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Desabafo de uma jornalista

A pessoa não vai ao médico com uma doença, é diagnosticada com uma bactéria na garganta, amigdalite, é receitada um antibiótico X e rebate: — Não é assim que deveria ser, doutor. Não é essa doença nem esse o melhor remédio. Receite outro.

A pessoa não contrata os serviços de um engenheiro eletricista e, no final, diz que as instalações não deveriam ser projetadas daquele jeito.

A pessoa não vai ao dentista com dor de dente, ouve que precisa fazer um canal, e retruca que não é nada daquilo, o dentista viajou, na verdade tem de pôr uma prótese.

Nem conheço aquele que manda devolver o prato ao chef de cozinha dizendo que ele usou os ingredientes errados, se pusesse tais e tais a iguaria ficaria bem melhor.

E alguém já parou um show de um músico no meio para reclamar do solo de guitarra, que está longo demais e deveria usar outros riffs e acrescentar um acompanhamento de saxofone, pra ficar melhor?

Por que é, então, que todo mundo, todo mundo mesmo, se acha profundo conhecedor do jornalismo, da produção de um jornal, de um programa de rádio ou TV ou um portal de notícias, e sai dando palpites sobre as reportagens, dizendo que deveriam ter abordado isso e aquilo, que deveriam ter sido escritas de tal maneira ou ter sido acompanhadas por outra fotografia, ou ter sido narradas com outra entonação?

Quantos realmente conhecem os limites de espaço (papel, tempo de locução), de recursos (tempo que se gasta para fazer uma infografia e mão de obra necessária para clicar a foto ideal, por exemplo), de tempo (deadline, horário de enviar para a gráfica, logística com distribuição) e todas as técnicas de apuração de uma reportagem? Aliás, quantos, mesmo com todas as informações à disposição, têm habilidade para interpretá-las, escolhê-las, hierarquizá-las, montarem um texto lógico e decente, editá-las e amarrá-las com alguma coerência final?

Nesse país onde as pessoas saem arrotando ódio pela internet, baseadas mais no que acreditam e no partido político que idolatram religiosa e cegamente do que no conteúdo das informações e no raciocínio lógico, acredito que apenas uma minoria. Não necessariamente de pessoas que se graduaram em Comunicação Social — porque mesmo entre elas há um despreparo absurdo –, mas certamente não toda essa legião que rosna e aponta o dedo para os que estão do lado de cá da produção da notícia.

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

14 comentários em “Desabafo de uma jornalista Deixe um comentário

  1. Console-se, Cris. A vida de advogado também tem destes mesmíssimos percalços. A pessoa não se conforma com o direito aplicado, que não lhe seja favorável, quer sair vitoriosa a qualquer custo, e transfere ao advogado a responsabilidade por seus atos (p. e. aquele que, embriagado, provoca acidente, e quer provar que estava correto). Em alguns casos, a situação piora, pois a crítica é sobre o bom sucesso obtido. Parece absurdo, mas existe e é frequente. É o que chamo de síndrome do “ovo de Colombo”. Depois de concluída a causa, com inesperado sucesso, na qual o advogado “tira leite de pedra”, o próprio interessado, cuja causa obteve resultado favorável, se arvora no direito de dizer que a causa foi muito simples, que ele até já vislumbrara esse resultado (evidentemente, com a finalidade de nos induzir ao sentimento de haver cobrado caro, por algo tão simples). Na teoria, o relacionamento humano é simples, Jesus já nos ensinava, “fazei ao outro o que gostaria que a ti te fizessem”, mas na prática, prevalece o orgulho, a vaidade e muitas vezes sobressai mesmo a mesquinhez. Difícil entender, mas precisamos compreender, para continuar a luta que elegemos.
    Um forte e afetuoso abraço, Cristina.

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  2. Vou ser maldoso.

    Cris, você acaba de detonar com quase todos os colunistas de política, críticos de arte e de gastronomia e comentaristas em geral que lemos nos jornais, ouvimos nas rádios e vemos na TV. : )

    Ninguém tem conhecimento do processo, apenas do produto. Mas prontificam-se a pontificarem sobre os processos: o governo deveria aumentar juros pra combater inflação, a TIM deveria melhorar sua infra-estrutura de antenas e parar de vender pacotes de telefonia e dados, o STF deveria considerar o aborto legal/ilegal frente à Constituição, a prefeitura de Santa Maria deveria ter sido rigorosa antes de dar alvará à Boate Kiss, o MEC deveria rever a correção das redações…

    []s,

    Roberto Takata

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    • Faz sentido. Mas essa é a profissão/função desses caras: é pago para fazer essas críticas e tem gente que o lê. Assim como o ombudsman é o profissional pago para fazer todas as críticas do mundo ao trabalho do jornalista — e isso é super bem-vindo. Geralmente o crítico tem que ter um conhecimento do que ele critica. Faz cursos, passa a vida inteira cobrindo e estudando aquilo. Ou, se não tiver, ele deixa de ser lido e dá lugar a outro.

      O alvo do meu desabafo são todos os outros, que nem se dão ao trabalho de ler jornal e saem atacando 🙂

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      • Cris,

        [evil mode on]
        Não são raros os comentaristas não especializados.

        Jabor é cineasta, mas fala de política externa americana, reforma ministerial, macroeconomia, etc.

