- Texto escrito por Beto Trajano
Ninguém aguenta mais ouvir falar de bets e tigrinhos, mas infelizmente temos que continuar falando a respeito, pois temos milhões de pessoas empobrecendo neste buraco e um grupinho muito seleto nadando em dinheiro.
Nesta semana, tivemos um latrocínio brutal em BH, que tudo indica que foi cometido por uma endividada do tigrinho. Todo dia tem notícia de gente que perde, não só a cabeça, mas todas as economias e rendas com este mau negócio.
Olhe ao seu redor. Talvez você ache que não conhece ninguém que esteja se estrepando nos jogos online, mas você conhece sim. Pode ter certeza. Apenas não descobriu ainda, porque as pessoas gostam mesmo é de perder dinheiro em silêncio, na miúda.
Fui um dos primeiros a levar este tema aos estudos acadêmicos de jornalismo. E vou divulgar meu artigo novamente aqui, para falar também do processo criativo da publicação de uma pesquisa científica.
O artigo, que ficou com o título até grande demais, “Análise crítica e criativa da série Bets, o jogo sujo que ninguém comenta, do ICL notícias: contribuições para método de avaliação de qualidade no jornalismo audiovisual”, começou a ser construído em uma cadeira sobre educação midiática na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que fiz durante o meu mestrado na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Como trabalho final, as professoras pediram para a gente analisar um produto audiovisual. Mas tinha que ser um material com relevância social, com possibilidade de uso na educação midiática. Elas indicaram ainda a metodologia a ser aplicada.
Era setembro de 2024, e as notícias sobre o vício em bets estavam começando a aparecer. Foi na época que o governo “descobriu” que o dinheiro do Bolsa Família estava indo direto para as casas de apostas.
Ao mesmo tempo, os maiores canais de comunicação estavam faturando alto, junto com times de futebol, artistas, influencers e atletas. Pouco ou quase nada se falava sobre os riscos sociais destes “joguinhos”.
O ICL Notícias foi lá e fez um documentário bem denso sobre o tema (assista aos quatro episódios ao longos deste post). Que teve o conteúdo prejudicado porque nesta cadeia da fortuna – casas de aposta, times de futebol e canais de mídia – ninguém quis falar.
Todo mundo se escondeu no buraco, um buraco diferente, é claro, daquele que as pessoas estavam começando a ser enterradas. Sabem que estão fazendo coisa errada, mas se escondem porque querem continuar lucrando com a desgraça alheia.
Entreguei o trabalho de análise do material, utilizando a metodologia solicitada e acrescentando mais uma, na tentativa de aprofundar ainda mais a análise. Tirei total no fim do semestre, com um feedback positivo da proposta.
Fiquei com o trabalho engatilhado, querendo publicar. No ano seguinte, em 2025, chamei minha orientadora Luana Viana para lapidar a pesquisa e submeti o texto nas inscrições para o seminário de 30 anos do jornalismo digital, realizado pelo GJOL, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Submissão aceita.
Voei para Salvador e apresentei o estudo durante o evento. Ao mesmo tempo, o resumo havia sido pré-aprovado para virar artigo e ser publicado no dossiê especial de 30 anos do jornalismo digital, na revista Contemporânea, também da UFBA, Qualis A.
Luana participou comigo da finalização do artigo. Os pareceristas sugeriram algumas mudanças, inclusive este título gigante que usamos. Mais uma edição, e o trabalho seguiu o fluxo da revista. Depois, ainda passou por uma revisora, fizemos os ajustes propostos por ela. E, em dezembro de 2025, o artigo foi publicado.
Acredito que seja o primeiro a investigar a pauta das bets no jornalismo brasileiro, e também o primeiro trabalho acadêmico sobre o ICL Notícias – um veículo que vem conquistando espaços importantes no país – e sem dinheiro de casas de apostas.
Estamos agora em 2026, eis que a Copa do Mundo vira a Copa das Bets, principalmente por causa da Cazé TV. Sempre que vejo alguém exaltando a jornada deste canal, eu falo: o Cazé cresceu com dinheiro das bets, é o canal oficial das casas de apostas, cresceu às custas do endividamento de muitas pessoas, e não porque tem uma linguagem “descolada”, como andam dizendo por aí.
Enfim, faz parte da cadeia atual, uma pena. Não é só o tal gordinho que derrubou a hegemonia da Globo, é também o gordinho que contribuiu para o endividamento de milhares de famílias.
É isso, pessoal, rodar um estudo acadêmico é uma jornada longa e coletiva. Para cada artigo que colocamos em circulação tem muita gente e trabalho envolvido. Mas é muito gratificante quando o texto sai na revista e muito importante que as discussões acadêmicas incorporem assuntos de relevância social, podendo assim contribuir para a compreensão das nossas realidades.
Por fim, para todos os amigos, as amigas, os conhecidos, os parentes, os desconhecidos e até inimigos, eu passo um mantra, gritado:
NÃO JOGUE nas bets, NÃO JOGUE no tigrinho. NÃO JOGUE, não jogue, NÃO JOGUE, não jogue. Você vai se ferrar.
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