Os juros extorsivos e a balela da inflação alta

Charge do Glauco na Folha de S.Paulo, em 2009

Texto de José de Souza Castro:

Quando vejo esses comentaristas da TV Globo e da GloboNews, entre muitos outros, muito bem remunerados, defendendo os juros altos pagos pelo governo brasileiro aos seus credores, me pego com freqüência, maldosamente, a classificá-los como lobistas do sistema financeiro. E reajo atribuindo essa avaliação mesquinha à minha notória ignorância sobre todos os assuntos, sobretudo os econômicos.

Mas hoje leio, na Folha de S. Paulo, o colunista Mark Weisbrot afirmando o seguinte:

“Como este setor [o financeiro] não tem muito interesse no crescimento e desenvolvimento – é muito mais obcecado por seus próprios lucros e por minimizar a inflação –, seu controle sobre o Banco Central e a política macroeconômica impede o Brasil de realizar seu potencial. E o potencial do país é imenso: entre 1960-1980, a economia brasileira cresceu 123% por pessoa. Se o Brasil tivesse mantido esse ritmo de crescimento, os brasileiros hoje teriam padrões de vida europeus.”

Quem é Mark Weisbrot para se contrapor a esses sábios jornalistas brasileiros que defendem os juros altos a título de combater a inflação e a seus convidados, entre eles o honrado ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega – aquele que queria privatizar o Banco do Brasil no governo Sarney? Leio que ele é norte-americano, doutor em economia pela Universidade de Michigan, que escreve uma coluna semanal para o jornal inglês The Guardian e para a Folha de S. Paulo, além de ter sua opinião publicada por mais de 550 jornais em todo o mundo.

Posso então, prosseguir. Acrescenta Weisbrot:

“A inflação está em queda no Brasil no momento – nos últimos três meses foi de 4% ao ano, contra 7% no ano passado. Tirando os interesses estreitos do setor financeiro, não existem razões para sacrificar crescimento ou emprego para reduzir a inflação. O setor financeiro é também o maior vilão por trás da sobrevalorização do real, que está prejudicando a indústria e o setor manufatureiro brasileiros. O Banco Central combate a inflação elevando o valor do real, com isso barateando as importações. Mesmo quando o governo tenta puxar o real para baixo, a nível mais competitivo, o fato de o setor financeiro negociar com vários derivativos impede de fazê-lo.

Entre os anos 2002-2011, a Argentina cresceu 90%, o Peru, 77%, e o Brasil, 43%. Não há razão pela qual o Brasil não possa ter uma das economias de mais rápido crescimento da região, ou mesmo do mundo.

Nos últimos quatro anos, o setor financeiro do Brasil cresceu cerca de 50%, três vezes mais que o setor industrial. Hoje os salários dos gerentes de alto nível estão mais altos que os dos EUA.

Isto não é apenas um enorme desperdício de recursos – é muito mais destrutivo ainda devido à influência política desse setor.”

Bem, hoje o Conselho Monetário Nacional se reúne mais uma vez e, qualquer que seja a decisão que tomar, os juros brasileiros vão continuar os mais altos do mundo…

Anúncios