Reflexões de uma fumante passiva

Vira e mexe me pego pensando o que pode levar alguém, em pleno século 21, com tantas informações disponíveis, a continuar interessado no cigarro. Como pode alguém defender veementemente um tubinho de nicotina e tabaco mesclados a umectantes, aglutinantes, flavorizantes, açúcares e dezenas de substâncias cancerígenas, pesticidas, inseticidas e gases tóxicos? Um veneno que pode causar câncer na boca, esôfago, pulmão, laringe, faringe, pâncreas, bexiga e outros órgãos vitais, além de infarto, enfisema, disfunção erétil e tantos outros problemas de saúde — para o fumante e todos os que convivem com ele e fumam passivamente.

Claro, essas substâncias viciam e um dependente químico não consegue deixar de fumar. Mas não é só a dependência química. Se fosse, seria fácil parar de fumar apenas tomando aqueles remédios que amenizam as necessidades do cérebro viciado em nicotina.

Tem a dependência psicológica — e esta é a pior de todas. É o fumante que enxerga o cigarro como um amigo, um melhor-amigo. Humaniza o tubinho. O coloca no mesmo patamar de um companheiro.

Tem o hábito — o pior de todos os vilões. O cigarro passa a ser associado e indissociável do acordar, do dormir, do depois-do-almoço, do dirigir, da pausa no trabalho, da tensão, da alegria.

Claro que tudo isso só existe, ainda assim, pelo fator químico. O cérebro fica tão eufórico quando o corpo recebe aquela descarga de nicotina, que a sensação de prazer passa a se equivaler ao prazer de um abraço apertado, de um cafuné na nuca, de um café recém-coado com um pedaço de bolo da avó, de uma risada de criança, de um beijo.

Prazer. Não é o que todo ser humano busca na vida? A morte provocada por doenças que se instalam devagarinho no nosso corpo, por anos a fio, é algo tão impalpável que não parece ter qualquer nexo com aquele tubinho fumado nos 15 ou 20 anos anteriores.

Ninguém imagina que vá acontecer consigo o que aconteceu com Bryan Lee Curtis. Ele fumava desde a adolescência e, aos 34 anos apenas, teve um enfisema pulmonar que o transformou radicalmente em apenas DOIS MESES. Morreu assim, na frente da mulher e do filho:

SP 86884 HAND DYING 2/2 FLOSe perguntassem ao Bryan, naquele remoto 1999, em que ele estava cabeludo, bigodudo, forte e posando com o filho sorridente, se ele se imaginava morto por causa do cigarro, igual a um esqueleto, dois meses depois, ele riria, daria mais um trago, e mandaria a pessoa ir amolar outro.

Prazer. Na doença?

Por outro lado, conheço dezenas de ex-fumantes. E o que eles relatam é que conseguem subir um lance de escadas correndo, brincar com as crianças por horas, e sentem o sabor das comidas como sentiam quando eram crianças, e nem se lembravam mais.

Não seriam mais felizes depois?

Como fumante passiva, não consigo conter esses meus pensamentos, dia após dia. A história de Bryan me marcou profundamente, quando eu ainda tinha 14 anos de idade, e a li pela primeira vez. Foi em parte por causa dela que nunca quis pôr um cigarro na boca. Não porque fosse ruim: eu acredito que o cigarro seja uma delícia, ou não teria tantos adeptos. Mas por medo de meu cérebro ficar à espera daquela descarga horária de nicotina e que eu associasse o prazer e a felicidade àquele tubinho de veneno, em vez de associar ao que realmente importa na vida.

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Mensagem de um ex-alcoólatra*

alcool

Não é todo dia que alguém do quilate de Ruy Castro escreve um texto como este, que saiu na “Folha” de ontem, sobre alcoolismo. Sem pieguice, sóbrio, objetivo e, ao mesmo tempo, descritivo, ele consegue nos mostrar como é triste alguém se tornar dependente — um escravo mesmo — de uma substância química, que no caso é o álcool, mas também serve para o cigarro e para as drogas ilícitas e outras vendidas em farmácias. Ele descreve a degradação do vício em 14 linhas, o suplício e alívio da recuperação em 6 linhas e reserva para a última linha a delícia da libertação, que dá significado a todos os dias da vida, agora vívidos, com nitidez, contraste de cores e sintonia.

Segue o texto do Ruy, que se chama “Há 25 anos”:

Foi num dia 25 de janeiro, como hoje. Enquanto Alice tirava o carro, abri a geladeira e, tremendo muito, servi-me de quatro copos de vodca -pura, gelada, do freezer. Copos, não doses. Cheios, cada qual tomado de um gole, e que, como sempre, desceram como água. O tremor nas mãos não traía nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e estava sem beber havia horas. Ainda não descobrira como beber dormindo.
Acordado, bebia um mínimo de dois litros de vodca por dia, só em casa — o consumo na rua era difícil de calcular. Uma vez por semana, a empregada botava os cadáveres para fora, à espera do garrafeiro. Os vizinhos deviam achar que os moradores daquela casa bebiam muito. Se soubessem que um único morador engolia aquilo tudo, não acreditariam.
Dali a pouco, estávamos na rodovia Raposo Tavares, rumo a Cotia, a 31 km de São Paulo, onde eu então morava. Sabia que, no lugar para onde Alice me levava — uma clínica para dependentes químicos –, não haveria bebida. Os quatro copos teriam de bastar até o fim do dia. Mas, e o dia seguinte? E os 30 dias seguintes? Não tinha ideia, nem me preocupava. Afinal, não vivia dizendo que “bebia porque gostava” e “seria capaz de parar quando quisesse”?
Os primeiros cinco dias foram de horror — o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Nas palestras, as vozes dos terapeutas soavam muito longe e o que eles diziam, um mistério. Os colegas de internação, fantasmas sem rosto. Mas, aos poucos, o horror passou e, em menos de duas semanas, foi sendo substituído por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver — como nunca antes. Até hoje.
Enfim, foi hoje, há 25 anos. Mas hoje é apenas mais um dia.

 

Se algum de vocês, que me leem, quiser compartilhar suas histórias de vícios, tratamentos e curas aqui no blog, sintam-se à vontade. Acho que parte do processo de superação é entendermos que não somos os únicos com problemas no mundo, e o fórum de um blog é espaço maravilhoso para esse compartilhamento de experiências, inclusive usando o anonimato para o bem.

* Os mais entendidos dizem que não existe ex-alcoólatra: a doença está com a pessoa (e só algumas pessoas têm tendência a desenvolvê-la) e deve ser observada com cuidado por toda a vida. Mas vou permitir essa liberdade poética do Ruy, que tem nosso respeito com esses 25 anos de força de vontade.