Li na revista “Jornalismo ESPM” (edição brasileira da Columbia Journalism Review, que traz reflexões importantes sobre a profissão e recomendo a todos os jornalistas e estudantes de jornalismo) deste trimestre uma notinha que me fez pensar um bocado.
Dizia que o jornal “Los Angeles Times” deu um furo ao publicar antes dos outros a ocorrência de um terremoto de grande magnitude, dando todas as informações técnicas a respeito. Só que tem um detalhe: o “repórter” que apurou e escreveu essa notícia foi um robô.
(Atenção: esses robôs são apenas softwares instalados no computador da Redação, não bonecos de lata humanoides como este que ilustra o post ;) )
Não é novidade que os robôs estão invadindo as Redações do mundo inteiro (mas não chegaram ainda ao Brasil, que eu saiba). Eles escrevem principalmente notícias que são mais simples, factuais, objetivas, como aquelas que falam como foi uma partida de futebol ou, como no exemplo, como foi o terremoto, onde estava seu epicentro e qual sua magnitude.
Basta o robô estar ligado a algum centro epistemológico, ou a algum tempo real de partida de futebol ou à Sala de Imprensa da PM. Ele saberá perfeitamente reunir as informações básicas — fulano fez um gol a tantos minutos do primeiro tempo, o outro bateu um escanteio e o terceiro sofreu pênalti. Ou então: o Batalhão tal da PM recebeu um chamado a tantas horas da madrugada, encontrou um corpo com tantos tiros e ninguém foi preso ainda — e transformá-las em um texto legível, desses que a gente sempre encontra nos portais de notícia.
E esses textos dão deixam a desejar: um pesquisador de universidade sueca submeteu aos leitores textos jornalísticos sobre jogos de futebol escritos por pessoas e por robôs e, vejam que horror: a maioria dos leitores não conseguiu distinguir um do outro!
Sendo assim, o que impediria as Redações de trocar profissionais por robôs? Eles são mais baratos, eficientes e podem fazer o trabalho de dezenas de profissionais, de diferentes editorias. Não exigem pagamento de hora extra, FGTS ou INSS. Não precisam de férias nem de fim de semana. Também podem ocupar o posto de quem faz a escuta, capturando tudo o que rádios e sites concorrentes divulgam e transformando em alertas para a Redação.
Vejo isso como um futuro inescapável para minha profissão. Inclusive porque muitos leitores não estão mais interessados em texto bonito, mas naqueles que informem sucintamente e quase em forma de relatório — que possam ser lidos num SMS da vida.
Por outro lado, ainda falta muito para que os robôs tenham a capacidade de fazer análises, emitir opiniões e, principalmente, elaborar textos que deem prazer de ler. Eles jamais poderão escrever uma crônica de futebol emocionante, que faça o torcedor relembrar cada lance com o coração aos pulos. Jamais poderão elucubrar sobre as intenções de um candidato político ao se aliar a um ex-rival. Jamais poderão escrever criticamente sobre um caso policial mal explicado ou uma lei que não serve pra nada.
Por isso, tenho pra mim que, mesmo que os robôs invadam as Redações para cobrir o arroz-com-feijão, os jornalistas que escrevem com emoção, senso crítico e análises bem-fundamentadas ainda terão vez (ufa!). Seja no jornal impresso, no portal de notícias, em um blog — ou em quaisquer plataformas novas que surjam no futuro.
No final, robôs e pessoas coexistirão, mas só os jornalistas que conseguem pensar com a própria cabeça, escrever com emoção, transmitir prazer ou indignação e errar em seus julgamentos (sim, errar, para aprender e evoluir) vão sobreviver.
Leia outros textos sobre jornalismo:






Deixe uma resposta