A história de Douradinho, e de como os peixes sentem emoções

O peixe Douradinho em suas horas finais de vida, no chão do aquário.
O peixe Douradinho em suas horas finais de vida, no chão do aquário.

Será que peixes têm sentimento? Podem sofrer, como os humanos? Sentem dor? Sentem emoções, como luto ou saudades?

Fiquei me perguntando isso na semana passada, entre domingo e segunda-feira, quando nosso peixinho ficou agonizando no aquário.

É fácil perceber e entender as emoções dos cachorros, por exemplo. Conseguimos ver quando a Chica está alegre, triste, nervosa, tensa, com medo ou raiva. Ela late, balança o rabo, pula, corre, rosna, chora ou simplesmente nos olha com muita intensidade.

Chica, a stabyhoun que chegou até nós e trouxe muita alegria. Fotos: arquivo pessoal

Mas os peixinhos ficam só ali no aquário, nadando de um lado pro outro. No máximo se agitam na hora que abro a tampa para jogar a comida. Tudo o que podemos fazer, ao vê-los, é interpretar.

Compramos o aquário no Natal de 2022. Com ele, dois peixinhos Kinguio, que batizamos de Laranjinha e Douradinho.

Laranjinha não resistiu por muito tempo. Depois dele ainda compramos mais dois peixinhos, sempre Kinguio, para fazer companhia ao Douradinho, e os dois morreram rapidamente.

Resolvemos deixar o Douradinho sozinho no aquário por um tempo, mas – aí vem de novo a interpretação! – logo achamos que ele estava se sentindo solitário. Por isso, no fim de 2025, comprei um Kinguio beeeem miudinho, que batizamos de Pulguinha.

Os dois viviam em muita harmonia. Pulguinha crescendo a olhos vistos, e Douradinho com o mesmo jeitinho de sempre, bem glutão, firme e forte desde 2022.

Até que, no domingo em que o inverno começou, percebemos que ele estava encostado no chão do aquário, bem paradinho. Ele ainda estava se movendo, respirando, mexendo as nadadeiras, mas sem conseguir nadar. Interpretamos mais uma vez: ele parecia estar sofrendo.

Ficou assim por horas, e nós acompanhamos agoniados, sem saber como podíamos ajudar. Pensei até que poderíamos tê-lo matado de vez, para poupar seu sofrimento, mas não tive coragem. E fiquei sempre com aquele medo de estar interpretando errado, de na verdade ele estar só com algum problema temporário, e quem sabe, já aparecer bem melhor no dia seguinte.

Mas o dia seguinte chegou e ele tinha morrido.

A plaquinha que o Luiz colocou para o Douradinho depois que ele morreu. Ao fundo, o Pulguinha, que ficou com saudades.
A plaquinha que o Luiz colocou para o Douradinho depois que ele morreu. Ao fundo, o Pulguinha, que ficou por ali, com saudades.

Resolvi pesquisar se os peixes, afinal, sentem dor e outras emoções. Achei dois textos bem interessantes a respeito.

O primeiro, de 2007, é um artigo chamado “Senciência e bem-estar de peixes“, assinado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná e da Embrapa. Os autores dizem que:

  • diversos trabalhos revelam comportamentos indicadores de memória e também de capacidade de aprendizagem complexas em peixes;
  • os peixes podem sentir emoções como medo (“Os sinais que indicam que os peixes estão com medo em um dado momento são: o aumento da taxa respiratória, a produção de feromônios de alarme e as reações comportamentais como a fuga rápida e a imobilização”);
  • as estruturas do cérebro que transmitem a dor em outros vertebrados também são encontradas em peixes;
  • “Além disso, nas situações de risco, os peixes sentem-se estressados, reforçando a evidência de que os peixes podem sentir e reagir conscientemente a diferentes estímulos de maneira similar aos mamíferos, sob o ponto de vista da fisiologia e da psicologia.” (grifo meu)

O segundo texto foi uma reportagem de 2021 da Revista Rural chamada “Cientistas atestam capacidade dos peixes de sentir dor e emoções“. Um trecho (com grifo meu):

“Um conjunto de evidências anatômicas, fisiológicas, comportamentais, evolutivas e farmacológicas indica que os peixes são capazes de sentir dor, medo e outros sentimentos de maneira similar aos demais vertebrados, e que a sua percepção e habilidades cognitivas muitas vezes correspondem, ou excedem, a de outros vertebrados. Essa é a posição de 41 pesquisadores – biólogos, médicos veterinários e zootecnistas –, que assinam a Declaração de Senciência em Peixes.”

Depois pesquisei quanto tempo vive um peixe de aquário. Achei um texto da rede Petz, que não sei se é uma fonte confiável, dizendo que os peixe-dourado, que é o nome popular do Kinguio, têm expectativa de vida de cerca de 2 a 3 anos.

Ou seja, se esse texto estiver certo, nosso querido Douradinho viveu uma vida relativamente longa, de dezembro de 2022 a junho de 2026.

Agora vamos buscar um novo companheiro para o Pulguinha, que, na minha interpretação, ficou com bastante saudade. E vamos torcer para que os dois possam viver por bastante tempo, com muita saúde e alegria, sem dor ou sofrimento.

E agora também estarei mais atenta aos sinais que eles me enviarem, buscando interpretá-los com a consciência de que os peixes são mais parecidos com os humanos do que eu podia imaginar.

 

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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