Precisamos falar sobre o Google Discover

Como desativar o Google Discover no navegador Google Chrome do celular.
Como desativar o Google Discover no navegador Google Chrome do celular.

Recurso embarcado em bilhões de celulares ao redor do mundo prioriza conteúdos rasos e pouco confiáveis e vem impactando na qualidade do jornalismo; aprenda a desativar o Google Discover

Dia desses, eu estava tomando meu café da manhã, mexendo no meu celular distraidamente, quando percebi que fazia cinco minutos que estava lendo uma “matéria” absolutamente inútil e imprecisa sobre a Guiana Francesa. Ela havia aparecido pra mim, é claro, no Google Discover.

O Google Discover foi criado em 2018, mas foi só de uns dois anos pra cá que ele passou a gerar um impacto monumental na forma como os conteúdos são distribuídos na internet e, consequentemente, na qualidade do jornalismo digital.

Não sei se houve alguma mudança recente em seu algoritmo (até porque o Google nunca é transparente em relação a seus algoritmos), mas o fato é que esse recurso passou a oferecer conteúdos de forma muito mais personalizada e viciante, com base no comportamento de navegação dos usuários, tentando antecipar o que eles gostariam de ler em um portal de notícias, por exemplo.

Por isso, a gente se pega navegando por ali ao léu, sem controle, assim como já acontecia com os usuários do TikTok, dos Reels do Instagram e do YouTube. A diferença é que o Google Discover é uma plataforma de conteúdos em texto, não em vídeo.

Para mim, por exemplo, o Google Discover praticamente só mostra conteúdos relacionados a livros, filmes e séries – três temas que amo. Como sou muito cuidadosa com minhas fontes de informação, e não clico em qualquer site, no geral são conteúdos de fontes confiáveis. Mas, mesmo estes, são geralmente conteúdos rasos, de “listas” (“os 5 livros lançados neste ano que você não pode perder”, algo assim), ou com promessas ou gatilhos bizarros nos títulos (tipo “obrigatórios” ou “coisas que vão mudar sua vida”).

Para quem tem o hábito de clicar em qualquer site, aparecem também muitos conteúdos com desinformação clássica – notícia velha requentada, título distorcido ou a mais pura fake news mesmo. O Google não tem pudor em divulgar nada disso em seu Google Discover, pelo menos não em seu atual formato, que, claro, algum dia pode ser aprimorado pela big tech.

Qualidade do jornalismo também é impactada pelo algoritmo do Google

Vale lembrar que o Google Discover vem embarcado em todos os dispositivos com Android do mundo – que são 2,5 bilhões ativos em todo o planeta, segundo o próprio site do sistema operacional. Ou seja, um robô do Google pode fazer a curadoria (baseada no raso, no que engaja mais, e muitas vezes no mentiroso) de todos os conteúdos que aparecem na palma da mão de bilhões de pessoas logo que abrem o navegador. Nenhum outro editor ou veículo de imprensa jamais teve tamanho poder assim antes.

Pelo contrário: todos os portais de notícias sucumbiram a esse poder e agora estão suando para tentar emplacar seus conteúdos nessa plataforma. No último veículo de imprensa por onde passei, por exemplo, o Google Discover era o grande responsável pela audiência mensal do portal, e cheguei a escrever sobre isso, mais de uma vez, para as pessoas da minha equipe.

Em um dos emails, destaquei que “o Google não abre o jogo sobre seus critérios para emplacar o Discover” e coloquei o seguinte:

“Dentre as nossas matérias que trouxeram mais audiência via Discover nos últimos 6 meses, todas tiveram estes três fatores em comum:

1- Títulos bem diretos e informativos, sem clickbait
2- Matérias de listas ou rankings
3- Matérias que oferecem um serviço prático ao leitor”

Minha prioridade era emplacar matérias no Discover, mas desde que mantendo as boas práticas do jornalismo, como a informação confiável, os títulos objetivos e o cuidado com a ética.

