Há pouco mais de três anos, postei aqui no blog um texto que Ruy Castro escreveu sobre como se livrou (ou vem se livrando) do alcoolismo. Ao reproduzir o emocionante relato do escritor carioca, jamais imaginei que o post atrairia depoimentos ainda mais emocionantes de leitores – eles próprios vítimas do álcool, seja como dependentes ou como familiares de alcoólatras.
Hoje eu estava relendo alguns desses comentários e senti que deveria criar um post só para eles, para que pudessem alcançar outras pessoas que passam por situação parecida ou que estejam abertas à reflexão sobre um assunto tão triste e difícil.
Selecionei seis deles, que compartilho abaixo (no post original já são mais de 50 comentários).
Enviado pelo leitor Mauro:
“Tenho 23 anos e estou lutando hoje contra a dependência de álcool e outras substâncias. Comecei a beber com 15 aos e de lá até hoje só destruí a minha vida, perdi namorada, faculdade, amigos e familiares já não me aceitam! Alguns meses atrás pedi ajuda e agora estou em processo de recuperação. Aos mais jovens só posso dizer que ouçam seus pais e vocês não precisam alterar a consciência de vocês para se divertir. Quando o tratamento acabar volto pra contar e futuramente ajudar quem precisa de ajuda. Tudo tem solução, se você chegou ao fundo do poço, anime-se: o único caminho é pra cima.”
Enviado pelo leitor Eduardo:
“Não sou dos que contam o tempo sem cachaça porque não tenho paciência pra isso, acho chato: posso dizer que é tempo suficiente para haver recuperado o fio da meada, depois de quase morrer bem mais de uma vez – algumas overdoses alcoólicas, a conhecida história com a proximidade do suicídio, má ou nenhuma alimentação, etc, etc.

Passei num fogo só durante vinte e poucos anos, tenho 35. E o incrível, extraordinário, é que não sou o mesmo sujeito em mais de um aspecto. Não sinto nenhuma vontade de beber, e é como se nunca tivesse bebido, para dizer a verdade. Faço um tratamento farmacológico muito bem sucedido, e o grande barato para mim é hoje a sobriedade, sou muito mais interessante para mim mesmo assim do modo como estou, desde quando passei a me lembrar todas as manhãs de como fui me deitar na noite anterior.
O grande prejuízo que tive foi em relação à vida profissional, mas é coisa que se recupera. Quanto à vida familiar, sou um homem de sorte: mulher e filhos extraordinários, capazes de compreender até mesmo uma bebedeira de vinte e poucos anos, desde que eu leve a sério a minha abstinência perpétua.
Deixar de beber é um empreendimento interessantíssimo. Você vai recair aqui e ali, vai sofrer o cão e não apenas no começo, essas coisas. Mas vai se sentir como um neném a certa altura, e tudo vale a pena a partir daí!
O Mauro tem toda a razão. Se você bater no fundo do poço, o único caminho é pra cima.”
Enviado pelo leitor Rui:
“Tenho 40 anos e já por diversas vezes que eu consigo parar de consumir álcool, mas depois, passado um mês ou dois, lá caio em desgraça e o que era para ser apenas um copo ou dois passa a ser uma garrafa ou duas ou até três. Tenho uma família que me adora e eu a eles mas neste momento eu vou ter que arranjar forças para recomeçar a minha luta contra o vício. Não está a ser nada fácil esta luta interior. Peço todos os dias a Deus que me ajude a conseguir vencer este vício, e eu sei que um dia irei conseguir a vitória. Os meus filhos precisam de mim e eu não os posso abandonar agora, e se eu já consegui outras vezes vou voltar a conseguir, só tenho que ter coragem para não voltar a cair em tentação.”
Enviado pelo leitor Renato:
“FIQUEI 3 DIAS SEM BEBER, ESSE FOI O MÁXIMO QUE CONSEGUI FICAR DISTANTE DO ÁLCOOL. OBSERVO QUE SOU ESCRAVO DAS MINHAS SENSAÇÕES, SE ESTOU FELIZ BEBO, SE ESTOU TRISTE BEBO, SE DISCUTO COM ALGUÉM BEBO, SE ESTOU SEM FAZER NADA BEBO, SE ESTOU COM MEU FILHO BEBO… A BEBIDA VIROU COMPANHEIRO DE TODAS AS HORAS… JÁ PERDI EMPREGO, MULHER, IMÓVEIS E ETC TUDO POR CULPA DO ÁLCOOL MAS MESMO ASSIM NÃO CONSIGO ME AFASTAR DESSE DANADO…JÁ BUSQUEI JESUS, BUDA, KRISHNA OU QUALQUER FORÇA SUPERIOR MAS ATÉ O MOMENTO NÃO CONSEGUI ESSE GATILHO INICIAL PARA CONSEGUIR ME AFASTAR DA BEBIDA. NÃO ESTOU FELIZ, DEPRESSIVO E AMARGURADO COM AS COISAS DA VIDA. NÃO SEI MAIS O QUE FAZER ESTOU PERDIDO!!!”
Enviado pelo leitor Dilson:

“Eu bebi mais de 30 anos e fumei mais de 40 anos. Somente pelas graças de nosso bom DEUS e a programação de 12 passos estou vivo. Todas as dependências químicas são uma doença, não tem cura: existe recuperação a quem desejar. Com carinho, 1º passo, admitimos que éramos impotentes perante o álcool — que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas. Sem este passo é impossível qualquer recuperação, já que o alcoolismo é uma doença, não tem cura. Quem desejar de coração é impossível não conseguir. Alcoolismo é uma doença que com certeza atinge toda família. Só que é uma doença da negação: infelizmente só quando chega ao fundo do poço que vai reconhecer e aceitar. Porque não adianta a MAMÃE OU A ESPOSA querer que pare de beber, precisa ser o dependente querer de todo coração. Agora, o familiar é muito importante, precisa buscar ajuda nos lugares certos… Existe muita ajuda a quem desejar. Eu sou um milagre. Estou conseguindo evitar o 1º gole, evitar o 1º cigarro, faço trabalho voluntário, sou um instrumento de nosso bom DEUS.”
Enviado pela leitora Gabriela:
“Tenho 34 anos e sou filha de um pai que ontem completou 10 anos que perdeu sua luta para o álcool. Foi um pai maravilhoso, profissional exemplar e muito amado pelos irmãos e toda família. Eu e minha família lutamos junto com meu pai durante quase 8 anos e o vimos se degenerar dia após dia por causa da bebida. Minha mãe frequentou muito o AA sozinha pois ele mesmo nunca admitiu que precisava de ajuda. Desenvolveu cirrose hepática e vomitou sangue, ou melhor, o fígado e foi internado duas vezes. Na terceira vez infelizmente não aguentou… As marcas desse período de dor estão e estarão para sempre em meu coração…”
Você também está na luta contra a dependência do álcool ou já passou por isso ou conviveu com alguém que passou? Deixe seu relato aí nos comentários! Sua história pode ajudar a inspirar outras pessoas que estejam na mesma situação.
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