Carta a um vizinho lunático

Prezado senhor vizinho de baixo,

Venho mais uma vez falar com o senhor, mas desta vez com ruga de preocupação fincada na minha testa em relação à sua saúde mental.

Está tudo bem? Tem tomado os remédios direitinho? Algo tem te deixado estressado?

Pois tenho que te dizer que achei preocupante receber mais uma vez um interfone do meu zelador, às 23h20 de uma noite fria de domingo como esta, dizendo que meu vizinho de baixo mais uma vez pede que eu pare de fazer barulho.

Minha reação óbvia foi a seguinte:

— Este cara é louco! Eu estava lendo na minha cama!

(Na verdade eu estava sentada no computador digitando um e-mail, mas essa é uma tarefa tão silenciosa quanto ler deitada na cama, então achei que, para um senhor tão obsoleto quanto meu estimado vizinho, ler na cama resumiria mais didaticamente meu estado de letargia completa.)

— Deitada lendo?, perguntou o incrédulo zelador.

— Sim!

— Mas ele disse que se você não parar com o barulho, ele vai chamar a polícia.

(Quase pensei em chamar a polícia eu mesma, e o hospício, para apreender o senhor. Mas também seria engraçado se o senhor chamasse os tiras e eles viessem aqui bater na minha porta e vissem o jornal aberto na minha cama, o computador aberto ao lado e eu, de pijama e chinelos, revezando numa das duas atividades.)

— Pois então é algum vizinho de baixo do apartamento dele, ou sei lá eu de onde!

Detalhe: nem barulho de TV ou de rádio está rolando aqui agora. Só o tec-tec no meu teclado, que, ao que me consta, não é um barulho dos mais ensurdecedores a ponto de invadir paredes.

Portanto, meu caro vizinho, eu te peço uma gentileza: tome seus remédios direitinho, ou pare de usar drogas alucinógenas, faz favor! Se eu estivesse dormindo e recebesse a ligação estridente do interfone, seria eu a chamar a polícia. E é o que farei na próxima vez.

Grata,

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