Mas, de lá pra cá, muita coisa mudou. Primeiro que os títulos que aparecem no Discover hoje estão longe de ser “diretos e informativos” como o Google sempre alardeou. Os veículos também parecem ter jogado a própria ética para as cucuias, mais interessados em “bombar” a audiência emplacando um Discover do que em cuidar de seus principais valores: a credibilidade e a reputação.

Surgiram inclusive agências especializadas em SEO para Discover, que estão criando notícias fajutas, muitas totalmente fake, e que saem em vários portais de notícias pelo país afora. Outro dia, um deles noticiou: “Salário mínimo recebe aumento inesperado e sobe para R$ 1984,16” – apenas uma mentira, uma distorção dos fatos desde o título, mas que deve ter “dado cliques”.

Logo depois que me choquei com a notícia acima, li um texto muito bom do Carlos Willian Leite, publicado na Revista Bula em 30/4/2025, em que ele conta como vários portais começaram a ver suas audiências despencarem, por conta desse “apagamento” promovido pelo Google. Desesperados para não perder a audiência, muitos estão apelando para as piores práticas, como no exemplo do parágrafo anterior.

Google Discover faz o conteúdo raso substituir o relevante

Vale a pena ler a pensata dele inteira, mas selecionei alguns trechos que acho que merecem destaque:

“O Google Discover, lançado anos atrás com a promessa de entregar ao usuário conteúdos alinhados aos seus interesses, passou a funcionar como uma espécie de curadoria algorítmica definitiva. O feed deixou de sugerir reportagens de fôlego, análises críticas, ensaios profundos. No lugar, surgiram receitas, listas, horóscopos, frases recicladas de redes sociais e artigos de entretenimento efêmero.

O que define o que aparece ali? Ninguém sabe ao certo. Os engenheiros do Google dizem que são “sinais de interesse e engajamento”, “preferências inferidas”, “comportamento de navegação”. Mas esses critérios não são auditáveis, nem previsíveis. Sites que publicam conteúdo original e especializado passaram a ser eclipsados por páginas que reescrevem o que já circula — com menos cuidado, menos apuração, menos autoria.” (…)

“O Google afirma não ser uma plataforma de conteúdo, apenas um indexador. Mas, ao decidir o que indexa, e em que ordem, ele atua como um editor universal — sem responsabilidade editorial. Nenhum veículo de imprensa jamais teve tanto poder. Nem o maior conglomerado televisivo dos anos 90 podia decidir quem seria lido por bilhões com um único ajuste de código.

A busca tornou-se o próprio filtro da experiência. O Discover é o novo mural da praça pública. Mas ambos funcionam sem regulação, sem responsabilidade social e — pior — sem transparência.” (…)

“Mas o problema é mais profundo do que qualquer legislação pode resolver: trata-se de uma transformação cultural, em que o código substitui a curadoria, a métrica substitui o critério, e o raso substitui o relevante.” (…)

“Se o Google — por conveniência ou por lucro — decidiu que o que merece ser mostrado é o que prende o olhar por dez segundos, então a consequência inevitável será uma geração que já não busca entender — apenas confirmar.”

Como jornalista, acho sofrível que isso esteja acontecendo, e principalmente que vários portais de notícia supostamente sérios estejam se curvando a esse comportamento desprezível de publicar qualquer coisa apenas para tentar aparecer no Google Discover.

Como cidadã, ser pensante e leitora de notícias, me sinto preocupada com o caminho que estamos tomando, que privilegia cada vez mais o chocante, o hilário, o bizarro, o curioso – em todo caso, o vazio –, em vez de conteúdos que possam realmente agregar/informar/ensinar/fazer pensar.

Estamos emburrecendo a passos largos, e ninguém parece estar nem aí.

