Quem são os inocentes úteis do ‘Fora Dilma’

Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas - 16.8.2015

Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas – 16.8.2015

Texto escrito por José de Souza Castro:

Dois artigos de um jornalista brasileiro que há 31 anos mora no exterior e que escreve em inglês para sites estrangeiros são reveladores do que se passa hoje no Brasil. O primeiro foi publicado no “Russia Today” no dia 8 de março com o título “Lula and the BRICS in a fight to the death” e reproduzido dois dias depois pelo Portal Vermelho sob o título “Pepe Escobar: A luta é de vida ou morte; porque Lula é Brics”.

Pepe Escobar, o autor dos dois artigos, nasceu em São Paulo e trabalhou no Brasil para os jornais “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S. Paulo” e “Gazeta Mercantil”. A partir de 1985, passou a morar em Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Washington, Bangkok e Hong Kong. Entre seus livros, o “Império do Caos“, com 88 artigos traduzidos para o português, foi publicado neste ano no Brasil. Trecho da sinopse feita pela Editora Revan:

“Em cena, o cinismo de neoliberalismos, de intervenções ditas humanitárias na Líbia, na Síria e na África, de listas de abate de Obama é corrosivamente aviltante. O espetáculo da jihad-ostentação em Saint Tropez, de magnatas “comprando” a água da Patagônia, da opulência sangrenta e repressiva na Península Árabe, de mortes tratadas como “dano colateral” no Grande Oriente Médio e na África é dos mais consternadores. Os movimentos geopolíticos dos grandes jogadores do Novo Grande Jogo da Eurásia – China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia –, que pouco a pouco substitui a dominação mundial dos Estados Unidos como única superpotência, envolvem força bruta, poços, oleodutos, gasodutos, trilhões de yuans, de dólares e de euros, terrorismos, reservas de ouro e moeda, bancos, estradas, portos, bolsas de valores, exércitos, rotas marítimas e terrestres, ferrovias, corporações, mercenários, guerras declaradas ou não e populações inteiras numa rede planetária muitas e muitas vezes espantosa.”

E onde se acha o Brasil nesse cenário de caos? Para tentar uma resposta, resumi o artigo de Escobar publicado no dia 10 de março, com tradução do Coletivo Vila Vudu:

  • Não é surpresa que as três potências chaves do Brics estejam sendo atacadas simultaneamente, em várias frentes, já faz algum tempo. Contra a Rússia, a questão é a Ucrânia e a Síria, a guerra do preço do petróleo, o ataque furioso contra o rublo e a demonização ininterrupta da tal “agressão russa”. Contra a China, a coisa é uma dita “agressão chinesa” no Mar do Sul da China e o (fracassado) ataque às Bolsas de Xangai/Shenzhen.
  • O Brasil é o elo mais fraco dessas três potências emergentes crucialmente importantes. Já no final de 2014 era visível que os suspeitos de sempre fariam qualquer coisa para desestabilizar a sétima maior economia do mundo, visando a uma boa velha ‘mudança de regime’. Para tanto criaram um coquetel político-conceitual tóxico (“ingovernabilidade”), a ser usado para jogar de cara na lama toda a economia brasileira.
  • Há incontáveis razões para o golpe, como a consolidação do Banco de Desenvolvimento do Brics, mas, acima de tudo, o desejo de privatizar a imensa riqueza natural do Brasil – o petróleo.

    Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas - 16.8.2015

    Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas – 16.8.2015

  • WikiLeaks expôs em 2009, o quanto o Big Oil – especialmente ExxonMobil e Chevron – estava ativo no Brasil, tentando modificar, servindo-se de todos os meios de extorsão, uma lei proposta pelo presidente Lula para que a Petrobras fosse a única operadora de todas as reservas de petróleo do pré-sal. E abriu a exploração do petróleo no Brasil à Sinopec chinesa – parte da parceria estratégica Brasil-China.
  • Mais dia menos dia Lula teria de pagar, como Putin tem de pagar por ter-se livrado dos oligarcas cleptocratas amigos dos EUA. A bola começou a rolar quando Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) andava espionando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e vários altos funcionários da Petrobras. Continuou com o fato de que a Polícia Federal do Brasil coopera. Seus agentes recebem treinamento e/ou são controladas de perto pela CIA e FBI. E prosseguiu nos dois anos de investigações da Operação Lava Jato que revelou vasta rede de corrupção que envolve atores dentro da Petrobras, as maiores empresas construtoras brasileiras e políticos do Partido dos Trabalhadores. Para os procuradores encarregados da Operação Lava Jato, o verdadeiro negócio sempre foi, desde o início, como envolver Lula.
  • O Plano A na blitz à moda Hollywood para prender Lula era ambicioso movimento para subir as apostas; não só se pavimentaria o caminho para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (que seria declarada “culpada por associação”), como, também, já se neutralizaria Lula, impedindo-o de candidatar-se à presidência em 2018. E não havia Plano B. Como não seria difícil prever que aconteceria – e acontece muito nas ‘montagens’ do FBI – toda a ‘operação’ (da condução coercitiva de Lula) saiu pela culatra.
  • Lula não só se consagrou como mártir de uma conspiração ignóbil, mas, mais que isso, energizou suas tropas de massa. Até respeitáveis vozes conservadoras condenaram o show à moda Hollywood.
  • O professor e advogado Celso Bandeira de Mello foi diretamente ao ponto: as classes médias altas no Brasil – nas quais se reúnem quantidades estupefacientes de arrogância, ignorância e preconceito, e cujo maior sonho de toda uma vida é alcançar um apartamento em Miami – estão apavoradas, mortas de medo de que Lula volte a concorrer à presidência – e vença – em 2018.
  • Não surpreende que o juiz Sérgio Moro tenha contado com a companhia solidária, enquanto se desenrolava a Operação Lava Jato, do oligopólio midiático da família Marinho – o império midiático O Globo –, verdadeiro ninho de reacionários, nenhum deles particularmente inteligente, que mantiveram íntimas relações com a ditadura militar que, no Brasil, durou mais de 20 anos.
  • Pode-se dizer que a blitz à moda Hollywood contra Lula guarda semelhanças diretas com a primeira tentativa de golpe de Estado no Chile, em 1973, que testou as águas em termos de resposta popular, antes do golpe real.
  • A Operação Lava Jato teve o mérito de investigar a corrupção, a colusão e o tráfico de influência no Brasil, país no qual tradicionalmente a corrupção corre solta. Mas todos, todos os políticos e todos os partidos políticos teriam de ser investigados. A Operação Lava Jato não opera igualmente contra todos, porque o projeto político aliado aos Procuradores do juiz Moro absolutamente não está interessado em fazer “justiça”; a única coisa que interessa a eles é perpetuar uma crise política viciosa, como meio para fazer fracassar a 7ª maior economia do mundo, para, com isso, alcançarem seu Santo Graal: ou aquela velha suja ‘mudança de regime’, ou algum golpe branco. Mas 2016 não é 1973. Hoje já se sabe quem, no mundo, é doido por golpes para mudar regimes.

O outro artigo de Escobar, publicado em inglês no dia 28 de março foi igualmente traduzido e pode ser lido, por exemplo, AQUI.

Interessou-me especialmente o que, conforme Escobar, consta do manual das Forças Especiais para Guerra Não Convencional (GNC) dos EUA, datado de 2010: “A intenção dos esforços de GNC dos EUA é explorar vulnerabilidades políticas, militares, econômicos e psicológicos de um poder hostil, mediante o desenvolvimento e sustentação de forças de resistência, para alcançar os objetivos estratégicos dos EUA. (…) Para o futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregular”.

Segundo Escobar, atualmente, os alvos preferenciais dessa guerra são os BRICS, por incontáveis razões, dentre as quais: o movimento na direção de comerciar e negociar em suas próprias respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano; a criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS; e o confessado interesse na direção da integração da Eurásia.

Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas - 16.8.2015

Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas – 16.8.2015

Faz parte dessa guerra conseguir “a mais massiva e real desestabilização política/econômica do Brasil”, diz Escobar. Segundo ele, “o processo inclui apoiar grupos insurgentes e implantar o mais amplo descontentamento, mediante propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo. E, à medida que uma insurreição vá crescendo, deve-se intensificar a propaganda e a preparação psicológica da população para a rebelião. Assim, num parágrafo, está pintado o caso do Brasil”.

E acrescenta:

“Não surpreende que São Paulo tenha sido convertido em epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. São Paulo, o estado mais rico do Brasil, onde está também a capital econômica e financeira da América Latina, é o nodo chave numa estrutura de poder interconectada nacional/internacional. O sistema da finança global centrado em Wall Street – e que governa virtualmente todo o Ocidente – simplesmente não poderia de modo algum permitir qualquer ação de plena soberania nacional, num ator regional com a importância do Brasil”.

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Crédito: Orlando Kissner / Fotos Públicas – 16.8.2015

Antes de concluir recomendando a leitura dos dois artigos, lembro a figura patética dos que saíram às ruas, vestidos com a camisa da Seleção Brasileira, gritando “fora Dilma” e supondo, ingenuamente, que estavam assim defendendo o Brasil.

São eles os verdadeiros “inocentes úteis”. Os mais velhos por certo se lembram: em 1964, eram assim chamados pela imprensa (que fazia forte oposição ao governo João Goulart) os que se manifestavam contra um golpe que visava, como se dizia à época, livrar o país do comunismo. O comunismo perdeu força política e a cantilena agora é contra a corrupção.

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5 comentários sobre “Quem são os inocentes úteis do ‘Fora Dilma’

  1. Passei a ler o Tempo há poucos meses. Tinha um certo preconceito por conta do nome “Medioli”. No entanto, por conta da mediocridade do “grande jornal dos mineiros”, resolvi testar. Realmente, me surpreendi, não apenas com os editoriais mas com alguns comentaristas. Claro que tem a velha guarda de sempre, mas isto é de certa maneira bom. Há de existir os contrários. Somente hoje resolvi ler este blog. Quase não acreditava. Pensei tratar-se de uma pegadinha. Li tudo. Excelente, excelente. Pena que tem muito fascista e inocente útil que continuarão na mesma. Mas, enfim, é uma luz. Não posso deixar de fazer referência ao texto sobre as lembranças da mãe. Vou fazer o mesmo exercício. Na verdade, fazia quando lia as recordações.

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