        Mainardi é escritor, mas fala sobre financiamento de campanha, psicologia e sociologia do brasileiro, etc.

        E mesmo jornalistas como Elio Gaspari, Luis Nassif, Mino Carta, Reinaldo Azevedo, etc. opinam, diagnosticam e prescrevem sobre temas tão amplos que é impossível que tenham se especializados em tudo.

        Não lhes faltam leitores.

        [Eu ia desligar o evil mode, mas parece que deu pau no programa. :)]

        []s,

        Roberto Takata

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      • hehehe, pode descer o cacete no post à vontade, sô!
        Até meu namorado já me criticou por causa do jornalismo colaborativo etc.
        Mas esses aí que vc citou são grifes. É diferente. O cara fala o que quiser que tem uma onda de pessoas pra aplaudir. Isso aí existe não só no jornalismo, mas em outras áreas tb, com aquelas pessoas que racham de ganhar dinheiro dando palestras ou escrevendo best-seller, mesmo não sendo especialistas.
        Se tem tanta gente que gosta do que ele diz/comenta/critica, por que deveria não fazer isso, não é mesmo?
        Eu estava azedando contra os que ficam dando pitacos a torto e a direito, sem nenhum conhecimento, sem agregar nada, sem fazer críticas construtivas, se aproveitando do anonimato ou distância da internet para serem agressivos e que não levam aplauso nenhum ao final, só amolam.
        😉

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      • Oi, Cris,

        Não diria que sejam tão diferentes. Parte deles, aqui nomino alguns, como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Paulo Henrique Amorim, *alimentam* conscientemente essa fogueira.

        Não há como negar o efeito deletério desse comportamento extremado nos comentários de notícias, blogues, etc. (Tem até estudos sobre como isso afeta a percepção do noticiário.) Em boa parte, sim, a imprensa também acaba vitimada. Mas parte dela é também parte disso – se beneficia até de certo modo do comportamento dos leitores não-leitores.

        []s,

        Roberto Takata

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  3. Não me esqueço da vez em que eu estava chefiando temporariamente a redação da sucursal do JB em Minas, em meados da década de 1970, e Chico Pinheiro, que havia se formado um ou dois anos antes na PUC Minas e iniciara na sucursal sua vitoriosa carreira, chegou à tardinha dizendo que soubera (ele tinha boas fontes na igreja, pois o pai, Antônio Pinheiro, era um empresário e político muito ligado a padres e bispos) que o arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud, um dos grandes apoiadores no clero do golpe de 64, havia enviado ao papa Paulo VI carta denunciando, como simpatizante do comunismo, o bispo de São Felix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga. Na verdade, ele era defensor dos índios e dos sem-terra. No dia seguinte, cedinho, Chico Pinheiro viajou para Diamantina com o fotógrafo, levando aparelho de telefoto.

    De lá me ligou dizendo que o secretário de Dom Sigaud, um padre graduado (cônego), havia negado o envio da carta, mas que numa hora de distração do entrevistado, virou um papel que estava sobre a mesa e descobriu que era uma cópia da carta. Deu um jeito de tomá-la “emprestada” (Anos mais tarde, ele contou o episódio numa entrevista à revista Imprensa e disse que o cônego deu-lhe uma cópia da carta, mas na época do fato a versão que ele me contou era outra.) A carta foi fotografada e no mesmo dia fotos e texto foram enviados à sucursal e dali à sede do jornal, no Rio.

    De lá, Juarez Bahia, que era o editor Nacional, telefonou entusiasmado e disse para o Chico Pinheiro viajar de avião, logo que possível, para entrevistar o bispo na diocese dele, lá onde o Judas perdeu as botas. Mas que a reportagem seria publicada no dia seguinte mesmo, com manchete de primeira página. Um belo furo de reportagem, em tempos bicudos. O Chico viajou levando um jornal e conseguiu encontrar o bispo e entrevistá-lo. Já então, o tema virara assunto para o restante da imprensa.

    No domingo seguinte, no Jornal dos Jornais (precursor do Observatório da Imprensa), publicado na Folha de S. Paulo, Alberto Dines fez uma crítica severa ao furo do JB. Foi como se o jornal do qual ele fora um excelente editor-chefe por 12 anos (sendo demitido três meses depois do golpe contra Allende no Chile, sobre o qual o JB fez uma edição proibida que ficou na história do jornalismo), estivesse agora a serviço da direita reacionária ao dar espaço para a deduragem de Dom Sigaud contra um bispo fiel ao Concílio Vaticano II que, por um período, pôs a igreja ao serviço preferencial dos pobres, pelo menos na teoria. Ou seja, para Alberto Dines, não interessou o esforço do repórter para conseguir um furo, com um assunto jornalisticamente interessante em qualquer época. O observador – e um dos maiores jornalistas brasileiros – viu a coisa apenas pelo viés ideológico. Foi a primeira e única vez que Dines me decepcionou.

    Mas, Cris, decepção na carreira que você escolheu é inevitável. É melhor ir se acostumando…

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  4. Cris, sempre que alguém diz “nenhum jornal publicou tal coisa” eu pergunto quantos jornais a pessoa leu. A resposta, normalmente, é nenhum. Mesmo assim, a pessoa sai por aí descendo o cacete na imprensa.

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