Como desativar o Google Discover

Fechei a janelinha inútil e cheia de erros de informação sobre a Guiana Francesa e resolvi, ainda durante meu café da manhã, desinstalar o Google Discover.

Claro: é impossível. O Google não permite desinstalar o Google Discover de um celular Android.

Mas é possível desativá-lo, o que dá quase no mesmo. Eu fiz isso, e ensino a você, que está ficando viciado nessas groselhas, como fazer o mesmo. É bem fácil, na verdade, mas eu pus até os prints das telas com o passo a passo. Para não ter dúvida.

1) Como desativar o Google Discover no Google Chrome do seu celular

Passo 1: Clique nas três bolinhas que aparecem ao lado da palavra “Discover”, destacadas em amarelo na imagem abaixo:

Como desativar o Google Discover no navegador Google Chrome do celular.

Passo 2: Vai abrir um menu. Basta clicar em “Desativar”, conforme destacado em amarelo na imagem abaixo:

Como desativar o Google Discover no navegador Google Chrome do celular.

Pronto! Seu Google Discover estará desativado no navegador Google Chrome e, quando você abrir o browser, a tela vai aparecer assim:

Como desativar o Google Discover no navegador Google Chrome do celular.

 

2) Como desativar o Google Discover no app do Google do seu celular

Para desativar no aplicativo do Google do seu celular também é fácil.

Passo 1: Clique na bolinha com a sua foto, no canto superior direito da tela do aplicativo, destacada em amarelo na imagem abaixo:

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Passo 2: Escolha a opção “Configurações”, conforme destacado em amarelo na imagem abaixo:

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Passo 3: Escolha a opção “Outras configurações”, conforme destacado em amarelo na imagem abaixo:

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Passo 4: Desmarque a opção “Discover”, conforme destacado em amarelo nas duas imagens abaixo. Ela tem que ficar cinza, não azul:

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Pronto! Seu Google Discover estará desativado no aplicativo do Google, e, quando você abrir o app no seu celular, a tela vai aparecer assim:

Como desativar o Google Discover no app do Google do celular.

Por que devemos escolher o conteúdo que lemos na internet?

Já escrevi aqui em outras ocasiões sobre outras plataformas que sugam nosso tempo e geram vários outros prejuízos. Por exemplo, redes sociais como o Instagram, o Facebook e, antes, o Orkut. Já falei também sobre o WhatsApp, o ChatGPT e, em vááárias ocasiões, sobre as fake news.

Como jornalista há 20 anos e especializada em jornalismo digital há quase o mesmo tempo, eu acompanho de perto essas plataformas de comunicação e os problemas decorrentes delas. Não estou sugerindo que a gente desinstale tudo, que saia de todos os apps e volte a viver na era dos impressos. Não é isso, e sei que essa era já ficou pra trás.

Mas acho que, sim, tem como sermos mais críticos com o conteúdo que chega até nós, e tem como nos forçarmos a praticar a curadoria do que a gente consome, em vez de apenas engolir o que chega pra gente, com os interesses mais escusos, pela escolha de uma inteligência artificial criada por empresas bilionárias do Vale do Silício.

Ao tomarmos esse tipo de cuidado, protegemos nosso tempo livre, nosso tempo de qualidade, nossa saúde mental e nossa capacidade de aprender por meio de informação qualificada, com senso crítico, ponderação e profundidade.

Além disso, se mais pessoas tomarem o mesmo cuidado, teremos uma sociedade como um todo mais educada, equilibrada e bem-informada. Quem sabe até possamos forçar as big techs a melhorar seu produto, para que seja mais compatível com essa sociedade.

E aí, vamos fazer nossa parte? 😉

Canal do blog da kikacastro no WhatsApp

Você também vai gostar destes posts:

Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

➡ Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.

➡ Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉

Canal do blog da kikacastro no WhatsAppReceba novos posts de graça por emailResponda ao censo do Blog da Kikafaceblogttblog


Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Avatar de Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo