Em briga de marido e mulher, persiana de vizinho é colher

Minha ideia original era dormir. Tanto que apaguei a luz, fechei as persianas e abri a janela, pra entrar ar fresco. Ouvia apenas o tic-tic do relógio-vinil, na sala, marcando 0h50 de hoje.

Fechei os olhos.

Antes de poder revisitar os últimos acontecimentos do dia — aqueles que subsidiarão os sonhos, ainda mais se um deles for uma reportagem não terminada –, naqueles minutos sonolentos pré-exaustão, uma voz feminina, alta, me interrompeu:

— Vamos à Europa! Vamos à Argentina! Vamos viver!

Abri os olhos.

Chamou minha atenção a lógica da vizinha, que falava de uma janela no prédio ao lado, bem próxima da janela do meu quarto. Para viver, não bastava estar viva, acordar, trabalhar, pegar um cineminha de vez em quando e tomar cerveja com os amigos aos sábados. A ela, isso não basta. Viver é viajar. Ou estar bem longe daqui.

E certamente, pelo tom de voz, ela cobrava a vida do marido.

A suposição não demorou a se confirmar, quando ela disse, desta vez bem mais alto:

— Sai de perto de mim! SAI DE PERTO DE MIM!

A esta altura, eu já estava 100% alerta e esqueci de revisitar meu próprio dia boçal, que eu chamo de vida mesmo sem as viagens, para tentar entender aquela discussão despropositada.

Afinal, os dois deviam estar próximos, junto à janela, não há muito como um “sair de perto” do outro.

Mesmo sendo silencioso e discreto, sem deixar passar um murmúrio ante os gritos da mulher, o que o marido respondeu pôde ser adivinhado pela resposta que ela deu:

— Então, meu, acho que você devia comer outras pessoas.

Assustei. Lembrei daqueles sites que incentivam a trair, que estão na moda. Retomei o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça quando a sombra da insônia a cruzou pela primeira vez por causa dessa mulher: que saco, por que casais sempre têm que brigar?

Porque uma das coisas que mais odeio nesse planeta é briga de casal. Ainda mais em público. Ainda mais alto. Não podem falar num tom de voz de gente, já que escolheram morar juntos, devem se gostar e tudo o mais? Se quiserem me torturar, coloquem-me de frente pra um desses por várias horas.

A mulher prosseguiu:

— Porque você já colocou que sou gorda e feia…

Hein? Ouvi direito? Levantei. Abri uma brecha da persiana. Pus os óculos para me certificar de que ela não era uma louca perdida num monólogo.

Mas vi duas sombras na janela iluminada. Fechei as persianas com estrondo e acendi as luzes para descarregar essas lembranças num papel e tranquilizar a cabeça para o sono voltar.

E eis que volto a ouvir apenas o tic-tic do relógio da sala, marcando a 1h.

Teria sido um sonho?

Ou será que os envergonhei quando perceberam que acordei por causa das gorduras e feiúras daquela briga, e resolveram falar em tom de voz de gente um com o outro?

Ou, ainda, teria um matado o outro, janela abaixo, para ter paz na vida de novo, como nem viagem à Europa faria?

Meu lado otimista descarta tudo isso e imagina que o marido calou a mulher com um carinhoso “Vem cá, minha gordinha” e ela imediatamente se arrependeu de tê-lo mandado comer outras, porque ele é só dela e ela é só dele e a vida ainda pode valer a pena em toda a sua boçalidade.

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