Comentários na web e o ódio contra mulheres, gays e minorias

“Você é tão feia que se ficar grávida eu mesmo te levaria a uma clínica de aborto.”

“Você é tão burra! Você se acha jornalista? Recebe para escrever um lixo desses?”

“Você tem peninha dos imigrantes? Espera até um desses muçulmanos explodir uma bomba no seu quintal e depois fala comigo!”

 

Alguma vez você já entrou na parte de comentários de um portal de notícias, leu todos eles e ficou com vontade de vomitar? Não é raro lermos ofensas generalizadas ou desferidas contra o jornalista que assina a matéria. A agressividade corre solta e o palavreado de muitos, que às vezes conseguem burlar até os moderadores, é alguma coisa no limiar da grosseria, do preconceito e do mais puro crime de ódio.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Quando lemos comentários nas redes sociais dos portais de notícias, aí a coisa degringola de vez. Como é impossível moderá-los, os palavrões estão em todo lugar, além de comentários de conteúdo homofóbico, racista ou fascista. Vez ou outra, quando a vítima é alguém famoso, a Polícia Federal investiga e prende as gangues que atuam como comentaristas profissionais do ódio. Noutros casos, o próprio Facebook bloqueia e bane essas pessoas, após receber muitas denúncias. Mas o mais comum é não acontecer nada.

Já falei sobre esse assunto aqui no blog, no post “Internet: Antro de Covardes Anônimos“. Relembre AQUI.

O que os portais de notícia têm feito para lidar com isso? 

Alguns contratam pessoas para moderar os comentários. Outros conseguem filtrar (muito mal) por meio de robôs  palavrões e outras frases indesejadas em um espaço civilizado. Muitos sites agora exigem que os leitores sejam cadastrados para poderem comentar, ou que sejam assinantes.

Blogueiro Leonardo Sakamoto virou vítima de ação orquestrada para ofendê-lo na web. Foto: reprodução/Facebook

Blogueiro Leonardo Sakamoto virou vítima de ação orquestrada para ofendê-lo na web. Foto: reprodução/Facebook

Vários portais decidiram simplesmente fechar o espaço de comentários de suas notícias — o que é uma pena, já que há casos de debates bacanas nesses espaços, como aqui mesmo neste blog, onde tenho o privilégio de ser lida por leitores pensantes. E há os blogs que acabam tomando essa decisão drástica após serem vítima de mensagens intolerantes por muito tempo, como aconteceu com o jornalista Leonardo Sakamoto (que agora descobrimos que pode ter sido uma ação orquestrada pela JBS, dona das marcas Friboi).

O jornal britânico “The Guardian” tomou uma atitude muito interessante, divulgada nesta terça-feira: se debruçou sobre seus 70 milhões de comentários, recebidos desde 2006 (inclusive aqueles bloqueados pelos moderadores), para entender esse “lado obscuro” da internet.

Eis algumas descobertas feitas pelo “Guardian” em sua pesquisa:

  • Matérias escritas por mulheres atraem mais comentários agressivos do que aquelas escritas por homens, independentemente do assunto da matéria.
  • Dos 10 jornalistas/colunistas que sofreram mais com comentários agressivos, 8 eram mulheres (sendo 4 brancas e 4 não brancas) e os dois homens eram negros.
  • Ainda dentro desses 10 que foram as maiores vítimas, três eram homossexuais, uma mulher era muçulmana e outra era judia.
  • Entre os 10 escritores que menos sofreram com comentários ofensivos, todos eram homens.
  • As mulheres escrevem mais sobre moda e muito menos sobre esporte, mundo e tecnologia. Nessas três seções onde há menos jornalistas mulheres, as poucas que se aventuraram a publicar uma matéria sofreram muito mais com comentários ofensivos. Por outro lado, homens que escreveram sobre moda também levaram a mais comentários bloqueados.
  • Alguns assuntos atraem mais comentários ofensivos que outros. Por exemplo: o conflito Israel/Palestina, feminismo e estupro.
Jornalistas contaram como se sentem afetados pelos comentários ofensivos que leem cotidianamente. Foto: Reprodução / The Guardian

Jornalistas contam como se sentem afetados pelos comentários ofensivos que leem todos os dias. Foto: Reprodução / The Guardian

CLIQUE AQUI para ler a pesquisa completa do “Guardian” e outras consequências que eles discutem.

Acho que, se os portais brasileiros fizessem uma pesquisa como esta, chegariam a um retrato parecido. Os leitores podem falar idiomas diferentes e morar em países de culturas diferentes, mas são agressivos em todo canto do mundo, especialmente contra mulheres, gays e minorias em geral. E mais ainda quando o assunto da matéria é polêmico em alguma medida, como no caso do conflito na Palestina ou, aqui no Brasil, neste momento em que vivemos, como quando as matérias são sobre o processo de impeachment da presidente Dilma — ou política em geral.

