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O smartphone é mais viciante que o cigarro – e é isso que as gigantes da tecnologia querem

Foto: Jens Johnsson / Unsplash

A reportagem de capa da última revista “Superinteressante” traz informações estarrecedoras sobre um assunto que já foi tratado várias vezes aqui no blog: o vício ao smartphone (veja a lista ao fim do post).

Segundo as pesquisas citadas pela revista, hoje o smartphone é muito mais viciante que o cigarro. Nada menos que 4 bilhões de pessoas têm um – e o tiram do bolso mais de 200 vezes por dia (!).

Uma coisa interessante que a reportagem mostra é que muita gente já percebeu que passa, sim, muito tempo com o celular, mas sente dificuldades em contornar o problema (que é muito mais grave quando o viciado da vez é adolescente ou criança, já que estão muito mais vulneráveis que os adultos, frise-se!). É como um alcoólatra que já percebeu que tem que parar de beber, mas não consegue de jeito nenhum.

A revista cita duas pesquisas como exemplo disso: a primeira mostra que 30% dos brasileiros ouvidos disseram que têm problemas com o uso excessivo do smartphone, como dificuldade de concentração ou insônia, e 32% já tentaram reduzir o uso – mas não conseguiram. A segunda, feita pelo Hospital Samaritano de São Paulo, mostrou que 80% dos motoristas usam celular enquanto dirigem, ainda que 93% deles reconheçam que isso é perigoso.

E por que os smartphones são tão viciantes? A reportagem mostra que é porque as empresas de tecnologia trabalham arduamente para isso. Elas “usam estratégias da psicologia, da neurologia e até dos cassinos para transformar o celular no objeto mais viciante que já existiu”. Os aplicativos fisgam sua atenção, depois te oferecem recompensas e, por fim, nem precisam fazer nada, porque você já está lá, compartilhando fotos, clicando nos links, seguindo a modinha da vez, fazendo tudo sozinho.

Segue um trecho emblemático desta reportagem, cuja leitura na íntegra eu recomendo:

“Ao navegar pelo YouTube, por exemplo, você acha que é o capitão do barco. Mas em 70% do tempo simplesmente segue as recomendações dos robôs, como revelou em 2018 um diretor do site, Neal Mohan. Achamos que escolhemos os vídeos, mas o software escolhe para nós. E isso também pode estimular o vício. “O YouTube vem mudando seus algoritmos para que os usuários passem o maior tempo possível na plataforma, e vejam o maior número de anúncios”, diz Avi Itzkovitch, do UX Salon. Atualmente, a duração média dos vídeos no YouTube é de 13 a 14 minutos, segundo uma análise de 250 mil canais feita pelo Pew Research Center, nos EUA. Os algoritmos do site favorecem esses vídeos, pois eles permitem a inserção de mais anúncios; logo, geram mais receita. Agora você sabe por que os youtubers costumam enrolar tanto, em vez de ir direto ao ponto. Eles, e as empresas de tecnologia, querem monopolizar algo surpreendentemente valioso: a sua atenção.”

Foto: Gian Cescon / Unsplash

A principal consequência desse excesso de tecnologia em nossas vidas é que estamos perdendo a capacidade de manter a atenção, o foco, o olhar para o restante do planeta fora da telinha. Mais um trechinho: “O excesso de estímulos corrói a capacidade humana de prestar atenção. Entre 2003 e 2016, o número de casos de transtorno de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes cresceu 43% nos Estados Unidos. E mesmo quem não tem TDAH já sentiu isso na pele: parece cada vez mais difícil manter a atenção focada num livro, filme ou até vídeo do YouTube. Ela parece estar se esvaindo.”

Mas há consequências ainda mais profundas e universais do que esta.

É o que mostra a ONG Center for Humane Technology, criada pelo ex-funcionário da Google Tristan Harris, que tem como missão discutir esse problema. Veja o que diz esta ONG, na tradução feita por mim: “As plataformas tecnológicas de hoje estão numa corrida até o fundo do sistema nervoso com o objetivo de extrair a atenção humana. É uma corrida em que todos estamos perdendo. O resultado dela: dependência ou vício, isolamento social, injúrias on-line, desinformação ou fake news e polarização ideológica e manipulação política – tudo parte de um sistema interconectado que pode ser chamado de degradação humana (human downgrading) e que representa uma ameaça existencial para a humanidade. Nossa missão é reverter a degradação humana reaproximando a tecnologia com a nossa humanidade.”

Não sei se conseguirão êxito nesta missão. Como disse a “Superinteressante”, pode acontecer de, daqui a alguns anos, olharmos para trás e pensarmos: “Nossa, éramos viciados assim?” Com o mesmo pasmo com que lembramos que as pessoas fumavam dentro de aviões e de restaurantes. Mas seria preciso um movimento global nesse sentido. Porque, se depender dessas gigantes da tecnologia, nos afundaremos cada vez mais neste abismo da distração, do isolamento, do vício, da manipulação e da quase completa ausência de autonomia para lidar com tudo isso.

Leia no post de amanhã: 11 coisas que eu fiz para reduzir meu uso do smartphone

Leia outros posts sobre o vício ao smartphone:

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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