- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Eu estava com saudades de ler histórias em quadrinhos, ou graphic novels (no nome mais chique e adulto, rs). A última que li, em outubro do ano passado, foi Fun Home, eleito um dos melhores livros do século 21.
Então fui à melhor biblioteca de BH e peguei logo três emprestados 😉
Os dois primeiros eu escolhi por causa do autor: o belga Zidrou, cujos roteiros já tinham me encantado na série Verões Felizes.
“A obsolescência programada dos nossos sentimentos” é uma obra sobre a possibilidade de sermos felizes na velhice. Mesmo depois de perdermos o emprego (por causa do etarismo), de perdermos a renda, de não termos o que fazer para preencher nossas rotinas, de ficarmos viúvos – ou simplesmente solitários.
Os personagens principais deste livro simpático são Mediterrânea e Ulisses, que têm 61 e 59 anos, respectivamente (se não me engano). Eles descobrem o amor numa época da vida em que já não esperavam mais nenhuma grande novidade.
As ilustrações são da holandesa Aimée de Jongh, muito bonitas.

O segundo livro do Zidrou que peguei emprestado, com lindas ilustrações de Monin, foi “A Adoção”.
Ele também aborda a chamada “terceira idade”, mas sob um ângulo totalmente diferente. Aqui o foco não é o amor romântico, mas o amor entre pai e filho, ou entre vô e neta.
O personagem principal da vez é Gabriel, que custa a aceitar que o filho e a nora adotaram uma garotinha peruana de 4 anos, mas acaba fisgado pela criança. Ele, que trabalhou 50 anos num açougue, o dia inteiro, e não teve tempo de ser pai, acaba descobrindo o que é ser avô.
A história já seria fofa e legal só com isso, mas sofre uma reviravolta totalmente inesperada, que a torna ainda mais interessante.
Foi meu favorito dos três 🙂

Por fim, peguei também “Uma Irmã”, do quadrinista francês Bastien Vivès, apontado como um dos principais nomes dos quadrinhos contemporâneos. Uma das falas elogiosas da contracapa chega a dizer que ele é “o melhor dos jovens autores franceses”.
Bom, isso eu não sei (até porque a literatura francesa é muito boa), mas o livro é interessante. Menos que os outros dois, mas ainda bem pensado. E, de novo, com a vantagem de podermos mergulhar numa história relativamente densa a partir de um formato que a gente lê rapidamente. Tanto que devorei os três livros em apenas dois dias.
Desta vez, o mote não é a velhice, mas sim seu oposto, a juventude. Mas, assim como os outros, também trata de uma descoberta. Aqui, a descoberta do primeiro amor e do desejo.
O menino Antoine, de 13 anos, se apaixona pela Hélène, de 16, filha de uma amiga de sua mãe, que passa uma semana das férias de verão em sua casa de praia.
E os dois vivem juntos aquelas coisas de adolescentes, incluindo o primeiro beijo (dele), o primeiro gole de vinho (dele), o pacote completo.
Os desenhos são do próprio Bastien, em escala de cinza e bem menos bonitos que os de Monin e Aimée, mas ainda impactantes.

Vale dizer que os três livros, segundo suas edições em português, foram “aclamados pela crítica” ou “premiados em diversos países”. O que mais gostei neles, além das belas ilustrações e argumentos, foi a sensibilidade e delicadeza das abordagens.
A poesia das relações humanas, em todas as suas idades.
***
P.S. Algumas pessoas têm o engano de achar que HQs são para crianças. Mas nenhum desses livros é para crianças, ok? O único que eu deixaria o Luiz ler agora, aos 10 anos, é “A Adoção”. Os outros são claramente para adultos.
A obsolescência programada dos nossos sentimentos
Zidrou & Aimée de Jongh
Ed. Pipoca & Nanquim
146 páginas
R$ 49 digital na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
A adoção
Zidrou & Monin
Ed. Nemo
136 páginas
R$ 60 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Uma Irmã
Bastien Vivès
Ed. Nemo
212 páginas
R$ 45 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Leia mais resenhas de livros em HQs e graphic novels:
- Blues, de Robert Crumb
- Confinada, de Leandro Assis e Triscila Oliveira
- Fun Home: uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel
- Logicomix, de Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou
- Material Poético, de Alves
- Maus, de Art Spiegelman
- Oblivion, de Fabrício Martins e Laura Jardim
- Persépolis, de Marjane Satrapi
- Sabrina, de Nick Drnaso
- Só dói quando eu rio, de Ziraldo
- Sunny – O Lado Bom da Vida, de Jennifer L. Holm e Matthew Holm
- Teocrasília, de Denis Mello
- The Arte of Living, de Grant Snider
- Verões Felizes, de Zidrou e Jordi Lefebre
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Gostei da forma como os três livros parecem conversar entre si, mesmo tratando de momentos tão diferentes da vida. No fim, todos parecem girar em torno de descobertas e afetos. E confesso que “A Adoção” foi o que mais despertou minha curiosidade depois da sua resenha.
http://www.saidaminhalente.com
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Ele foi meu favoritíssimo mesmo! Depois me conta se gostou também 🙂 Eu só fui perceber sobre essa coincidência que vc apontou quando parei pra escrever no blog a respeito 🙂
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