Mesmo quando viro alvo desses ataques cibernéticos, o que costuma acontecer em posts de grande repercussão, faço questão de responder a (quase) todos os comentários, como uma forma de elevar o nível da discussão e promover o debate. Certa vez, um leitor perguntou de onde vem tanta determinação para eu responder a todos os comentários e “defender a presidente Dilma”, no entender dele. Respondi o seguinte:

se você leu mesmo meus comentários, viu que eu não estava defendendo a presidente Dilma, estava defendendo meu ponto de vista. Que, neste momento, é que não cabe impeachment, fosse ela a presidente Dilma ou qualquer outro no cargo. Sobre eu responder aos comentários, vou te explicar de onde vem a determinação: desde que comecei a blogar, há 12 anos, eu me propus a responder a todos que comentassem nos meus blogs. Às vezes é difícil, porque o volume é grande e minha vida é muito atribulada e meu blog é só um hobby. Às vezes não respondo por preguiça do tom que alguns usam ou porque acho que não vale a pena discutir com algumas pessoas. Mas, na maioria das vezes, vejo uma oportunidade de acrescentar alguma informação útil para o post ou esclarecer algum ponto (como agora, te esclarecendo sua curiosidade). Acho que uma das melhores coisas de se ter um blog é poder promover um debate e os debates morrem se você só aprova comentários e os deixa sem resposta, né? Onde há discussão se eu agir apenas como a blogueira-que-tudo-sabe e ignorar os comentaristas? Prefiro ler um a um e responder à maioria: é uma forma de demonstrar que, mesmo discordando de algumas ideias, eu respeito todas as opiniões. Um abraço 🙂

E mantenho a mesma visão daquela época. Existir um espaço para comentários é algo genial e eles podem acrescentar MUITO a um trabalho jornalístico. Quantas vezes tirei pautas ou até mesmo mudei de ideia em um debate após ler sugestões ou opiniões de leitores! Mas bom seria se todos pudessem discordar com argumentos cordiais ou, pelo menos, educados. Você não acha? Comenta aí 😉


 

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5 comentários sobre “Comentários na web e o ódio contra mulheres, gays e minorias

  1. Cris,
    Admiro demais a sua dedicação quase que monástica em ler e responder a quase todos os comentários no seu blog, mesmo quando odiosos, transformando este espaço num palco livre de discussão de idéias. Apesar de não comentar muito seus textos, adoro te ler e o faço praticamente todos os dias, pois recebbo o seu feed por email (já que ando afastada de mídias sociais exatamente pelos fatos expostos por vc aqui nesse texto). Eu, particularmente, antes de começar a ler uma coluna jorbalística ou um post bloguístico, já entoo de antemão o seguinte mantra: “não leia os comentários, não leia os comentários”.
    Beijão,
    Lina.

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  2. Como sempre, ótimo post!:) Tenho horror a comentários de portais grandes como o G1! Pavor mesmo! E não entendo como os portais etc ainda aceitam, acho que o melhor mesmo é não ter nenhum comentário. Vc não acha, Cris, que em meio a milhões de comentários (mesmo que sem ofensas) fica difícil o debate e acaba ficando desnecessário? Concordo com a Lina no comentário aí de cima. Tenho cada vez mais preguiça de interação em internet por causa de tudo isso. Um beijo.

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    • Acho difícil, mas ainda possível haver um debate. Tem portais que contam com o mesmo grupinho de comentaristas fieis, que vão em toda matéria registrar sua opinião e discutir uns com os outros. Ao optar pela ideia mais drástica de fechar a área de comentários, os portais calam esses leitores, tiram deles a oportunidade de se expressarem. E voltamos ao velho formato do jornal-que-tudo-sabe e o leitor que só engole o que lhe chega — que cada dia tem menos a ver com a realidade, né? Os leitores estão cada dia mais críticos e questionadores da informação que lhes chega, o que é mto bom. Acho que o ideal ainda é investir em boa moderação, que permita elevar o nível das conversas, como o “Guardian” sugere. Bjão! 😀

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  3. Comentários na web e o ódio contra homens:

    “Concordo com a redução.Sobra mais mulher.” (sobre a redução da população masculina)

    “Quando um amigo seu chegar com um print dizendo que tem feminista que odeia homem diga que é verdade mesmo.”

    “Pois pra mim 10% ainda é muito.” (sobre a redução da população masculina)

    “Não é 10% não amor, é a população INTEIRA, mas nenhuma de nós precisamos nos preocupar com isso, pq a responsável pelo extermínio masculino é da própria seleção natural. ” (sobre a redução da população masculina)

    “as mulheres normalmente já se sentem naturalmente enojadas pelos omens, em qualquer situação, até naquelas q parecem “suaves”, vcs nos obrigaram a nos sentirmos assim, ficamos sem escolha.”

    “Aliás, já disseram aqui e repito, não é nem 10% é ZERO ZERO ZERO ZERO” (sobre a redução da população masculina)

    Fonte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/

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