- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
- Atualizado em 14.8.2026 com reportagem do g1
Há alguns dias meu amigo Leandro Bornacki fez um post em seu LinkedIn com a seguinte provocação: “Você está trabalhando mais ou menos usando AI?”
Ele escreveu o seguinte (com grifos meus em negrito):
“Desde que começamos a empregar AI em nossas rotinas, uma tarefa específica começou a ocupar mais meu tempo: a revisão e edição.
Sabe aquele texto que você recebe e precisa ajustar porque está na cara que foi todo escrito usando alguma ferramenta de AI e quem o fez não se preocupou com adequação do tom de voz, estrutura ou vocabulário mais adequados ao público?
Pois é, tem um efeito colateral da AI mal empregada que quase ninguém coloca na planilha de produtividade: o retrabalho.
Isso já ganhou até uma expressão. Brian Solis, antropólogo digital, chama de AI Tax. É o trabalho invisível de revisar, corrigir, reescrever e validar o que a AI produziu rápido demais e bom o suficiente de menos. Todo mundo que já recebeu um material e pensou “isso aqui tem cara de AI” conhece esse imposto na prática.
E tem um risco maior por trás. Quando começamos a deixar a AI pensar por nós, atrofiamos justamente a capacidade que mais importa: julgamento, contexto, critério.
Trocamos qualidade por volume. Singularidade por velocidade. Contexto por conteúdo.
Para quem trabalha com comunicação e reputação, velocidade é fundamental, mas não deve ser o objetivo. Porque quando a qualidade cai, a primeira coisa que se perde é a confiança. E confiança não tem preço de reposição.”
(Abro um nem tão breve parêntesis para dizer que acho que meu amigo pode ter usado a IA para escrever seu texto, porque principalmente os dois últimos parágrafos estão com uma linguagem bem parecida com a usada por textos do GPT. Mas, enfim, outra “taxa” chata que a IA nos trouxe foi essa quase mania que passamos a ter de tentar distinguir o que é humano do que foi criado por um robô, apontar o dedo, falar em uso de travessão, “na prática” e outros maneirismos. O que também pode estar acontecendo, como bem mostrou o Álvaro Leme há uns meses, é que, de tanto ler esses textos feitos com IA, as pessoas estejam incorporando determinadas palavras e até estruturas em seus próprios textos autorais. Mas, enfim, isso tudo é tema para outros posts.)
Fiz alguns comentários lá no post do Leandro que achei que valia trazer aqui para o blog. Reproduzo a seguir para contribuir com a reflexão:
A IA pode ter suas utilidades, como a velha calculadora sempre teve. Mas sem dúvida está entregando muita coisa ruim pasteurizada que, quem tiver a mínima preocupação com qualidade, vai ter que perder um tempo imenso pra ajustar, checar, adequar, conferir, enfim, deixar o trem do jeito que os neandertais faziam antes.
Vale a pena esse trabalho todo de refinamento, pagar essa taxa ou imposto aí que você falou? Pra maioria das coisas, tenho minhas dúvidas. Até porque ODEIO retrabalho.
Prefiro usar a IA de forma mais pontual e estratégica do que usar como um recurso que definitivamente NÃO substitui minha capacidade de apuração, escrita, senso crítico, e todas as camadas que eu só possuo por ter anos de experiência na minha área.
Acho que o ponto é: em quais situações o que ela entrega tem qualidade suficiente para o nosso padrão de qualidade? Se eu verifico que a IA é boa em fazer tabelas, e sempre me entrega tabelas com qualidade que atende o meu nível de exigência, posso continuar usando ela pra isso, por exemplo. Ela é uma ferramenta útil nesse caso.
Já se eu vejo que ela faz textos feiosos ou que não é nem um pouco confiável como apuradora de informações, não vou usar ela pra isso, porque sei que, se eu usar, meu trabalho pra checar, rechecar, ajustar, afinar, adequar, enfim, CONSERTAR o que ela fez vai ser muito maior do que se eu tivesse pegado pra fazer pra começo de conversa.
Isso se eu for uma pessoa preocupada com qualidade (que, no caso, eu sou hehe). Como muita gente não é, estamos vendo um monte de coisa sendo feita porcamente, e essas pessoas nem estão se dando ao trabalho de pagar por essa taxa básica do retrabalho que você apontou no seu post.
Pra azar de nós todos, enquanto leitores, usuários da internet, enfim, enquanto sociedade.
Eu não pus isso nos meus comentários originais, mas acrescento aqui que um dos grandes prejuízos que esse descaso com a qualidade traz para a sociedade é o avanço da desinformação, também conhecida como fake news. Se isso já era um problemão antes do ChatGPT, ficou ainda mais grave depois.
E aí, concordam com o que o Leandro disse? E com o que eu complementei? Deixem seus comentários! :D
Prejuízo anual em produtividade desperdiçada com IA pode ultrapassar US$ 9 milhões
ATUALIZAÇÃO EM 14.8.26: Dois dias depois que este post foi publicado, saiu a seguinte reportagem no g1: “‘Workslop’: os trabalhos malfeitos por IA que geram retrabalho, roubam tempo e custam milhões às empresas“.
Nela, a jornalista Rafaela Zem traz alguns dados que têm tudo a ver com o que eu coloquei aqui no blog. Diz ela:
“Em vez de aumentar a produtividade, a IA gera retrabalho e atrasa o desenvolvimento dos profissionais — em especial, os mais novos. O fenômeno já tem nome: workslop. O termo vem da junção das palavras “work” (trabalho) e “slop” (malfeito), e pode ser traduzido livremente como “trabalho desleixado”. Ele passou a ser usado para descrever tarefas geradas por IA que — na ânsia de economizar esforço ou acelerar processos — são superficiais e oferecem pouco valor prático para quem precisa utilizá-las.”
Reproduzo a seguir alguns números que aparecem na reportagem e que complementam toda a discussão que eu trouxe acima:
- 40% dos trabalhadores afirmam ter recebido algum conteúdo que se enquadra no conceito de workslop.
- Esse grupo estima que 15,4% de todo o material recebido se encaixe nessa categoria.
- Quando esse tipo de conteúdo entra no fluxo de trabalho, cria-se um efeito em cadeia. Alguém precisa conferir informações, corrigir erros ou simplesmente refazer parte da tarefa. Esse custo já foi medido. Os trabalhadores gastam, em média, 1 hora e 56 minutos lidando com cada ocorrência de workslop.
- Isso representa uma perda estimada em US$ 186 por mês para cada funcionário afetado. Em uma organização com 10 mil trabalhadores, o prejuízo anual pode ultrapassar US$ 9 milhões em produtividade desperdiçada.
- Enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA vai aumentar a produtividade, 77% dos profissionais afirmam que a carga de trabalho aumentou.
- 81% dos líderes aumentaram as expectativas sobre suas equipes após a adoção da IA, enquanto 71% dos trabalhadores relatam sinais de burnout.
- Mais da metade dos trabalhadores (53%) afirma sentir irritação diante de episódios de workslop.
- 38% relatam confusão e até sensação de desrespeito ao perceber que precisam gastar tempo corrigindo algo que deveria ter chegado pronto.
- E mais: 55% dos empregadores se arrependeram de ter demitido funcionários em função da inteligência artificial.
Pelo visto a IA está gerando mesmo, pra muita gente, mais retrabalho e estresse do que produtividade… E não sou só eu que estou falando isso ;)
E você? Está sabendo usar a IA como uma FERRAMENTA ÚTIL de verdade?
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