Romances – parte 2

Agora vou escrever sobre todos os outros significados da palavra “romance”, ainda atendendo à @Helenjor.

Como não vou conseguir terminar a leitura de “Doutor Jivago” até o fim deste ano, já vou listar aqui os oito melhores romances que li em 2010:

Maus“, de Art Spiegelman, Cia das Letras, 296 págs. Tradução: Antonio de Macedo Soares.

Este livro me impressionou demais. Trata-se de uma história real sobre sobreviventes do Holocausto, contada em forma de quadrinhos, em que judeus são representados por ratos, alemães são gatos, poloneses são porcos e americanos são cães. Fora isso, toda a representação gráfica das cidades e da História é muito realista. É um livro para se ler numa sentada só e o fato de bichinhos representarem os humanos não inibe a emoção que vem com os relatos. Venceu o Pulitzer.

Ostra Feliz Não Faz Pérola“, de Rubem Alves, Planeta, 276 págs.

São reflexões sobre a vida, o amor, a beleza, as crianças, a educação, a natureza, a política, a saúde mental, a religião, a velhice e a morte. Depois de ler este livrinho, tive pra mim que Rubem Alves é um sujeito muito sábio. Vejam se não tenho razão:

“Viviam, num país do oriente, cinco cegos que mendigavam juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já haviam ouvido falar de um animal extraordinário, enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito animal que muitos afirmavam que ele era divino. Mas eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante. Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu, porque Alá ouviu suas preces, que um domador de elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal. Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres falando. Ouvindo tal rebuliço os cegos perguntaram: ” O que está acontecendo?” “Um elefante, um elefante”, responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao domador que os deixassem tocar o elefante, já que ver não podiam. O domador parou o animal e os cegos se aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado, abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante os cegos começaram a conversar. “Quem diria que o elefante é como uma corda!”, disse o primeiro. “Corda coisa nenhuma”, disse o segundo. ” É como uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o terceiro. ” O elefante é como um muro muito alto.” “Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o quarto. ” São também cegos da cabeça. Pois é claro que o elefante é como um ventarola.” ” Doidos, doidos”, disse o quinto. ” O elefante é como uma cobra enorme…” Por mais que conversassem eles não conseguiram chegar a um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a seita do deus-corda, a seita do deus-palmeira, a seita do deus-parede, a seita do deus-ventarola, a seita do deus-cobra… Assim são as religiões.”

Gato Escaldado tem Nove Vidas“, de Jeffrey Archer, Bertrand Brasil, 265 págs. Tradução: Renato Motta.

É um livro de contos, cheios de humor inglês, de histórias – verídicas, embora absurdas – ouvidas pelo autor enquanto esteve na cadeia. Os personagens são principalmente estelionatários: esse tipo simpático, cativante, que consegue ludibriar as pessoas ou o governo através de golpes inteligentes, muito bem bolados. A gente até torce pelo bandido, sabe? Tipo no filme “Nove Rainhas“.

Correspondências“, de Clarice Lispector, Rocco, 331 págs.

Deste eu já falei ontem 🙂

CLIQUE AQUI para relembrar.

Caim“, de José Saramago, Cia das Letras, 172 págs.

Este eu li num só dia, em que gastei nove horas de viagem, de avião, de São Paulo a Beagá (sim, de avião. Lembrando que de ônibus gasto oito. Vivam os tempos modernos!). O livro é uma paródia do Antigo Testamento, com o bom humor sarcástico típico de seu autor. O mais legal é perceber como somos todos familiarizados com as histórias de Jó, Abel, Noé e todos os outros personagens bíblicos, mesmo que nunca tenhamos lido a Bíblia propriamente dita. É folclore, é rico de aventuras, é absurdo, independente da crença de quem o lê.

Cidade de Ladrões“, de David Benioff, Alfaguara, 290 págs. Tradução: Álvaro Hattnher.

Aventura escrita em ritmo cinematográfico, logo não demorará a ser levada para as telas. Trata-se de uma história de sobrevivência em pleno cerco dos nazistas à Rússia, durante a Segunda Guerra Mundial. O personagem coadjuvante, Koyla, é um dos mais interessantes que li nos últimos tempos. Lev, o personagem-narrador, é mais sem graça. Um componente bom da narrativa, muito bem escrita, do tipo que prende a gente, é trazer detalhes sobre a vida dos russos naqueles tempos difíceis, de fome e frio, da guerra.

Logicomix“, de Apostolos Doxiadis e Christos Papadimitriou, WMF Martins Fontes, 347 págs. Tradução: Alexandre Boide dos Santos.

Mais um livro em quadrinhos sério, desta vez tendo como personagem central o matemático e filósofo Bertrand Russell. Trata de conceitos de matemática profunda, perscrutados pelo lógicos, que queriam encontrar a “verdade” das coisas por meio de suas equações. É um livro sobre a história, muito humana, de gênios e loucos (dois conceitos que se misturam), e sobre as tragédias em que suas vidas terminam, entre alucinações, paranóias, neuroses, esquizofrenias e outros desrumos. Também é uma história bonita da descoberta da real importância da vida (diante da miséria da guerra) por um sujeito que gastou dez anos tentando criar uma bíblia da Lógica e, apesar disso, acabou se tornando um dos pensadores pacifistas mais influentes do século 20.

Na Toca dos Leões“, de Fernando Morais, Planeta, 495 págs.

A história da publicidade brasileira, por meio da história de uma das agências mais premiadas do país, a W/Brasil, dos sócios Washington Olivetto, Gabriel Zellmeister e Javier Llussá, cujas biografias individuais já são bastante interessantes por si só. É um livro inspirador para jovens profissionais da comunicação, de um jornalista e escritor que adoro, como conto no blog Novo em Folha.

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5 comentários sobre “Romances – parte 2

  1. Como me tornei estúpido – Martin Page… é demais! Assim como o “Talvez uma história de amor”, do mesmo autor.

    Valem mto a pena!

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