A pessoa não vai ao médico com uma doença, é diagnosticada com uma bactéria na garganta, amigdalite, é receitada um antibiótico X e rebate: — Não é assim que deveria ser, doutor. Não é essa doença nem esse o melhor remédio. Receite outro.
A pessoa não contrata os serviços de um engenheiro eletricista e, no final, diz que as instalações não deveriam ser projetadas daquele jeito.
A pessoa não vai ao dentista com dor de dente, ouve que precisa fazer um canal, e retruca que não é nada daquilo, o dentista viajou, na verdade tem de pôr uma prótese.
Nem conheço aquele que manda devolver o prato ao chef de cozinha dizendo que ele usou os ingredientes errados, se pusesse tais e tais a iguaria ficaria bem melhor.
E alguém já parou um show de um músico no meio para reclamar do solo de guitarra, que está longo demais e deveria usar outros riffs e acrescentar um acompanhamento de saxofone, pra ficar melhor?
Por que é, então, que todo mundo, todo mundo mesmo, se acha profundo conhecedor do jornalismo, da produção de um jornal, de um programa de rádio ou TV ou um portal de notícias, e sai dando palpites sobre as reportagens, dizendo que deveriam ter abordado isso e aquilo, que deveriam ter sido escritas de tal maneira ou ter sido acompanhadas por outra fotografia, ou ter sido narradas com outra entonação?
Quantos realmente conhecem os limites de espaço (papel, tempo de locução), de recursos (tempo que se gasta para fazer uma infografia e mão de obra necessária para clicar a foto ideal, por exemplo), de tempo (deadline, horário de enviar para a gráfica, logística com distribuição) e todas as técnicas de apuração de uma reportagem? Aliás, quantos, mesmo com todas as informações à disposição, têm habilidade para interpretá-las, escolhê-las, hierarquizá-las, montarem um texto lógico e decente, editá-las e amarrá-las com alguma coerência final?
Nesse país onde as pessoas saem arrotando ódio pela internet, baseadas mais no que acreditam e no partido político que idolatram religiosa e cegamente do que no conteúdo das informações e no raciocínio lógico, acredito que apenas uma minoria. Não necessariamente de pessoas que se graduaram em Comunicação Social — porque mesmo entre elas há um despreparo absurdo –, mas certamente não toda essa legião que rosna e aponta o dedo para os que estão do lado de cá da produção da notícia.
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