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A sina de quem ousa desafiar a tela branca (ou: falta de inspiração aguda)

Sempre achei o fim da picada quando meus cronistas favoritos — Rubem Braga e companhia — escreviam sobre a falta de assunto para escrever.

Ora, sempre há assunto para se escrever! Você é um cronista, porra! Não precisa de pauta. Sua matéria-prima é a vida. Basta abrir a janela e ver o vizinho batucando no parapeito ao lado da irmã mais nova e imaginar o diálogo dos dois para se inspirar.

Ou pegar a conta de luz, somar ao aluguel, abrir o extrato bancário, ler o noticiário econômico e, como quem brinca de ligar os pontos, fazer uma analisezinha sobre o joelho da calça jeans que já está ficando puído. E vai continuar assim.

Ah, o aumento do salário…! Esse é o tema universal, é o assunto que interessa a todas as categorias profissionais e a todos os níveis hierárquicos e a todas as competências, aos que trabalham de mais e aos que trabalham de menos, aos que ganham mais zeros que a decência permite e aos que já se habituaram a entrar no cheque especial (quando têm cheque especial, quando têm conta em banco). Veja se não é um belo assunto para crônica em dias de pouca inspiração!

Também tem o amor. O amor é uma coisa que tá em toda esquina, só de birra, só pra nos lembrar que existe, do alto de nosso ceticismo ou amargura ou nostalgia ou pessimismo. É o casal que trabalha junto com você, é o casal de amigos em crise, é o casal de amigos apaixonadíssimos, é seu pseudonamorado que não sabe o que quer da vida, são os beijos sem idade, é o filme, é o livro, é o assento do metrô. Páginas e páginas.

Quanta cara de pau do querido Rubem vir me dizer que estava sem assunto! E gastar uma folha inteira, não-sei-quantas laudas, com o lero-lero de quem diz que está sem inspiração. Ora, é só abrir a persiana, é só observar a cidade, escutá-la, auscultá-la. Não tem desculpa, cai fora.

Mas aí eu crio um blog e me desafio a postar todo dia. E digo a mim mesma: tudo bem, quando estiver sem assunto, ou sem tempo, ou cansada, eu posto um poema ou crítica ou foto antigos, já prontos, que vão me tomar meros minutinhos operacionais.

Se mesmo assim o cansaço for tanto que a simples ideia de procurar por esses arquivos te der preguiça, você apela praquele selinho do Garfield, aquele sem-vergonha. Mas só em último caso, coisa de cinco vezes em oito meses.

Mas aí tem aquela semana em que você já pôs o poema, já pôs a foto, já pôs até o selinho e abre o computador e vê a tela em branco do WordPress e pensa: sobre o que eu escrevo? E não te ocorre NADA, sua mente é um balão de hélio.

E chega a cogitar de fuçar nos arquivos, mas uma força te impede, a força que diz: esquece, não há NADA de interessante aí. E você pega o jornal e pensa se não pode tocar em algum dos assuntos noticiados, ou mesmo copiar a crônica do Jairo Marques sobre o excesso de zelo que as pessoas estão dedicando aos animais (e se esquecendo dos humanos, estes bichos maltratados no dinheiro e no amor) ou a ótima crônica do Antônio Prata sobre os odiosos sustinhos, mas conclui que NÃO. A falta de inspiração é aguda, contaminante, dominadora — e é só sua.

E a tela persiste, teimosa, branca, desafiadora, petulante, obstinada: Cai dentro!

E a você só resta o esforço de escrever sobre o esforço que é escrever. E, antes, o esforço de pensar no que vale a pena ser dito e, quem sabe, mais tarde, lido. E o desassossego de pensar no desconforto das almas que perderam seu tempo chegando até aqui.

E bate o arrependimento. Mas é tarde. Boa noite, Rubem Braga, hoje te amo mais!

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

8 comentários em “A sina de quem ousa desafiar a tela branca (ou: falta de inspiração aguda) Deixe um comentário

  1. Aprendi que a crônica boa é aquela que no final você sente uma “delícia” nos lábios por tê-la lido e saboreado, como algo realmente (quase fisicamente) gostoso. Essa me proporcionou tal experiência. Preciso dizer mais? Sim, nunca é demais dizer: parabéns! que texto ótimo!

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