Dia da Madrinha

Fica instituído que hoje, além de Dia dos Pais, é Dia da Madrinha.

E não há notícia de madrinha melhor do que a minha.

Pra começo de conversa, linda. Altona, esbelta, jovem, com longos cabelos pretos e um sorrisão de uma orelha à outra, que faz os olhinhos se espremerem como os de um japonês.

Está em todas as minhas fotos de aniversário, ou pelo menos naqueles em que eu ainda fazia festinha dentro de casa, esforçando pra que a sala comportasse tantos parentes. Nas fotos, ela é sempre esmagada por um abraço daqueles de gorila, que eu dava, com a maior força.

Também está na foto da despedida para São Paulo, da formatura do terceiro ano, da formatura da faculdade. E era ela quem ia se formar agora!

Nunca chamei a madrinha pelo nome. Madrinha bastava, era uma palavra completa, como se fosse nome próprio. E lembro quando descobri que outras primas também poderiam chamá-la assim e fiquei morrendo de ciúmes, porque era pra eu ser a Afilhada.

Não esqueço também um dia em que passei o fim de semana com ela. Era o auge da série “Arquivo X” e assistimos a uns cinco episódios seguidos.

Minha memória é mais apagada quando se trata dos churrascos na casa da Base, eu bem pequena. Mas os churrascos no sítio são muitos e o mais recente foi na festa junina deste ano, com a deliciosa canjica – sua especialidade.

Noutra ocasião, passei o feriado com ela e comemos sanduíche de presunto em plena sexta-feira da Paixão. Minha mãe perguntou, pelo telefone, o que eu tinha comido e, ao lembrar que era “pecado” comer carne vermelha naquele dia, minha madrinha respondeu, com o tom de voz sorridente de sempre: “Ah, como esquecemos, não tem problema, né…”

Não me lembro de tê-la visto brava nenhuma vez. Estava sempre com esse tom de voz sereno, de quem fala sorrindo. E olha que ela deve ter sido brava várias vezes, pra criar meus três primos e torná-los esses homens de bem, em todos os sentidos da palavra, que são hoje.

Na última vez em que a vi, estava num lugar tranquilo, cheio de passarinhos, vestindo um pijama com florezinhas rosinhas, com o cabelo sedoso e penteado. Fomos conversar ao sol e, apesar de estar com uma grave doença, ela não se desfez nem por um minuto daquele sorrisão. “Vou sair desta, vocês vão ver”, repetia, entre risos bem-humorados.

É assim que vou me lembrar dela pra sempre: o abraço forte e o jeito carinhoso de falar comigo, o astral e aparência sempre jovens, as festas juninas, aniversários, formaturas e natais passados juntos.

E, principalmente: os sorrisos entre passarinhos da Madrinha.

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