cocaína. Ninguém tem overdose de maconha, assim como não se vai a falência jogando na Mega-Sena. Bet é droga pesada. Já ouvi mais de uma história de pessoas se arruinando por apostar em lateral, gol, escanteio. É criança pegando o cartão dos pais, marido apostando com o dinheiro da esposa. A prima da minha diarista economizou 15 mil reais ao longo da vida. Fazendo faxina. Cozinhando. Lavando roupa. O marido gastou tudo, sem que ela soubesse.
Outro fator agravante. A loteria lida com números aleatórios, mas apostar nas bets pega numa fraqueza nacional: todo homem brasileiro acredita ser o Guardiola, o Telê, o Ancelotti. Faz parte da nossa masculinidade frágil uns delírios de grandeza. Acreditamos até que poderíamos estar em campo. Na Copa de 2014 fiz uma crônica sobre aquele ser o último mundial em que poderia jogar. Ao me dar conta que estava com 33 anos e que em 2018 teria 37. Claro que, perna de pau como sempre fui e tendo me dedicado a vida toda não aos gols de letra, mas às letras sem gols, havia zero possibilidade de jogar na seleção. Em algum lugar do inconsciente, contudo, havia esse desejo latente, que parou de latir.
Tá todo mundo caindo de pau na Cazé TV, com razão, mas ela é só a boca de fumo (de crack, de pó) mais visível. Toda a mídia tá comprada pelas milícias das apostas, hoje os maiores anunciantes, depois do governo. Se você libera um troço desses, com tanta grana, é claro que quem vive de propaganda vai aderir.
Faz umas semanas, a colunista da Folha Deidre Nansen McCloskey escreveu uma coluna falando sobre o erro que é deixar decisões importantes nas mãos do estado. “É melhor deixar para os mercados e outras interações humanas voluntárias a maior parte do que o Estado tenta planejar, organizar, ordenar e moldar.” Falava sobre a série “The West Wing”, em que um governo de centro esquerda tentava governar. Cara Deidre, olhe pro mundo hoje. Os governos e os cidadãos são reféns do mercado, que convence pessoas pobres a gastar suas parcas economias em cassinos. É melhor deixar bets, Elons Musks, Jeffs Bezos e Marks Zuckerbergs darem as cartas? Acha que está funcionando?
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P.S. É possível bloquear os sites de apostas para que nunca acessem seu CPF por meio da Plataforma de Autoexclusão, criada pelo governo federal. Basta entrar com login e senha no site do Gov.br e escolher a opção “Solicitar ou consultar minha exclusão das plataformas”. Você pode escolher até mesmo exclusão por “prazo indeterminado”. Ao confirmar a autoexclusão por prazo indeterminado, você ainda deixa de receber, de forma direcionada, comunicações de marketing, publicidade ou promoções enviadas por operadores autorizados pelo Ministério da Fazenda. Fica a dica, ajude a compartilhar ;)
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